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Archive for the ‘Pensamentos’ Category

"MOTTO" PARA 2011

The Grid. A digital frontier. I tried to picture clusters of information as they move through the computer. What did they look like? Ships? Motorcycles? Were the circuits like freeways? I kept dreaming of a world I thought I’d never see. And then, one day, I got in…”

Inspiração é o que é preciso. Afinal, se navegar é preciso, pensar é imperativo….

REFLEXÕES DE UMA NOITE DE DOMINGO (2)…

Para quem, como eu, traz Portugal no peito, uma imensa saudade no coração, uma nostalgia incomensurável e o gosto de sal na boca…


Ó Gente da Minha Terra

Mariza

Composição: Amália Rodrigues

“É meu e vosso este fado
Destino que nos amarra
Por mais que seja negado
Às cordas de uma guitarra
Sempre que se ouve o gemido
De uma guitarra a cantar
Fica-se logo perdido
Com vontade de chorar
Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi
E pareceria ternura
Se eu me deixasse embalar
Era maior a amargura
Menos triste o meu cantar
Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi”

REFLEXÕES DE UMA NOITE DE DOMINGO (1)…

Meu Fado Meu

Mariza

Composição: Paulo de Carvalho

“Trago um fado no meu canto
Canto a noite até ser dia
Do meu povo trago pranto
No meu canto a Mouraria
Tenho saudades de mim
Do meu amor, mais amado
Eu canto um país sem fim
O mar, a terra, o meu fado
Meu fado, meu fado, meu fado, meu fado
De mim só me falto eu
Senhora da minha vida
Do sonho, digo que é meu
E dou por mim já nascida
Trago um fado no meu canto
Na minh’alma vem guardado
Vem por dentro do meu espanto
A procura do meu fado
Meu fado, meu fado, meu fado, meu fado…”

INVERNO…

Meus ossos são frios, meu sangue é ralo. Eu busco o que é meu. O busco o que ainda não foi semeado. Eu busco os animais para cavernas quentes e mando meus pássaros para o sul. Eu ponho meus ursos para dormir e mudo o pelo de meus gatos e cães para algo mais quente. Meus lobos me guiam, seu uivo anuncia minha chegada. Os cães, lobos e raposas cantam a canção da noite, a serenata da Anciã, a minha canção.


Eu disse sim à vida e agora digo sim à Morte. E serei a primeira a ir para o outro lado.


Eu trago o frio e a morte, sim, pois este é meu legado. Eu trouxe a colheita e se você não colheu suas maçãs eu as cobrirei de gelo. Após o Samhain, tudo o que fica nos campos me pertence”.
Inicia-se o reino de Cailleach Bear. Por ser a Rainha do Inverno, é tempo de reflexão, de introspecção, de resiliência frente a tempos difíceis, a escuridão, o frio e a escassez…
Salve a nossa Rainha!
Categorias:Celtas, Eventos, Pensamentos

JOSÉ SARAMAGO (1922 – 2010)

“Não sou pessimista, o mundo é péssimo. São os pessimistas os únicos que querem mudar o mundo. Para os otimistas tudo está muito bem. Deveria-se fazer profissão e militância do pessimismo”.

“Não encontro nenhum motivo para deixar de ser o que sempre fui: alguém que está seguro de que o mundo em que vivemos não está bem feito”.
Uma singela homenagem de um brasileiro de alma lusa, que habita a beira de um rio chamado Atlântico, e que é muito agradecido pelas linhas que Saramago escreveu ao longo da sua venturosa vida…

PRIMEIRO VINHO ALEMÄO A GENTE NUNCA ESQUECE…


Sabadão ensolarado de um feriado prolongado no Rio de Janeiro é sempre um espetáculo para todos os sentidos. Para aproveitar melhor o dia, acordei cedo e me encaminhei para a rampa da Pedra Bonita, em São Conrado, para acompanhar a minha mulher que iria saltar pela primeira vez de asa delta. Apesar de ser um programa um pouco caro, é uma experiencia fantástica! Além de ver a orla da Cidade Maravilhosa do alto, e de toda a natureza daquela linda região ao redor, deu para meditar bastante e descansar a cabeça das atribulações do dia-a-dia. Só um adendo: quando eu voltar – coisa que pretendo fazer muito em breve -, dessa vez irei de parapente! Ah, seu vou…

Animado com o dia de um sol de tons outonais – por não serem mais dias tão insuportáveis de quentes -, resolvi me dar um presente renovando um item essencial da minha enoteca: novas taças de cristal para tornar a minha experiencia de degustação mais agradável. Comprei algumas taças para vinho tinto do estilo Borgonha – daquelas bem bojudas, com a borda se estreitando -, o que permite ao vinho “respirar” e, por extensão, evoluir na taça e liberar toda a sua complexidade olfativa. Também acabei comprando algumas taças para degustação de vinho branco, estas um pouco mais austeras e estreitas. Tudo isso pode parecer uma tremenda frescura para quem não aprecia vinhos com maior afinco e dedicação – coisa de “enochato”, como se diz na gíria -, mas o detalhe da taça adequada é fundamental para quem aprecia uma degustação com maior amplitude de sentidos, sejam estes de natureza visual, olfativa e gustativa…

