Archive

Archive for the ‘Política’ Category

O DESEMPREGO ENTRE JOVENS: UMA EPIDEMIA GLOBAL?

>

Me digam uma coisa, meus caros leitores: por um acaso vocês sabem o que há de comum entre os “freeters”, os “hittistes”, os “shahab atileen”, os “NEETs”, os “mileuristas e os “boomerangs“? Não? Uma dica: até os chineses (sempre eles!) já os têm, membros da chamada “ant tribe”. E aí, ainda não? Vou explicar…


Todas são diferentes expressões para o mesmo grupo social: os “jovens desempregados”. Até recentemente algo comum nos países mais pobres, o fenômeno ganhou notoriedade até mesmo nos países do Hemisfério Norte. Isso sem falar no papel central que esse grupo desempenhou ns ruas e praças árabes, e que a mídia de massa global rapidamente alcunhou de “Revolução Facebook“…

“Freeter” é uma gíria japonesa resultante da fusão de dois vocábulos de línguas diferentes: o inglês “freelance” e o alemão “arbeiter” (significando “trabalhador sob demanda”, numa tradução livre). “Hittiste” é uma gíria franco-árabe, utilizada na Tunísa, que significa “aquele encostado no muro”(sic). “Mileuristas”, como são chamados na Espanha, referem-se aos jovens cujo rendimento mensal não ultrapassa a casa dos mil euros. Já no Egito, os jovens desempregados são intitulados de “shahab atileen”. Por sua vez, os britânicos, com sua inquebrantável fleuma e requintada ironia, os chamam de “NEETs”“no education, no employment, no training”. Os americanos, com o seu incrível pendor para metáforas, os chamam de geração “boomerang” (isto é, os que voltam para a casa dos pais após a faculdade) ou “waithood” (algo como a geração da espera, em referência ao fato de vivenciaram uma adolescência prolongada ou tardia na casa dos pais). Já os chineses, cientes de sua generosa demografia, lhes dão o nome de “ant tribe” – literalmente, uma multidão de formigas que lota a porta das empresas em busca de empregos de baixa qualificação e de menor rendimento salarial.

O que há de comum neste fenômeno global é a incapacidade da economia destes países em absorver a massa de jovens recém-chegada ao mercado de trabalho – em alguns casos, como caso europeu, massa essa bastante escolarizada e muito bem qualificada. O resultado disso é prá lá de previsível: desalento, revolta, transtornos psicológicos e sociais, ressentimento, subemprego, desemprego… Ou seja, um coquetel prá lá de explosivo, cujos resultados são imprevisíveis. Afinal, jovens naturalmente são vórtices de energia quando engajados e compromissados com alguma tarefa. Quando não, esse vórtice pode se tornar um reservatório perigoso de ódio, extremismo, niilismo, desalento e desagregação social.

Apesar das imagens dos jovens que tomaram de assalto as ruas e as praças do mundo árabe e que derrubaram ditaduras até então consideradas inexpugnáveis, essa massa também vem se manifestando tanto contra as reformas educacionais nos Estados Unidos e na Inglaterra, quanto contra o corte de gastos publicos em países como a Grécia e a Espanha. E, nada melhor do que os jovens mobilizados para nos mostrar quais são as reais condições de vida nestes países…

Além da crise econômica mundial, outras explicações são ensejadas. Uma delas diz que as gerações mais jovens estão sendo impedidas de ascender socialmente graças ao domínio de uma “gerontocracia” que teima em não dividir o espaço no mercado de trabalho, impedindo a oxigenação e a força criativa proveniente da entrada desse contingente no mercado de trabalho. Com o desemprego entre os jovens tendendo a ficar cada vez mais elevado, a distância entre gerações – e consequentemente o choque entre essas – será algo inevitável, com consequências bastante funestas tanto para estes quanto para a sociedade desses países.

