Arquivo

Archive for the ‘Globalização’ Category

O DESEMPREGO ENTRE JOVENS: UMA EPIDEMIA GLOBAL?

>

Me digam uma coisa, meus caros leitores: por um acaso vocês sabem o que há de comum entre os “freeters”, os “hittistes”, os “shahab atileen”, os “NEETs”, os “mileuristas e os “boomerangs“? Não? Uma dica: até os chineses (sempre eles!) já os têm, membros da chamada “ant tribe”. E aí, ainda não? Vou explicar…


Todas são diferentes expressões para o mesmo grupo social: os “jovens desempregados”. Até recentemente algo comum nos países mais pobres, o fenômeno ganhou notoriedade até mesmo nos países do Hemisfério Norte. Isso sem falar no papel central que esse grupo desempenhou ns ruas e praças árabes, e que a mídia de massa global rapidamente alcunhou de “Revolução Facebook“…

“Freeter” é uma gíria japonesa resultante da fusão de dois vocábulos de línguas diferentes: o inglês “freelance” e o alemão “arbeiter” (significando “trabalhador sob demanda”, numa tradução livre). “Hittiste” é uma gíria franco-árabe, utilizada na Tunísa, que significa “aquele encostado no muro”(sic). “Mileuristas”, como são chamados na Espanha, referem-se aos jovens cujo rendimento mensal não ultrapassa a casa dos mil euros. Já no Egito, os jovens desempregados são intitulados de “shahab atileen”. Por sua vez, os britânicos, com sua inquebrantável fleuma e requintada ironia, os chamam de “NEETs”“no education, no employment, no training”. Os americanos, com o seu incrível pendor para metáforas, os chamam de geração “boomerang” (isto é, os que voltam para a casa dos pais após a faculdade) ou “waithood” (algo como a geração da espera, em referência ao fato de vivenciaram uma adolescência prolongada ou tardia na casa dos pais). Já os chineses, cientes de sua generosa demografia, lhes dão o nome de “ant tribe” – literalmente, uma multidão de formigas que lota a porta das empresas em busca de empregos de baixa qualificação e de menor rendimento salarial.

O que há de comum neste fenômeno global é a incapacidade da economia destes países em absorver a massa de jovens recém-chegada ao mercado de trabalho – em alguns casos, como caso europeu, massa essa bastante escolarizada e muito bem qualificada. O resultado disso é prá lá de previsível: desalento, revolta, transtornos psicológicos e sociais, ressentimento, subemprego, desemprego… Ou seja, um coquetel prá lá de explosivo, cujos resultados são imprevisíveis. Afinal, jovens naturalmente são vórtices de energia quando engajados e compromissados com alguma tarefa. Quando não, esse vórtice pode se tornar um reservatório perigoso de ódio, extremismo, niilismo, desalento e desagregação social.

Apesar das imagens dos jovens que tomaram de assalto as ruas e as praças do mundo árabe e que derrubaram ditaduras até então consideradas inexpugnáveis, essa massa também vem se manifestando tanto contra as reformas educacionais nos Estados Unidos e na Inglaterra, quanto contra o corte de gastos publicos em países como a Grécia e a Espanha. E, nada melhor do que os jovens mobilizados para nos mostrar quais são as reais condições de vida nestes países…

Além da crise econômica mundial, outras explicações são ensejadas. Uma delas diz que as gerações mais jovens estão sendo impedidas de ascender socialmente graças ao domínio de uma “gerontocracia” que teima em não dividir o espaço no mercado de trabalho, impedindo a oxigenação e a força criativa proveniente da entrada desse contingente no mercado de trabalho. Com o desemprego entre os jovens tendendo a ficar cada vez mais elevado, a distância entre gerações – e consequentemente o choque entre essas – será algo inevitável, com consequências bastante funestas tanto para estes quanto para a sociedade desses países.

No Oriente Médio e no norte da África, a taxa de desemprego entre os jovens gira em torno de 24% – a maior do mundo!. Nas outras partes, as taxas ultrapassaram a casa dos 10%, sendo observadas percentuais abaixo desse patamar apenas no Sudeste Asiático. Somado ao fato de que, em alguns países, a parcela maior da população esteja situada entre os 15 e 24 anos, a junção entre esse boom demográfico e o elevado desemprego é um profundo vetor de transformações sociais. Que o digam Egito, Tunísia, Líbia, Bahrein, Argélia, Marrocos…

Nem o Brasil está livre desse fenômeno. Segundo relatório recente publicado pela Organização Mundial do Trabalho (OIT), em 2009 o desemprego entre os jovens de 15 a 24 anos atingiu o patamar de 13% – ou seja, 81 milhões dos 623 milhões de jovens economicamente ativos -, tornando-se o pior indicador desde o ano de 2002.

