Arquivo

Archive for the ‘Jovens’ Category

O DESEMPREGO ENTRE JOVENS: UMA EPIDEMIA GLOBAL?

>

Me digam uma coisa, meus caros leitores: por um acaso vocês sabem o que há de comum entre os “freeters”, os “hittistes”, os “shahab atileen”, os “NEETs”, os “mileuristas e os “boomerangs“? Não? Uma dica: até os chineses (sempre eles!) já os têm, membros da chamada “ant tribe”. E aí, ainda não? Vou explicar…


Todas são diferentes expressões para o mesmo grupo social: os “jovens desempregados”. Até recentemente algo comum nos países mais pobres, o fenômeno ganhou notoriedade até mesmo nos países do Hemisfério Norte. Isso sem falar no papel central que esse grupo desempenhou ns ruas e praças árabes, e que a mídia de massa global rapidamente alcunhou de “Revolução Facebook“…

“Freeter” é uma gíria japonesa resultante da fusão de dois vocábulos de línguas diferentes: o inglês “freelance” e o alemão “arbeiter” (significando “trabalhador sob demanda”, numa tradução livre). “Hittiste” é uma gíria franco-árabe, utilizada na Tunísa, que significa “aquele encostado no muro”(sic). “Mileuristas”, como são chamados na Espanha, referem-se aos jovens cujo rendimento mensal não ultrapassa a casa dos mil euros. Já no Egito, os jovens desempregados são intitulados de “shahab atileen”. Por sua vez, os britânicos, com sua inquebrantável fleuma e requintada ironia, os chamam de “NEETs”“no education, no employment, no training”. Os americanos, com o seu incrível pendor para metáforas, os chamam de geração “boomerang” (isto é, os que voltam para a casa dos pais após a faculdade) ou “waithood” (algo como a geração da espera, em referência ao fato de vivenciaram uma adolescência prolongada ou tardia na casa dos pais). Já os chineses, cientes de sua generosa demografia, lhes dão o nome de “ant tribe” – literalmente, uma multidão de formigas que lota a porta das empresas em busca de empregos de baixa qualificação e de menor rendimento salarial.

O que há de comum neste fenômeno global é a incapacidade da economia destes países em absorver a massa de jovens recém-chegada ao mercado de trabalho – em alguns casos, como caso europeu, massa essa bastante escolarizada e muito bem qualificada. O resultado disso é prá lá de previsível: desalento, revolta, transtornos psicológicos e sociais, ressentimento, subemprego, desemprego… Ou seja, um coquetel prá lá de explosivo, cujos resultados são imprevisíveis. Afinal, jovens naturalmente são vórtices de energia quando engajados e compromissados com alguma tarefa. Quando não, esse vórtice pode se tornar um reservatório perigoso de ódio, extremismo, niilismo, desalento e desagregação social.

Apesar das imagens dos jovens que tomaram de assalto as ruas e as praças do mundo árabe e que derrubaram ditaduras até então consideradas inexpugnáveis, essa massa também vem se manifestando tanto contra as reformas educacionais nos Estados Unidos e na Inglaterra, quanto contra o corte de gastos publicos em países como a Grécia e a Espanha. E, nada melhor do que os jovens mobilizados para nos mostrar quais são as reais condições de vida nestes países…

Além da crise econômica mundial, outras explicações são ensejadas. Uma delas diz que as gerações mais jovens estão sendo impedidas de ascender socialmente graças ao domínio de uma “gerontocracia” que teima em não dividir o espaço no mercado de trabalho, impedindo a oxigenação e a força criativa proveniente da entrada desse contingente no mercado de trabalho. Com o desemprego entre os jovens tendendo a ficar cada vez mais elevado, a distância entre gerações – e consequentemente o choque entre essas – será algo inevitável, com consequências bastante funestas tanto para estes quanto para a sociedade desses países.