No Oriente Médio e no norte da África, a taxa de desemprego entre os jovens gira em torno de 24% – a maior do mundo!. Nas outras partes, as taxas ultrapassaram a casa dos 10%, sendo observadas percentuais abaixo desse patamar apenas no Sudeste Asiático. Somado ao fato de que, em alguns países, a parcela maior da população esteja situada entre os 15 e 24 anos, a junção entre esse boom demográfico e o elevado desemprego é um profundo vetor de transformações sociais. Que o digam Egito, Tunísia, Líbia, Bahrein, Argélia, Marrocos…

Nem o Brasil está livre desse fenômeno. Segundo relatório recente publicado pela Organização Mundial do Trabalho (OIT), em 2009 o desemprego entre os jovens de 15 a 24 anos atingiu o patamar de 13% – ou seja, 81 milhões dos 623 milhões de jovens economicamente ativos -, tornando-se o pior indicador desde o ano de 2002.

Nos países desenvolvidos, criou-se um “fosso” entre os empregos de alta qualificação e com rendimentos elevados – interditados aos jovens, dada a sua baixa experiência do mercado de trabalho -, e os de baixa qualificação e rendimentos irrisórios – este sim destinados aos jovens. E a recessão econômica só piora a situação, podendo tornar “inútil” e irrelevante toda uma geração de novos talentos…

Se os impactos econômicos desse fenômeno são catastróficos, as implicações psicológicas do desemprego para essa geração são dramáticas. Os impactos sobre a auto-estima e a mais valia são notáveis, isso sem falar na vulnerabilidade a comportamentos anti-sociais, violentos e extremistas. Além disso, segundo estudo norte-americano recente, pessoas criadas em meio a uma recessão econômica tendem a confiar menos em seus esforços pessoais de melhoria, e preferem apoiar-se em regimes de complementação salarial promovidos pelo estado (alguma semelhança com o caso brasileiro?).

Como solucionar esse problema complexo? Algumas hipóteses vem sendo discutidas pelos especialistas como, por exemplo, o aumento do crescimento econômico e a consequente expansão de vagas. No entanto, a pergunta que não quer calar é se existe uma relação entre estas vagas e a respectiva qualificação desses jovens. 


Explico: atualmente, a maioria desses jovens no mundo desenvolvido está “overqualified”. Um exemplo disso é a ausência de mão-de-obra para suprir vagas que exijam qualificação técnica, dado que a maioria esmagadora dos jovens possui diploma superior – em grande parte, é verdade, a entrada na universidade é muito mais resultado do desemprego vigente e da falta de perspectivas do que propriamente uma opção vocacional. Consequentemente, um emprego técnico para quem tem curso superior é encarado como um retrocesso na carreira, um demérito profissional. Nos países desenvolvidos, o excesso de jovens com diploma superior é um problema para o mercado de trabalho – o que significa que nem sempre maior qualificação significa melhor qualificação…

Outra solução pensada é o empreendedorismo, isto é, o desenvolvimento de políticas públicas governamentais que visem o fomento a novos negócios para os jovens. Parodiando a fala do Presidente da Universidade de Harvard no filme “A Rede Social”, trata-se mais de “criar” um emprego do que propriamente buscá-lo no mercado de trabalho. Essa é uma alternativa interessante. Recentemente, em viagem ao Chile, pude perceber que o governo daquele país está incentivando jovens do mundo inteiro a instalarem suas start-ups de internet num complexo digital em Santiago, com uma série de subsídios governamentais (isenções fiscais, mão de obra farta e qualificada, conexões de internet de altíssima velocidade, servidores etc.). Volto a dizer que isso pode se configurar numa alternativa deveras interessante, dado o gosto e a tolerância dos jovens em empreender e assumir riscos…

SESSÃO DE CINEMA – "TROPA DE ELITE 2: O INIMIGO É OUTRO"

outubro 16, 2010 4 comentários
Escrevo o post dessa noite ainda sob o impacto de Tropa de Elite 2: O Inimigo é Outro (2010), a continuação da saga do anti-herói Capitão Nascimento – mais uma monstruosa interpretação desse excepcional ator chamado Wagner Moura – em sua luta contra o crime organizado na cidade do Rio de Janeiro, que é magistralmente dirigido por José Padilha.