Ato contínuo, acabei adquirindo também algumas garrafas de vinho para acompanharem as minhas novas taças – e, também, para embalarem as libações desse Escriba que vos fala, como nesse exato momento onde traço essas linhas em meu computador…

No entanto, meio por paladar, meio por preconceito, sempre dou preferencia aos tintos em detrimento dos brancos – a razão é de 3 garrafas de vinho tinto, para 1 de vinho branco. Afinal, a cor violácea dos Cabernet Sauvignon chilenos me seduz em demasia, assim como os fortes taninos dos Tannats uruguaios, os aromas dos Malbecs argentinos… Isso sem falar nos vinhos franceses, portugueses, italianos, espanhóis, libaneses…

Apesar de já admitir a presença dos vinhos rosés em minha coleção – culpa desse verão carioca insuportavelmente quente -, a minha história com os vinhos brancos é um misto de preconceito, curiosidade e encanto. Confesso que sempre tive uma certa má vontade com os brancos, até que fui apresentado aos vinhos da região francesa da Alsácia – mais especificante, os Rieslings e os Gewurztramminers -, bem como os argentinos elaborados com a uva Torrontés. Ao degustá-los, foi uma experiencia inesquecível (semelhante ao que tive no dia de hoje!). Ao girar o líquido no copo, o amarelo-palha tímido abriu-se em uma paleta olfativa absolutamente explosiva e expansiva. Foram aromas de mel, limão, maracujá, flores, melão, todos tomando de assalto o meu cérebro e me inundando com uma sensação de frescor e júbilo. Desde então, sempre que posso, incluo vinhos dessas regiões e castas na minha cesta de compras…

Nunca tinha experimentado um vinho alemão, especialmente os situados no lado contíguo da fronteira francesa. Afinal, a experiencia do brasileiro com os vinhos alemães nem sempre foi positiva – vale lembrar os tenebrosos vinhos da “garrafa azul” e os intragáveis “Liebfraumlichs” -, e durante muito tempo a combinação Alemanha e vinho carregava esse estigma extremamente negativo. No entanto, sempre li e ouvi falar da fama dos Rieslings da terra de Odin, Frey, Freyja e Thor, e resolvi experimentar uma garrafa para tirar as minhas próprias conclusões.

Escolhi um vinho regional (weingut) da vinícola Balthasar Rees – um Rheingau Riseling Kabinett Trocken, safra 2000. Pois é meus leitores, degustar um vinho alemão é também andar com um dicionário debaixo do braço… Du hast mich!

Os vinhedos da Balthasar Rees estendem-se por cerca de 3.000 hectares na região do Rheingau (literalmente, “distrito do Reno”), uma das 13 regiões produtoras dos vinhos de qualidade da vitivinicultura germanica. Situada no estado de Hesse, a região é conhecida pelos vinhos da casta Riseling, uma casta complexa que é caracterizada por gerar vinhos bastante ácidos e extremamente aromáticos – ou seja, a verdadeira maravilha em forma de vinho! Já um vinho Kabinett recebe essa denominação por ser de primeira colheita, de caráter leve, para ser bebido de maneira descontraída e descompromissada. Ele pode ser semi-seco (lieblich), seco (trocken) ou extra-seco (halbtrocken). Logo, o que repousa em minha taça é um Riseling de primeira colheita seco… e maravilhoso!

São vinhos leves, pouco alcóolicos (11%) e bastante ácidos, com aromas de mel, maçã, flores e toques minerais. Na taça, ele evolui com elegancia ao longo do tempo liberando a sua complexidade aromática. 90% dos vinhedos na região do Rheingau são cultivados com a uva Riesling, tornando-a a rainha da vitivincultura germanica. Isso se deve em grande parte à resistencia da casta diante das baixas temperaturas que caracterizam o país, e registros históricos mostram que o seu cultivo remonta ao século XV. São ótimos vinhos para acompanhar pratos leves como saladas, peixes e sobremesas a base de frutas. Ou então, para beber descompromissadamente em um dia tórrido de verão…

Todas essas qualidades eu encontrei no vinho da Balthasar Rees. Apesar de um tanto “velho” para o meu gosto (ano 2000), suas características florais e frutadas permaneceram intactas. Um belo encerramento para um dia tão alegre e solar. Logo, se estiverem diante de uma garrafa dessas, não pestanejem!

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PS: E,também, não deixem de pular de asa delta! Eu recomendo!!!