No Oriente Médio e no norte da África, a taxa de desemprego entre os jovens gira em torno de 24% – a maior do mundo!. Nas outras partes, as taxas ultrapassaram a casa dos 10%, sendo observadas percentuais abaixo desse patamar apenas no Sudeste Asiático. Somado ao fato de que, em alguns países, a parcela maior da população esteja situada entre os 15 e 24 anos, a junção entre esse boom demográfico e o elevado desemprego é um profundo vetor de transformações sociais. Que o digam Egito, Tunísia, Líbia, Bahrein, Argélia, Marrocos…

Nem o Brasil está livre desse fenômeno. Segundo relatório recente publicado pela Organização Mundial do Trabalho (OIT), em 2009 o desemprego entre os jovens de 15 a 24 anos atingiu o patamar de 13% – ou seja, 81 milhões dos 623 milhões de jovens economicamente ativos -, tornando-se o pior indicador desde o ano de 2002.

Nos países desenvolvidos, criou-se um “fosso” entre os empregos de alta qualificação e com rendimentos elevados – interditados aos jovens, dada a sua baixa experiência do mercado de trabalho -, e os de baixa qualificação e rendimentos irrisórios – este sim destinados aos jovens. E a recessão econômica só piora a situação, podendo tornar “inútil” e irrelevante toda uma geração de novos talentos…

Se os impactos econômicos desse fenômeno são catastróficos, as implicações psicológicas do desemprego para essa geração são dramáticas. Os impactos sobre a auto-estima e a mais valia são notáveis, isso sem falar na vulnerabilidade a comportamentos anti-sociais, violentos e extremistas. Além disso, segundo estudo norte-americano recente, pessoas criadas em meio a uma recessão econômica tendem a confiar menos em seus esforços pessoais de melhoria, e preferem apoiar-se em regimes de complementação salarial promovidos pelo estado (alguma semelhança com o caso brasileiro?).

Como solucionar esse problema complexo? Algumas hipóteses vem sendo discutidas pelos especialistas como, por exemplo, o aumento do crescimento econômico e a consequente expansão de vagas. No entanto, a pergunta que não quer calar é se existe uma relação entre estas vagas e a respectiva qualificação desses jovens. 


Explico: atualmente, a maioria desses jovens no mundo desenvolvido está “overqualified”. Um exemplo disso é a ausência de mão-de-obra para suprir vagas que exijam qualificação técnica, dado que a maioria esmagadora dos jovens possui diploma superior – em grande parte, é verdade, a entrada na universidade é muito mais resultado do desemprego vigente e da falta de perspectivas do que propriamente uma opção vocacional. Consequentemente, um emprego técnico para quem tem curso superior é encarado como um retrocesso na carreira, um demérito profissional. Nos países desenvolvidos, o excesso de jovens com diploma superior é um problema para o mercado de trabalho – o que significa que nem sempre maior qualificação significa melhor qualificação…

Outra solução pensada é o empreendedorismo, isto é, o desenvolvimento de políticas públicas governamentais que visem o fomento a novos negócios para os jovens. Parodiando a fala do Presidente da Universidade de Harvard no filme “A Rede Social”, trata-se mais de “criar” um emprego do que propriamente buscá-lo no mercado de trabalho. Essa é uma alternativa interessante. Recentemente, em viagem ao Chile, pude perceber que o governo daquele país está incentivando jovens do mundo inteiro a instalarem suas start-ups de internet num complexo digital em Santiago, com uma série de subsídios governamentais (isenções fiscais, mão de obra farta e qualificada, conexões de internet de altíssima velocidade, servidores etc.). Volto a dizer que isso pode se configurar numa alternativa deveras interessante, dado o gosto e a tolerância dos jovens em empreender e assumir riscos…

A FABER-CASTELL E OS "TEENAGERS"

setembro 27, 2010 2 comentários
Quem não se lembra do seu tempo de criança, quando os nossos pais nos presenteavam com coisas singelas – nada de Xboxes, PS3s, iPods, iPads e gadgets de outros tipos – tais como carrinhos de ferro, jogos de tabuleiro e deliciosas caixas de lápis de cor? 

Pelo menos esse Escriba que vos fala, em sua infância, foi generosamente presenteado pelos pais com caixas de lápis multicoloridas – às vezes com 30, 50 e até mesmo 80 lápis de diferentes e exóticas cores. Lembro como se fosse hoje, após ganhar uma caixa dessas, eu abrí-la diante dos meus olhos e me deleitar com as inúmeras possibilidades de combinações na folha de papel na minha frente que teimava em ficar incólume. Ledo engano, pois eu passava horas e horas a desenhar, colorir e preencher o espaço em branco com diferentes formas, cores e desenhos. 