Não que nada na película seja pura invencionice, efeito dramático ou novidade. Pelo contrário, Tropa de Elite 2 é o mais puro exemplar do que se convencionou chamar do “óbvio ululante” – expressão consagrada pelo escritor carioca Nelson Rodrigues. E é justamente aí, por “chover no molhado”, que reside a verdadeira potência do filme…

Tropa de Elite 2 choca, incomoda, atormenta, nos tira da zona de conforto. Nos faz, simultaneamente, rir, chorar, debochar, se deprimir e se divertir. Nos aliena e nos conscientiza. Nos tira do torpor nosso de cada dia, mas ao mesmo tempo nos faz mergulhar nas trevas do caos, da insensatez, da escuridão e da mais pura negatividade. O resumo da ópera, quando o espectador sai estupefato ao final do projeção, pode ser dado por uma única e simples expressão: “there’s no way out!”

Afinal, como o próprio diretor adverte no início do filme, “qualquer semelhança com a realidade é apenas coincidência. Essa é uma obra de ficção”. Vejam só como a ironia pode ser tão sutil e fina…

Não vou ficar aqui discutindo os meandros do filme, nem a densidade psicológica das personagens, muito menos destilando explicações psicosociológicas sobre a origem da violência no Rio de Janeiro. Para isso, aconselho fortemente os meus leitores a lerem a obra-prima da filósofa alemã Hannah Arendt, intulada “A Banalidade do Mal”. Os links são muitos, e inevitáveis…

Outra coisa: apesar de intimamente conectados, Tropa de Elite 2 é um filme bastante diferente do seu antecessor. Se no primeiro, os “caveiras” enchiam de porrada os “playboys maconheiros” da Zona Sul e “mandavam prá vala” os “buchas de canhão” do tráfico, no segundo a “parada” é muito mais “sinistra”: trata-se da substituição do poder, nas comunidades carentes cariocas, outrora nas mãos dos traficantes de droga, pelas milícias paramilitares repletas de policiais militares, bombeiros e outros “agentes da lei”, bem como suas funestas associações envolvendo a classe política. E, podem crer nisso, Tropa 2 é muito, mas muito melhor que o primeiro!!!! 

Para finalizar, visando criar expectativa nos meus leitores que porventura ainda não tenham visto o filme, uma observação: o enorme fascínio que o Capitão Nascimento exerce sobre as platéias brasileiras, independentemente de faixa etária, gênero e renda – aliás, como ponto curioso, na sessão de cinema de hoje haviam muitas crianças e adolescentes na sala. 

Seus bordões, suas frases de efeito, sua narrativa sussurante, entediada e melancólica, seu espírito alquebrado, tudo contribui para a popularidade da personagem – e que realmente rouba a cena de Tropa 2, apesar das interpretações excepcionais dos atores que vivem, respectivamente, o policial chefe da milícia e o político midiático e espertalhão que posa de “linha dura” na TV, mas é um tremendo “picareta” nos corredores do poder. 

O Capitão Nascimento fascina por ser a mais pura representação do nosso anti-herói trágico, que sofre e fica à deriva por ser refém de um destino que ele acreditava piamente ter controle. Nesse sentido, o parentesco com as personagens das tragédias gregas de Sófocles é assaz evidente. Nascimento navega sem rumo, a ermo, sem saber que o seu destino é traçado sem a sua ingerência – o que ele, pela falta de uma palavra melhor, nomeia com o vago substantivo de “O Sistema”. Nascimento sofre e faz sofrer, mata e é morto, perde o controle da sua vida profissional, pessoal e afetiva – restando-lhe apenas beber um copo de água retirado de sua geladeira, na penumbra de sua solidão e ataraxia, visando “esfriar a cebeça” e esquecer momentaneamente a realidae tétrica e lúgubre que o cerca…

Nascimento encanta por ser a projeção do nosso inconsciente, por colocar para fora todos os nossos anseios destrutivos e pensamentos mais profundos que possuímos sobre o nosso país e os nossos compatriotas. É um mundo onde a “lei de Gérson” impera, e o mais importante “é cair prá cima, certo parceiro?”. Por isso, o filme nos causa sentimentos tão contraditórios, justo por ser a expressão da identidade profunda do brasileiro, das suas marcações identitárias, da complexidade da nossa psiquê, do nosso inconsciente coletivo. Em minha humilde opinião, o filme é uma aula sobre o que é “ser brasileiro”, com todas as suas virtudes, vícios e contradições. Afinal, não somos nós que somos conhecidos no mundo inteiro por justamente “padecermos no paraíso”?