Nos países desenvolvidos, criou-se um “fosso” entre os empregos de alta qualificação e com rendimentos elevados – interditados aos jovens, dada a sua baixa experiência do mercado de trabalho -, e os de baixa qualificação e rendimentos irrisórios – este sim destinados aos jovens. E a recessão econômica só piora a situação, podendo tornar “inútil” e irrelevante toda uma geração de novos talentos…

Se os impactos econômicos desse fenômeno são catastróficos, as implicações psicológicas do desemprego para essa geração são dramáticas. Os impactos sobre a auto-estima e a mais valia são notáveis, isso sem falar na vulnerabilidade a comportamentos anti-sociais, violentos e extremistas. Além disso, segundo estudo norte-americano recente, pessoas criadas em meio a uma recessão econômica tendem a confiar menos em seus esforços pessoais de melhoria, e preferem apoiar-se em regimes de complementação salarial promovidos pelo estado (alguma semelhança com o caso brasileiro?).

Como solucionar esse problema complexo? Algumas hipóteses vem sendo discutidas pelos especialistas como, por exemplo, o aumento do crescimento econômico e a consequente expansão de vagas. No entanto, a pergunta que não quer calar é se existe uma relação entre estas vagas e a respectiva qualificação desses jovens. 


Explico: atualmente, a maioria desses jovens no mundo desenvolvido está “overqualified”. Um exemplo disso é a ausência de mão-de-obra para suprir vagas que exijam qualificação técnica, dado que a maioria esmagadora dos jovens possui diploma superior – em grande parte, é verdade, a entrada na universidade é muito mais resultado do desemprego vigente e da falta de perspectivas do que propriamente uma opção vocacional. Consequentemente, um emprego técnico para quem tem curso superior é encarado como um retrocesso na carreira, um demérito profissional. Nos países desenvolvidos, o excesso de jovens com diploma superior é um problema para o mercado de trabalho – o que significa que nem sempre maior qualificação significa melhor qualificação…

Outra solução pensada é o empreendedorismo, isto é, o desenvolvimento de políticas públicas governamentais que visem o fomento a novos negócios para os jovens. Parodiando a fala do Presidente da Universidade de Harvard no filme “A Rede Social”, trata-se mais de “criar” um emprego do que propriamente buscá-lo no mercado de trabalho. Essa é uma alternativa interessante. Recentemente, em viagem ao Chile, pude perceber que o governo daquele país está incentivando jovens do mundo inteiro a instalarem suas start-ups de internet num complexo digital em Santiago, com uma série de subsídios governamentais (isenções fiscais, mão de obra farta e qualificada, conexões de internet de altíssima velocidade, servidores etc.). Volto a dizer que isso pode se configurar numa alternativa deveras interessante, dado o gosto e a tolerância dos jovens em empreender e assumir riscos…

AINDA O BRASIL NA MODA (2)

Ainda no embalo do post anterior, vejam só que a Madonna virou “arroz de festa” aqui no Rio de Janeiro, e o Cristo Redentor é uma das maravilhas mundiais sumariamente destruídas no filme-catástrofe 2012, recém-estreado nos cinemas brasileiros, cuja trama é baseada na profecia apocalíptica do fim do mundo prevista no calendário maia.

Definitivamente, o Brasil está na crista da onda! Para o bem e para o mal…

AINDA O BRASIL NA MODA

É meus caros leitores, não bastasse a Copa do Mundo, os Jogos Olímpicos, a Gisele Bundchen, o apagão dessa semana que termina e o fato do Lula ser “o cara” (essa não, Obama!), a cada dia que passa a mídia mundial presta uma atenção cada vez maior ao nosso longínquo e afastado paraíso tupiniquim. Será que estamos definitivamente deixando de ser periferia para adentrar ao mainstream? Serpa que estamos nos tornando cools?

Para que os meus críticos leitores possam ter uma idéia do que eu estou a falar, a edição dessa semana do prestigiado e respeitadíssimo periódico britânico The Economist traz um dossiê analítico de 16 páginas sobre o Brasil. O meu aluno e atento leitor Gustavo Léo, da FGV de Botafogo, gentilmente passou por e-mail tal material, e pude perceber a partir de uma breve leitura que o dossiê analisa os motivos da atual proeminência econômica, financeira, social e cultural do Brasil no mundo globalizado.