Lembrança carinhosa de um tempo que não volta mais, mas que ainda encanta um quarentão de quatro costados…

Foi com essa saudosa recordação que li essa semana no jornal que a Faber-Castell – empresa alemã responsável pela produção de canetas, produtos para escola, itens de papelaria além das famosas caixas de lápis-de-cor – resolveu iniciar a criação de uma nova linha de produtos direcionada para o público de 14 a 20 anos de idade – cuja presença tímida de produtos em seu portfólio acaba por interromper a sequência de relacionamento do consumidor com a empresa, iniciada na infância.

Fundada em 1761 na cidade de Stein, no sul da Alemanha, a empresa não quer ser vista como apenas uma marca de produtos para a escola, e sim como sendo uma marca que acompanhe a vida das pessoas, segundo o atual presidente da companhia Conde Anton Wolfgang von Faber-Castell. O novo foco da empresa é ir além da infância, e oferecer produtos para consumidores na faixa de 14 a 20 anos.

A empresa iniciou estudos para o lançamento de uma linha de produtos cosméticos que porventura venham a levar a sua marca – uma iniciativa por si só ousada e inovadora. Para isto, a companhia aposta em duas coisas: primeiro, a sua expertise em cores – dado as suas famosas caixas de lápis coloridos; segundo, o fato desta já produzir cosméticos para outras empresas em suas fábricas no Brasil e na Alemanha, tais como sombras e lápis para contorno dos olhos e da boca.   

O Brasil é um grande mercado para a Faber-Castell, representando hoje cerca de 35% do faturamento global da empresa. A expectativa é que a empresa cresça cerca de 7% ao longo do ano de 2010 no mercado brasileiro.

Com a digitalização e o avanço das TICs, a companhia tem buscado reposicionar os seus produtos e investir em inovações, buscando sair da estratégia do oferecimento de produtos baratos e mais populares. O mote da empresa passa pela grande variedade de cores, apostando no gosto mais ousado dos jovens em buscar uma paleta de cores mais ampla e variada. Outra aposta é transformar os produtos em itens de presente, que podem ser aspirados e colecionados.

Como no Brasil essa faceta do portfólio de produtos é pouco conhecida, a empresa está avaliando a possibilidade de abrir quiosques coloridos e divertidos nos shoppings centers, além de investir numa melhor distribuição e comercialização dos seus produtos no varejo.

A ATIVIDADE HUMANA E A TEORIA DO "FLOW"

novembro 11, 2009 5 comentários
No último mês, venho focando as minhas energias – ou tentando concentrá-las melhor! – em minha recente pesquisa a respeito dos jogos virtuais e seus impactos para a questão da construção e regulação da subjetividade. Este é um tema instigante, e que desperta a minha atenção desde o meu Doutorado em Psicologia, concluído no ano de 2000 na PUC-Rio, e que estou tendo a feliz oportunidade de retomá-lo aqui na Uerj com a formação de um projeto e um grupo de pesquisa bastante interessante e motivado e esse respeito.

Dentro das pesquisas que venho fazendo sobre a literatura sobre games, a referência a uma teoria a respeito da experiência subjetiva que ocorre na mente dos gamers é onipresente. Trata-se da teoria do “flow” – em uma tradução livre, algo como “fluxo” ou “estado de imersão” -, proposta pelo psicólogo norte-americano de origem húngara e professor da Universidade de Chicago Mihaly Csikszentmihalyi (pronuncia-se como “chick-sent-me-high”). Sua interessante teoria aborda o estado mental de um indivíduo engajado em uma atividade qualquer onde encontra-se complementamente focado, envolvido e energizado – tal como acontece nos jogadores de games. Para ele, estas são as características de uma atividade produtiva de “flow”:

1. Prontidão para a atividade.

2. Foco na atividade.

3. A atividade precisa ter metas claras.

4. A atividade precisa ter um feedback direto.

5. O indivíduo experimenta uma sensação de controle da atividade.

6. Suas preocupações e aborrecimentos desaparecem.

7. A experiência subjetiva de tempo é alterada.

Além disso, Csikzentmihalyi (nomezinho difícil esse, heinm?!) afirma que a experiência de “flow” está diretamente relacionada ao Desafio que a tarefa impõe e as Habilidades do indivíduo requeridas para tal. Quando o Desafio é maior do que a habilidade do indivíduo, o seu estado mental é de ansiedade seguida de frustração, levando-o a abandoná-la. Caso contrário, quando o Desafio é menor do que a sua habilidade, o indivíduo acaba enfadado e de “saco cheio”, levando-o também a abandoná-la.