Conclamo a todos os meus leitores que vejam o filme, e comentem aqui as suas impressões. Trata-se de um filme obrigatório para todos aqueles que desejam entender a história política e social recente do nosso país. E, não é sempre temos a nossa disposição uma crônica tão verossímil e atualizada quanto essa, e que descreve em minúcias tudo aquilo que tragicamente acontece em frente aos nossos olhos…

… O “óbvio ululante”, como diria Nélson Rodrigues… Ou, melhor: seria o “Unheimlich”, aquele “Estranho” que foi tão bem descrito por Freud, e que nos assedia, incomoda e constrange todas as vezes que o inconsciente teima em romper a barreira do recalcamento?

O SALDO DESSAS ELEIÇÕES

Acabei de ler um artigo interessantíssimo do respeitado cientista político brasileiro Wanderley Guilherme dos Santos – um dos maiores do país, em minha opinião, e autor de livros precisos a respeito da sociedade brasileira – publicado na edição de quinta-feira do periódico Valor Econômico. Além de denso, o autor levanta uma série de questões que considero importantes sobre o resultado – não eleitoral, bem entendido – das eleições majoritárias deste domingo para o cenário político futuro em nosso país.

Não tenho o objetivo aqui de tecer maiores comentários, posto que o autor os expressa numa prosa elegante e sofisticada. Gostaria apenas de elencá-las abaixo, na tentativa de fomentar o debate com e entre os meus caros e argutos leitores. São eles:

1. A ocorrência de dois óbitos: o da eficácia eleitoral da política de redistribuição de renda no país, e o do efeito desestabilizador da grande mídia.

2. Os avassaladores ganhos de renda das classes econômicas menos favorecidas nos últimos anos, somado à ascensão do consumo frenético de bens e serviços, tornou um outrora “encabrestado” eleitorado de mais de 136 milhões de brasileiros cada vez mais insubmisso, tanto ao poder das elites leninistas quando ao controle dos coronéis locais. Talvez esse seja um dos saldos mais importantes para o futuro do processo político no país.

3. A redução dramática do poder das elites oligárquicas e hereditárias do nosso país ocorre a olhos vistos – leia-se o futuro raquítico do DEM, por exemplo – e o surgimento de uma “nova classe média” de consumidores do tamanho do Japão (aproximadamente 80 milhões de pessoas), não deixa muita margem de manobra para a sobrevivência dessa elite política cada vez mais desidratada. Resta-lhes, apenas, negociar com essa nova classe média, apesar de todo o ressentimento oriundo de ambos os lados que contaminará o cenário no curto prazo.

4. Grande parte das políticas sociais implementadas nos últimos anos visando atingir a população de baixa renda dispensa quaisquer tipos de intermediários – leia-se, coronéis, políticos, padrinhos e até mesmo autoridades religiosas. Consequentemente, a percepção dos favorecidos por essas políticas tende a deixar a esfera da “gratidão”, adentrando ao espectro de “obrigações mínimas” do estado. Como decorrência disto, qualquer político que queira sustentar seus ganhos políticos a partir da franquia a essas políticas sociais tende a erodir o seu capital político – logo suas chances eleitorais – a médio prazo.

5. Logo, a relação entre eleitor, político e Estado tende a sair do plano da subserviência e adentrar ao plano da obrigação do aparato estatal e dos formuladores das políticas públicas. Em decorrência disso, o “voto-gratidão” ou se torna “voto-confiança”, ou então irá migrar de dono. Talvez nesse movimento residam as bases sustentáveis para a construção de um pacto político consistente e duradouro envolvendo o cidadão e a res publica.

6. Parte considerável dessa “nova classe média” tenderá ao conservadorismo, por acreditar que existem limites à atual mobilidade social ascendente. Afinal, ganhos desse tipo não se mostram capazes de resistir a uma longa série histórica. A maioria das pessoas empregadas atualmente em postos no setor industrial ou de serviços deverá se aposentar em sua posição atual, dificilmente atingindo cargos de mando ou chegando no topo da hierarquia organizacional. E a percepção delas é que, se houver mudanças, essas deverão ser para pior. Isto é uma decorrência natural posto que, conforme as pessoas amadureçam, elas tendem a ser mais conservadoras – o que é chamado de “aversão ao risco”, ou de “potencial de votos conservadores”. Logo, nas próximas eleições, mais do que a promessa de novas alterações na ordem social, a maioria do eleitorado irá querer a consolidação das conquistas atingidas anteriormente.