PSICODELIA No. 1

Suaves cavaleiros deslizavam pelas dunas, roçando seus dedos de cetim em almiscarados brocados que adornavam as suas armaduras, dando um ar nobre as suas montarias mais do que já eram – e, por suposto, deveriam aparentar. Vistos de longe, estes assemelhavam-se a silhuetas longilíneas cujas sombras projetadas lembravam a imponencia de zigurates antigos, oriundos de longínquas terras e ancestrais épocas, mas que agora cavalgavam firme e decididamente em direção ao premio tão sonhado: a cidadela fortificada de espelhos, em meio a dunas perdidas que enlouqueciam os guerreiros que tanto a ansiavam.

Tais como guerreiros de terracota, indestrutíveis e decididos, eles demoraram séculos até achá-la, em meio a brumas, tempestades de areia, oásis e histórias que os povoados em tão erma terra entoavam em busca de algum encantamento em meio ao monótono, incansável e mortal deserto de areia. Ao finalmente adentrarem a cidade, e para o espanto de todos que lá habitavam, uma lufada de ar fresco e a brisa úmida de uma chuva improvável anunciavam uma promessa de caos e de destruição. Logo, o horror estava estampado na face de cada um, e todos, sem exceção, agarravam ferozmente suas tenues vidas em esperanças vazias do retorno de heróis que, desde muito tempo atrás, tinham sido varridos por tempestades de areia em priscas eras. Afinal, diziam eles, são guerreiros de terracota, e não resistirão por muito tempo a mais feroz de nossas tormentas: o deserto…

Nesse ínterim, andarilhos desesperançados buscavam a atenção dos atordoados transeuntes, em busca de reconhecimento, esperança e fé. Circulavam atonitos pelas alamedas e medinas, esquivando-se do ardor do sol do deserto que calcinava impiedosamente a pele e cegava os olhos, em meio ao burburinho caótico que tomava de assalto as ruas da cidadela. O tom alvo da paisagem árida e erma contrastava com o sanguíneo latejar dos pulsos que se entreolhavam, das batidas entrecortadas do coração de cada um, que quase deixavam surdo o visitante pouco atento as idiossincrasias que habitam o peito do homem quando este é sobrepujado pelo sentimento de medo e de desamparo. É nessas horas que homens destemidos se tornam meninos, e meninos mais do que nunca teimam em não amadurecer, ciosos de que é preferível morrer inocente do que tragado pelos horrores e agruras da vida…

A aridez do deserto e a secura da boca levava a todos buscarem um refresco na fonte de água localizada no centro do souq. O verde esmaltado de seus delicados arcos lembrava finas laminas de jade importadas de distantes terras maias – um improvável porém firme comércio, estabelecido entre povos distantes mas que tinham muito mais em comum do que se poderia supor. Afinal, irmanavam-se a partir de crenças apocalípticas e escatológicas que rememoravam o fato de que o fim do mundo é sempre uma porta entreaberta e próxima – uma hipótese a ser levada em consideração no complexo contexto do horizonte de possibilidades existenciais…

No canto esquerdo da grande praça do mercado, situava-se o majestoso palácio de cristal que tanto encantava quanto amedrontava o visitante bissexto que para lá acorria. É para lá, também, onde a população acorria quando significativas ameaças pairavam sobre a cidadela.

Uma espécie de transe eletrizava a massa que lá acampava diante de seu magnífico jardim, repleto de cores, luzes, fontes e esculturas. Seu gigantesco frontispício estava recoberto de símbolos antigos entalhados em cada portal de formato de um hexágono, cada qual postado em cada entrada, cada saída de escape. Lá, encrustavam-se pletoras de diferentes símbolos mágicos como runas, triskellions, árvores, traços do I Ching, animais totemicos, diversas e elegantes mandalas, todas encimadas por arcanos maiores que zelavam pela ordem nesse aparente caos de imagens, sinais e símbolos.

Em seu interior, seus maravilhosos e avassaladores espelhos concentricos lembravam a qualquer desavisado conquistador a dificuldade em se tomar a cidadela. Afinal, tal como uma donzela meiga porém traiçoeira, a tarefa assaz dificultuosa de adentrar em suas entranhas era deveras arriscada, dado que conquistador e conquistado se confundiam no projetar dos infinitos espelhos, num infernal e diabólico arranjo. O perigo, bem entendido, não era lá chegar, mas sim enlouquecer na imensidão do fugaz escape das imagens projetadas na infinitude especular.

Não por acaso que os habitantes da cidadela diziam que nunca ninguém tinha de lá retornado são, quando não desaparecido para sempre, dado sua corporeidade ter sido esvaída pelo jogo infernal dos espelhos que imiscuiam-se ao corpo físico, drenando toda a sua substancia vital. Logo, os espectros formavam-se em fila, aterrorizados em sua vacuidade, e os lamúrios tétricos dos esvaídos inundavam a sala de horripilantes e angustiados sons, servindo de lembrete aos seus visitantes de que nunca se atrevessem a ultrapassar o umbral que separava Este do Outro Mundo
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