Logo, a chave para a manutenção de um estado psíquico de “flow”, segundo o autor, é a busca de uma atividade que possa balancear estas duas variáveis, e que acabe proporcionando ao indivíduo uma situação que simultaneamente proporcione envolvimento e diversão, sem que o mesmo perceba a passagem do tempo. Evidentemente, tal experiência ocorre com bastante frequência em gamers quando estão em plena situação de imersão no jogo.

Em decorrência disto, divertir-se é o resultado direto de uma experiência de “flow”, produto de uma combinação fecunda entre o Desafio imposto pela tarefa e as Habilidades que o indivíduo possui. Bem entendido, a experiência de “flow – fun” (“fluxo – diversão”) pode ser obtida não apenas em situações lúdicas (seja individualmente ou em grupo, real ou em situações virtuais), mas também em atividades produtivas (trabalho e estudo), nas interações sociais cotidianas (reais e virtuais) e nas atividades de consumo. A chave para a superação dos males da contemporaneidade – leia-se, as sensações de enfado, de ansiedade e de frustração – passa pela promoção de estados de “flow-fun” cada vez mais instigantes, intensos e recompensadores.

Costumo dizer em minhas aulas que o sonho de qualquer professor é ter alunos tão interessados, energizados, motivados e participativos quanto os observados quando estes estão jogando, navegando na rede, teclando no MSN ou simplesmente alimentando suas redes sociais físicas e virtuais. Será que é possível criar situações educacionais que possam despertar nos alunos esses estados psíquicos?

E os meus leitores? O que acharam desta teoria? Será que vocês já tiveram esse tipo de experiência de “flow – fun” acima descrita? Elas são frequentes ou esporádicas? Em quais situações de suas vidas elas mais ocorrem?

Desculpem a série de perguntas, mas sou deveras curioso e instigado por estas questões. Logo, os comentários dos meus queridos e indulgentes leitores serão de extrema valia para a pesquisa que estou iniciando…

DESEMPREGO ATINGE EM CHEIO OS JOVENS BRASILEIROS

E a maré não está para peixe quando o assunto é a juventude do nosso país. Em relatório recente divulgado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), intitulado Trabalho Decente e Juventude no País, as péssimas condições de trabalho e o desemprego atingiram níveis críticos no segmento entre 15 a 24 anos.

O estudo, que baseou-se nos dados recolhidos pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE entre os anos de 1992 a 2006, mostrou que 67,5% dos jovens na faixa etária acima descrita estavam, em 2006, ou desempregados ou na informalidade. Além disso, a correlação entre desemprego, gênero e etnia mostrou-se bastante significativa em nosso país – o número de mulheres jovens desempregadas (70,1%) é maior que o de homens jovens desempregados (65,6%), assim como o número de jovens negros desempregados (74,7%) é muito maior em comparação ao número de jovens brancos na mesma situação(59,6%).

Vale lembrar que, com a crise que atingiu a economia mundial desde o segundo semestre do ano passado, o quadro deve piorar sensivelmente – aumentando ainda mais a situação de precariedade dos jovens no mercado de trabalho. E, o pior disso tudo, é que quanto maior a precariedade, maior a incidência de uso de drogas, a violência urbana e a frequência de aparecimento de comportamentos sociais desviantes e de risco. Isso ocorre em Paris, Londres, Madrid, Bombaim, Los Angeles, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte…