7. Com os escândalos e o denuncismo jornalístico vigente, caberá aos futuros governos uma melhor escolha dos gestores de políticas públicas, objetivando-se buscar quadros que sejam melhor preparados, e que operem nos limites aceitáveis da lisura, da eficiência e da legalidade de seus atos. O cuidado com o funcionamento da engrenagem governamental deve ser permanente e habilidoso, e não meramente regido por critérios burocráticos ou de confiança. 

8. No entanto, o poder desestabilizador da grande mídia brasileira agoniza, posto haver tanto um distanciamento dos setores populares quanto dos militares – historicamente, estes últimos são forças desestabilizadoras em nossa história. Nesse sentido, o recrudescimento do denuncismo é apenas uma evidência desse fato. Porém, é preciso sempre lembrar que o mesmo leitor de jornais que recusa o exagero, acaba por aceitar o fato comprovado.

O artigo é deveras complexo, apesar de conciso. Resumi aqui os seus principais pontos com alguns comentários meus adicionais – e devo acrescentar que simpatizei com todos eles. Agora, eu gostaria de ouvir a opinião de vocês sobre essas questões. Será que podemos dizer que o saldo dessas eleições de amanhã – para além da vitória do candidato A, B ou C – é esse mesmo?

Com vocês, meus estimados leitores, a palavra… 

DE BOBO, OS CANDIDATOS NÃO TÊM NADA…

Até na hora de investir os seus recursos pessoais, os políticos não são bobos. Eles até podem ser conservadores e apresentarem uma alta aversão ao risco – como qualquer cidadão médio -, mas quando o assunto é dinheiro eles não rasgam dinheiro nem tomam sorvete pela testa. Pelo menos é o que fica evidente a partir de uma matéria publicada na edição dessa sexta-feira do periódico Valor Econômico.

Baseada na declaração de bens apresentada à Justiça Eleitoral, o jornal discute o perfil de investimento dos quatro principais candidatos à corrida presidencial de amanhã. E, o mais interessante de tudo, é que o candidato menos afeito às delícias do capitalismo financeiro é o que ironicamente está melhor posicionado quando o assunto é aproveitar os retornos de rentabilidade elevada que ele proporciona…

O candidato Plínio de Arruda Sampaio, do mega-esquerdista PSOL, é o mais arrojado dentre os concorrentes, e é o que mais diversifica os seus investimentos. A despeito de sua loquacidade verbal e de sua verve que beira o histrionismo, o “velhinho” deixa a fanfarronice de lado quando o assunto é cuidar do seu cofrinho. Seu patrimônio total é de 2,089 milhões de reais (sem contar carros e dinheiro em conta corrente), dentre os quais ele aplica 1,7 milhão em fundos multimercados sofisticados – divididos entre uma gestora de recursos independente, um banco brasileiro privado e um banco suíço. 

Como se isso não bastasse, o candidato do PSOL ainda tem uma conta em um banco americano, onde estão depositados aproximadamente 45,9 mil reais. Bastante interessante…

Já a candidata governista Dilma Rousseff encontra-se do lado oposto ao de Plínio: ela pode ser boa de voto, mas muito “ruinzinha” quando o assunto é investimentos! Segundo a matéria, a candidata “deixa” 113 mil reais (cerca de 12,5% do seu patrimônio total) imobilizado, sem aproveitar as elevadas remunerações  do mercado financeiro nacional – uma das maiores do mundo, diga-se de passagem.

O negócio da petista é investir em imóveis – basta ver que estes compõem cerca de 80% do seu patrimônio total -, o que denota um perfil extremamente conservador. A fatia deste destinada a aplicações financeiras é bem reduzida, estando localizada em produtos de perfil de baixo risco.

O candidato tucano José Serra encontra-se a meio caminho do arrojo de Plínio e do conservadorismo de Dilma – pelos deuses, como isso é irônico!!! Como a petista, Serra também gosta de imóveis e de fundos de renda fixa. A pitada de risco está na aplicação em um fundo multimercado. Outro dado interessante é que o tucano é o único dos quatro candidatos a possuir um plano de previdência privada.