E a escola, que poderia nesse caso funcionar como uma espécie de “colchão protetor”, parece ter um efeito contrário ao esperado dadas as elevadas taxas de evasão escolar observadas no ensino médio brasileiro. Além da intensa jornada de trabalho por parte dos jovens – segundo o estudo, mais de 30% dos jovens pesquisados trabalha mais do que 20 horas semanais, prejudicando a frequência escolar -, a escola é considerada maçante, desinteressante e absolutamente alienada dos dilemas e desafios enfrentados pelos meninas e meninas em nosso país. E a perspectiva de mudança de tal percepção do ambiente escolar a curto prazo, por parte da juventude, é bastante remota…

Ou seja: ou os governantes encaram com seriedade o problema da juventude e formulam um conjunto de políticas públicas sérias e eficazes direcionadas a este estrato populacional ou então, parodiando a famosa canção de Moraes Moreira, o Brasil irá continuar descendo a ladeira abaixo…

DESEMPREGO ATINGE EM CHEIO OS JOVENS BRASILEIROS

E a maré não está para peixe quando o assunto é a juventude do nosso país. Em relatório recente divulgado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), intitulado Trabalho Decente e Juventude no País, as péssimas condições de trabalho e o desemprego atingiram níveis críticos no segmento entre 15 a 24 anos.

O estudo, que baseou-se nos dados recolhidos pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE entre os anos de 1992 a 2006, mostrou que 67,5% dos jovens na faixa etária acima descrita estavam, em 2006, ou desempregados ou na informalidade. Além disso, a correlação entre desemprego, gênero e etnia mostrou-se bastante significativa em nosso país – o número de mulheres jovens desempregadas (70,1%) é maior que o de homens jovens desempregados (65,6%), assim como o número de jovens negros desempregados (74,7%) é muito maior em comparação ao número de jovens brancos na mesma situação(59,6%).

Vale lembrar que, com a crise que atingiu a economia mundial desde o segundo semestre do ano passado, o quadro deve piorar sensivelmente – aumentando ainda mais a situação de precariedade dos jovens no mercado de trabalho. E, o pior disso tudo, é que quanto maior a precariedade, maior a incidência de uso de drogas, a violência urbana e a frequência de aparecimento de comportamentos sociais desviantes e de risco. Isso ocorre em Paris, Londres, Madrid, Bombaim, Los Angeles, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte…

E a escola, que poderia nesse caso funcionar como uma espécie de “colchão protetor”, parece ter um efeito contrário ao esperado dadas as elevadas taxas de evasão escolar observadas no ensino médio brasileiro. Além da intensa jornada de trabalho por parte dos jovens – segundo o estudo, mais de 30% dos jovens pesquisados trabalha mais do que 20 horas semanais, prejudicando a frequência escolar -, a escola é considerada maçante, desinteressante e absolutamente alienada dos dilemas e desafios enfrentados pelos meninas e meninas em nosso país. E a perspectiva de mudança de tal percepção do ambiente escolar a curto prazo, por parte da juventude, é bastante remota…

Ou seja: ou os governantes encaram com seriedade o problema da juventude e formulam um conjunto de políticas públicas sérias e eficazes direcionadas a este estrato populacional ou então, parodiando a famosa canção de Moraes Moreira, o Brasil irá continuar descendo a ladeira abaixo…

DESEMPREGO ATINGE EM CHEIO OS JOVENS BRASILEIROS

E a maré não está para peixe quando o assunto é a juventude do nosso país. Em relatório recente divulgado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), intitulado Trabalho Decente e Juventude no País, as péssimas condições de trabalho e o desemprego atingiram níveis críticos no segmento entre 15 a 24 anos.

O estudo, que baseou-se nos dados recolhidos pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE entre os anos de 1992 a 2006, mostrou que 67,5% dos jovens na faixa etária acima descrita estavam, em 2006, ou desempregados ou na informalidade. Além disso, a correlação entre desemprego, gênero e etnia mostrou-se bastante significativa em nosso país – o número de mulheres jovens desempregadas (70,1%) é maior que o de homens jovens desempregados (65,6%), assim como o número de jovens negros desempregados (74,7%) é muito maior em comparação ao número de jovens brancos na mesma situação(59,6%).

Vale lembrar que, com a crise que atingiu a economia mundial desde o segundo semestre do ano passado, o quadro deve piorar sensivelmente – aumentando ainda mais a situação de precariedade dos jovens no mercado de trabalho. E, o pior disso tudo, é que quanto maior a precariedade, maior a incidência de uso de drogas, a violência urbana e a frequência de aparecimento de comportamentos sociais desviantes e de risco. Isso ocorre em Paris, Londres, Madrid, Bombaim, Los Angeles, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte…

E a escola, que poderia nesse caso funcionar como uma espécie de “colchão protetor”, parece ter um efeito contrário ao esperado dadas as elevadas taxas de evasão escolar observadas no ensino médio brasileiro. Além da intensa jornada de trabalho por parte dos jovens – segundo o estudo, mais de 30% dos jovens pesquisados trabalha mais do que 20 horas semanais, prejudicando a frequência escolar -, a escola é considerada maçante, desinteressante e absolutamente alienada dos dilemas e desafios enfrentados pelos meninas e meninas em nosso país. E a perspectiva de mudança de tal percepção do ambiente escolar a curto prazo, por parte da juventude, é bastante remota…

Ou seja: ou os governantes encaram com seriedade o problema da juventude e formulam um conjunto de políticas públicas sérias e eficazes direcionadas a este estrato populacional ou então, parodiando a famosa canção de Moraes Moreira, o Brasil irá continuar descendo a ladeira abaixo…

SALÁRIOS E ENSINO SUPERIOR

outubro 10, 2008 2 comentários
A recuperação de renda dos segmentos econômicos menos favorecidos na sociedade brasileira é um fato público e notório. Já comentei exaustivamente aqui no PRAGMA os fatores que levaram a esse fenômeno econômico e social notável. Aproveitando esse ensejo, muitas empresas enxergam oportunidades de negócios visando atender a esse consumidor ávido por ascensão social – o tão falado consumo “aspiracional”. No entanto, nem em todos os segmentos a coisa é tão fácil assim…

Um dos valores basilares da chamada classe média “tradicional” – faço aqui uma diferença entre esse segmento e a chamada classe média “emergente”, fenômeno típico do Governo Lula – é o investimento pesado em qualificação educacional. Composta em sua grande maioria por profissionais liberais e funcionários públicos, a classe média sempre entendeu que a Educação é o melhor meio de ascensão social, dado possibilitar um melhor posicionamento na competição por melhores cargos e salários. Tanto na iniciativa pública quanto privada – basta ver os programas dos concursos públicos e os processos seletivos de estagiários e trainees -, a formação educacional superior de qualidade é um requisito indispensável. No entanto, essa relação linear entre salário e educação vem sofrendo sensíveis alterações nos últimos anos. Consequentemente, é preciso que mudemos a nossa maneira de pensar essa questão…

Segundo artigo de Naércio Menezes Filho publicado no jornal Valor Econômico do dia 03/10 passado, uma análise dos dados da Pnad 2007 (Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios) do IBGE evidencia uma tendência que vem se avolumando nos dois últimos anos: a de que a diferença entre os salários do ensino superior e do ensino médio vem diminuindo a passos largos. Ou seja, o ingresso na universidade não é mais a certeza tanto de emprego quanto de uma melhor remuneração. Por que será que isto está ocorrendo?

Vamos aos dados: em 1992, a diferença entre os salários do ensino médio e do ensino superior era de 140%, atingindo o seu ápice em 2004 com o patamar de 200%, declinando desde então até atingir o nível de 180% em 2007. Ou seja, após um longo e teneboroso inverno, o ensino profissionalizante e as habilitações técnicas vêm recuperando a sua atratividade no âmbito do mercado de trabalho em nosso país.

Como em qualquer fenômeno microeconômico, esse movimento se explica pela lei da oferta e da procura. A demanda por profissionais de ensino médio vem crescendo acima da oferta, fato que ocorre inversamente no âmbito do ensino superior. Alguns fatores explicam este fenômeno de renovação de interesse por profissionais de nível técnico, mas dois se destacam de maneira mais intensa.