Já a candidata desse Escriba que vos fala, a verde Marina Silva, é a mais “pobrezinha” da galera – dentre os concorrente, é a única a possuir um patrimônio inferior a 1 milhão de reais. Além disso, é também a única dos candidatos a não possuir recursos alocados em aplicações financeiras – além de imóveis, a candidata do PV também prefere deixar uma parte dos seus recursos “parados” em conta corrente.

Agora, imaginem se nós utilizássemos o patrimônio e portfólio de investimentos dos candidatos como base para compreender o seu posicionamento político?
Categorias:Brasil, Eleições, Política

PRÁ FRENTE BRASIL!!!

Passado o Carnaval e a decepção da Copa do Mundo, eis que o 2010 finalmente se inicia! E este é um ano fundamental para o nosso país, posto que iremos eleger a partir de novembro o novo Presidente da República para os próximos quatro anos.

Tamanha é essa responsabilidade, dado que o mundo inteiro está de olho no Brasil como potência emergente do momento. Todas as atenções estarão voltadas para nós, uma vez que temos a Copa do Mundo de Futebol em 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 como megaeventos esportivos que mobilizam uma audiência planetária…  

Entretanto, será que os brasileiros sabem o Brasil que eles querem? Mais desenvolvimento, mais escolas, maior crescimento econômico? Melhoria da qualidade de vida das pessoas – especialmente as menos favorecidas economicamente -, redução das desigualdades sociais e, por extensão, a redução da criminalidade que assola os grandes centros urbanos?

Sem ufanismo estreito, pretensão insidiosa ou arroubos megalomaníacos, eu sei bem o Brasil que eu quero. Terra na qual nasci, que aprendi a amar desde cedo, e que me identifico cada vez mais – tanto quando vou ao exterior quanto viajo por suas inúmeras cidades, repletas de pessoas trabalhadoras, amistosas e engajadas no projeto de fazer essa país melhor a cada dia que passa!

Sem o intuito de empreender qualquer proselitismo político, eu quero um Brasil com as seguintes características:

1. Mais crianças e jovens nas escolas, adultos nas Universidades e professores e pesquisadores que possam dar sustentação a essa arrancada em que atualmente vivemos;

2. Melhores condições de vida para os mais pobres, menos impostos e mais segurança para a classe média, mais emprego e dignidade para todos os brasileiros;

3. Maior comprometimento com os destinos do país por parte dos seus habitantes, mais engajamento cidadão e um comportamento eticamente responsável e honesto – abaixo a “Lei de Gérson”, que é uma ameça ao processo civilizatório e destrói os nossos laços de pertença a uma sociedade mais justa e fraterna;

4. Mais segurança para se viver e para criar os nossos filhos, sem a violência do tráfico, das milícias e das polícias;

5. Crescimento econômico sim, mas não a qualquer preço! Quero indivíduos, empresas, governos e demais membros da sociedade civil organizada envolvidos em políticas de sustentabilidade ambiental e de responsabilidade social.

Em suma, não acredito em um conceito de crescimento econômico pautado apenas pela melhoria do padrão de consumo das famílias. Diferentemente do atual presidente, discordo frontalmente da idéia de achar que qualidade de vida equivale a comprar mais fogões, geladeiras, TVs de LCD e automóveis zero quilômetro – detalhe: todos esses bens adquiridos em prestações a perder de vista, e com juros astronômicos!

Apesar de ser um profissional de marketing e um estudioso dos fenômenos de consumo, não defendo a idéia do consumismo desenfreado como a via para a felicidade e a realização pessoal. Por consumismo, entendo o padrão cultural que conduz as pessoas a achar significado, satisfação e reconhecimento fundamentalmente por meio do consumo de bens e serviços” (Estado do Mundo 2010, Worldwatch Institute).

Não é isto que eu quero, não é isto que eu penso e não é isto que eu desejo para aqueles que amo e estimo, e para as gerações futuras!

Pensem bem na hora de votar! Depende de nós a escolha certa para que possamos arrancar em direção a um futuro melhor para todos… 

PROBLEMAÇO!!!!

Época de Copa do Mundo, ufanismo total, discussões intermináveis sobre a tal da Jabulani (para quem não sabe, a tal da bola da Copa), e a mídia querendo “empurrar goela abaixo” o time retranqueiro e pouco criativo do Dunga – que, diga-se de passagem, é um tremendo chato! 

No entanto, como sou fanático por futebol, impossível não se contagiar pelo clima entusiasmante da Copa do Mundo, e o charme dessa que será o primeiro torneio do continente africano. Ao mesmo tempo, porém, estou extremamente preocupado com os preparativos da Copa do Mundo de 2014 que irá ocorrer aqui no Brasil. Anuncia-se um tremendo mico de proporções megalíticas…

Discute-se bastante por aqui o atraso na construção das obras de infra-estrutura para o espetáculo, tais como aeroportos, estradas, linhas de metrô e outros modais que irão facilitar a vida do turista em nosso país. Claro que não teremos, do dia para noite, uma infra-estrutura logística do porte de uma Alemanha por exemplo, dado a nossa inapetência e profundo desinteresse para coisas como planejamento estratégico, gestão de riscos e custos, dentre outras mais características como corrupção, ineficiência governamental e o típico e irritante improviso que às vezes beira a irresponsabilidade. 

No entanto, vale lembrar, passado esse mês, o mundo inteiro estará de olho em nós – doido para reafirmar o truísmo já consolidado mundialmente de que o Brasil não é um país sério…

Para nós, cariocas, a coisa é especialmente traumatizante dadas as lembranças do recente Pan-Americano realizado em nossa cidade. Um espetáculo em termos de explosão de gastos, obras faraônicas e promessas não cumpridas.

Pois bem, um dos maiores receios é a construção das novas arenas para os jogos que, salvo raríssimas exceções, tendem a se tornar gigantescos “elefantes brancos”. Estamos falando dos estádios a serem construídos em cidades-sede como Manaus, Cuiabá, Brasília, recife, Natal, Fortaleza e Salvador. Nada contra essas cidades, que aliás são belíssimas, mas nelas o cenário do futebol ou precisa se consolidar ou a administração profissional do negócio-futebol ainda está a léguas de distância do ideal que é requerido para uma Copa do Mundo.

O estudo inédito realizado pela Crowe Horwarth RCS intitulado “Gestão do Ativo Estádio”, e publicado semana passada no periódico Valor Econômico, revela dados um tanto o quanto preocupantes. Por exemplo, só para dar lucro, um estádio de futebol no Brasil com cerca de 50 mil lugares deverá ter uma taxa de ocupação média entre 80% a 90% – ou seja, médias observadas em campeonatos europeus, enquanto que no Campeonato Brasileiro da Série A o público atualmente não ultrapassa a ocupação de 40% do total de lugares disponíveis nos estádios.

Vale lembrar que, apesar do aumento do público do Brasileirão com o repatriamento dos jogadores que atuavam no futebol europeu, a média de torcedores nos jogos em 2009 foi de 17.807 pessoas. Só para se ter uma idéia do tamanho da encrenca em que nos metemos, a média de torcedores que acompanhou a primeira divisão do Campeonato Argentino de futebol em 2009 foi de mais de 20,8 mil torcedores por jogo! E os nossos hermanos do Sul estão numa tremenda pindaíba economica, política e social daquelas…

Como se isso não bastasse, o preço dos ingressos também deverá subir e um número maior de camarotes e espaços vips deverá ser disponibilizado para que os estádios possam ter assegurados a sua lucratividade. 

Ou seja, muito água ainda vai passar por debaixo dessa ponte. Quem viver, verá…

LULA E O MUNDO ÁRABE

Continuando o post anterior sobre a política externa do governo Lula, o movimento mais féerico desta foi a recente aproximação entre o Brasil e o Irã, além da recente visita do Presidente a Israel, Jordania e a Autoridade Palestina na Cisjordania. Marcada por certos constrangimentos – especialmente em Israel – e alguns confetes na Palestina, pode-se dizer que a viagem de Lula foi um grande factóide: muitos flashes e pouca efetividade. Afinal, ninguém em sã consciencia é capaz de afirmar que o Brasil irá mediar com sucesso um conflito tão complexo, milenar e com tantos interesses e partes envolvidas como é o contencioso israelo-palestino.