A primeira diz respeito ao processo de reconversão da capacidade produtiva da economia brasileira, baseada na introdução de novas tecnologias – em especial as TICs (Tecnologias da Informação e da Comunicação). Consequentemente, aumenta a necessidade das empresas por profissionais que tenham uma elevada qualificação técnica, voltada para as áreas da tecnologia de ponta – robótica e automação, microeletrônica e processamento de dados. E, nesse sentido, o ensino técnico profissionalizante de nível médio no Brasil sempre apresentou experiências eficientes, de qualidade e de excelência. Basta ver os exemplos mais do que positivos de instituições como os Cefets, os Senais, os Senacs e Sesis da vida…

A segunda diz respeito ao boom do ensino superior privado a partir dos anos 1990, com a explosão de faculdades, centros universitários e universidades em nosso país. Dada a atratividade do ensino superior – em função da promessa de salários elevados e carreiras mais sólidas -, a universidade tornou-se o sonho de consumo para as classes sociais em vias de ascensão social. Daí, obedecendo a velha máxima microeconômica, o aumento da procura levou ao aumento da oferta de vagas em instituições privadas de reputação duvidosa e de qualidade sofrível.

Ou seja, pagamos o preço da qualidade em prol da quantidade, e o resultado agora é uma compressão dos salários da profissões superiores graças a um mercado inundado por profissionais de baixíssima qualidade, formados em “pardieiros”, “arapucas” educacionais, faculdades de “fundo de quintal” do tipo “pagou-e-passou”, onde a máxima do “aluno-cliente” é o foco das ações de relacionamento dos gestores educacionais. Como a regulação governamental nesse período também foi deveras deficiente, os empresários do ensino preocuparam-se muito mais em satisfazer a sua ânsia plutocrática do lucro à curto prazo do que em incrementar a qualidade da formação oferecida em suas instituições de ensino – na grande maioria das vezes, labels que ostentam inclusive o nome de suas famílias….

O resultado disto é que, dado o prêmio obtido pelo investimento em educação superior ser cada vez menor, ocorre uma diminuição da procura pelos cursos superiores no Brasil, com um aumento da ociosidade dessas instituições. Por sua vez, estas, para se adaptar a esses tempos “bicudos”, tomam medidas drásticas de redução de custos que comprometem ainda mais a qualidade de seus cursos, gerando uma espiral descendente de qualidade. Ou seja, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come…

Se pelo lado da oferta o negócio está feio, pelo lado da demanda a coisa também está bastante esquisita. Segundo dados da mesma Pnad 2007, pela primeira vez na história do país há uma diminuição das taxas de natalidade – as famílias estão menos entusiasmadas a conceber e criar filhos. Além disso, os filhos das classes econômicas menos favorecidas – diga-se de passagem, as que apresentam as maiores taxas de fecundidade – estão frequentando menos a escola (em especial, o ensino médio), em função das pressões econômicas e da necessidade imperiosa de ingresso no mercado de trabalho para auxiliar o sustento de suas famílias. Tudo isso proporcionou o declínio contínuo do número de matrículas no ensino médio brasileiro nos últimos anos. O resultado, já sabemos: menos gente na escola, menos formandos no ensino médio; quanto menor o número de formandos, menor a demanda para a educação superior.

E assim, la nave va…

No entanto, esse cenário não é ruim de todo. Pelo lado do ensino médio, a baixa procura está ligada ao ensino de baixa qualidade (especialmente público), com currículos desatualizados e bolorentos, além de professores mal remunerados e mal formados, fora as péssimas condições estruturais nos Estados e Municípios. Talvez, uma das soluções seria investir pesadamente em cursos técnicos e profissionalizantes, que tornar-se-iam mais atraentes para os jovens mais carentes – que, além de resolver a necessidade urgente de mão-de-obra mais qualificada, afastariam os estudantes das situações risco social.

Por outro lado, paradoxalmente, a demanda por ensino superior de qualidade cresce vertiginosamente. Muitos alunos formados por essas universidades, ao final de seus cursos de graduação, buscam instituições de ensino de ponta para ingressar em cursos de MBA e Especialização a fim de qualificarem-se de maneira adequada e consistente para um mercado de trabalho arduamente seletivo. No fundo, é o velho dilema entre as orientações de curto e longo prazo fazendo com que, ao final, apenas os que possuem qualidade possam sobreviver.

Em suma, é a velha máxima darwinista da “luta pela sobrevivência” aplicada ao segmento educacional…