No entanto, o lado mais interessante – e menos explorado – da recente visita de Lula ao mundo árabe foi o conjunto de acordos e parcerias comerciais estabelecidas com as economias da região, especialmente com a Jordania. Considerado um “país-tampão”, criado pelos ingleses na antiquíssima lógica do “dividir para conquistar”, a Jordania – um dos poucos regimes árabes, além do Egito, a estabelecer relações diplomáticas regulares com Israel – é um oásis de estabilidade em um mundo incerto e caótico como é a região do Crescente Fértil. E tudo indica que os formuladores da política externa brasileira escolheram o país da cidade perdida de Petra – uma das 8 Maravilhas do Mundo – como porta de entrada do Brasil no Oriente Médio.

Vale lembrar que as relações entre o Brasil e o Oriente Médio são bastante antigas e consistentes, apesar da atuação discreta brasileira nos contenciosos regionais. D. Pedro II, em uma de suas visitas ao redor do mundo, foi a Terra Santa e ao Líbano tendo registrado suas impressões em diversas fotografias. O Brasil foi um dos locais preferidos para sírios e libaneses se instalarem após o desmoronamento do Império Otomano, sendo parte integrante e ativa da sociedade brasileira. Inclusive, há tres vezes mais libaneses no Brasil do que no próprio Líbano, o que nos torna portadores de uma das maiores diásporas desse país no mundo. Nos anos de chumbo da ditadura militar, onde os generais buscavam saídas para a pressão norte-americana, a África e os regimes árabes foram escolhidos como áreas de atuação intensa da diplomacia brasileira. Várias empreiteiras brasileiras auxiliaram na construção de obras de infra-estrutura em países como o Iraque, a Jordania e o Kuwait, além de serem mercados compradores de armamentos da então florescente indústria nacional (blindados, mísseis e aviões), generos alimentícios e bens de capital.

Isso sem falar na notória atuação brasileira na criação do Estado de Israel, notadamente na figura do chanceler Oswaldo Aranha, cujo martelo até hoje é guardado como relíquia pelo presidente do Knesset, sede do Poder Legislativo de Israel, sendo utilizado em suas sessões todas as vezes que há a necessidade de se colocar ordem no plenário.

Logo, não é de se espantar a recente aproximação de Lula com os governos árabes, bem como a tomada de posição pró-palestina e pró-iraniana, dado o elemento nacional-desenvolvimentista comum tanto a diplomacia petista e a diplomacia do regime militar…

A Jordania é um país com pouco mais de 6 milhões de habitantes, cuja economia é fortemente dependente da ajuda externa. O turismo é uma das fontes de obtenção de receita, dado que o país não apenas é sede de uma série de sítios bíblicos e do Império Romano, mas também os seus balneários no Mar Morto e no belíssimo Mar Vermelho são procurados no mundo inteiro. A liberalidade do costumes e a segurança diante de ameaças terroristas são outros pontos positivos, e são neles que o governo jordaniano se fia na busca de aumentar as suas receitas com a atividade turística.

Um dos exemplos de empresas brasileiras que investe no país é a Embraer, que vendeu entre 2006 e 2008 sete E-Jets para a companhia área oficial do país, a Royal Jordanian Airlines. Agora, a empresa negocia a venda de aeronaves de caça leves Super-Tucano, num contrato de aproximadamente 150 milhões de dólares. Nessa negociação, a empresa sediada no município paulista de São José dos Campos acena com a possibilidade da instalação de um entreposto de peças para diversos de seus produtos, o que é muito bem visto pelas autoridades do país.

Outra empresa que pretende lá se instalar é a Eurofarma, a terceira maior fabricante de medicamentos genéricos no Brasil. O objetivo é estabelecer uma parceria entre a empresa brasileira e suas similares na Jordania.

As duas empresas presentes no seminário comercial Brasil-Jordania realizado no mes de março em Amã, na capital jordaniana, em plena viagem do Presidente Lula, e que envolveu 70 empresas brasileiras que almejam investir no país e na região. Nessa mesma ocasião, Lula anunciou que pretende concluir as negociações de um acordo comercial entre o Mercosul e a Jordania.

Ou seja, por trás da bravata, do fanfarronismo e das manifestações do rato terceiro-mundista que ruge, residem acordos de natureza economica e comercial que, esses sim, são de extrema valia para o nosso país e o nosso povo. O resto é marketing político, mau gosto e falta de visão do todo…