Antes que façamos um Carnaval fora de época (na Bahia, diga-se de passagem, isso não existe!) e decretemos feriado nacional por uma semana, o dossiê é crítico e não esconde as mazelas de nossa sociedade, bem como da nossa economia e do nosso mal-afamado sistema político. ApJustificaresar disso, nota-se que o saldo é bastante positivo…

Sendo considerado o país que melhor resistiu ao teste de fogo imposto à economia mundial no final do ano passado, o Brasil entrou definitivamente na rota de interesse de investidores, pesquisadores e intelectuais do mundo todo pelos seguintes motivos: em primeiro lugar, a economia brasileira vem crescendo nas últimas décadas de forma consistente à taxas de 5% ao ano; em segundo lugar, é um dos maiores exportadores mundiais de commodities agrícolas e minerais, saciando a “fome” de gigantes como a China; terceiro, apesar dos nossos políticos-parasitas, é uma democracia consolidada sem conflitos étnicos ou religiosos de monta, nem é cercado por vizinhos hostis – tirando o “mala sem alça” do Hugo Chávez –, diferentemente de seus parceiros de BRIC como Rússia, China e Índia.

Além disso, é um porto seguro para os investidores estrangeiros, com marcos regulatórios e mecanismos de proteção consolidados, e vem apresentando uma melhoria significativa de seus indicadores sociais, dado o processo consistente de aumento do poder aquisitivo das famílias e de consumo por parte das classes econômicas menos favorecidas – as famosas classes C e D, que tanto falamos aqui no PRAGMA. Por fim, o Brasil possui um presidente proveniente dessas camadas mais pobres da população, de origem humilde e de baixa escolaridade, mas que é uma liderança política de esquerda porém pragmático, em comparação aos seus famigerados colegas de América do Sul. É por todos esses motivos que o Nosso Líder é visto com charme e simpatia por todas as lideranças políticas mundiais – o cara se dá ao luxo de conversar com Israel e o Ahmadinejad!!! Vocês querem o que mais?

Ou seja, queiramos ou não, gostemos ou não do Presidente Lula, nós estamos na moda! O que vai acontecer a partir daí, no entanto, só Deus sabe…

Enquanto isso, no ano que vem, em pleno ano de Eleição Presidencial, estréia o filme do Fábio Barreto: Lula – O Filho do Brasil. É mole ou querem mais???

EMPRESA BRASILEIRA ESCOLHE O LÍBANO COMO BASE PARA EXPORTAÇÃO

Todos nós sabemos do grande esforço das empresas brasileiras em prospectar novos mercados para os seus produtos e serviços. Desde os anos 1990, com a abertura da economia do país, nos tornamos cada vez mais integrados ao mercado global, e não apenas no que diz respeito às commodities agrícolas – que ainda são itens importantíssimos da nossa pauta de exportações.

O resultado disso vem ocupando cada vez mais espaço nos jornais de negócios, boletins informativos, congressos e seminários de comércio exterior pelo mundo afora. O Brasil é cada vez mais conhecido no exterior pela pujança de suas empresas em diversos segmentos de negócios, tais como bebidas (AmBev), aviação (Embraer), mineração (Vale), siderurgia (Gerdau), cutelaria (Tramontina), carrocerias (Marcopolo), cosméticos (Natura), petróleo e gás (Petrobrás), e por aí vai…

Cada vez mais empresas brasileiras tornam-se cases de discussão em cursos de MBAs das escolas de negócios mais prestigiadas do mundo inteiro. Bem entendido, ainda somos um país da soja, da cana-de-açúcar, do ferro e do aço, mas também somos um país que fabrica bens de maior valor agregado. Isso sem falar em outros segmentos de imenso potencial de atração, como o turismo, o esporte, o lazer e o entretenimento. Como eu falo em minhas aulas e palestras, definitivamente o Brasil tornou-se cool – pelo menos por enquanto…

Entretanto, a crise financeira global levou as empresas brasileras a buscar novos mercados para os seus produtos. Isso se deve, em grande parte, a forte retração econômica dos países do Hemisfério Norte – leia-se, Estados Unidos e União Européia. A saída, então, foi a diversificação de mercados em países do Hemisfério Sul, em especial em regiões até então pouco exploradas pelas nossas empresas como o Oriente Médio e o Extremo Oriente.

Nessa busca por novos mercados, muitas delas são estreantes no processo de abertura de bases no exterior. Esse é o caso da empresa de louças cerâmicas Oxford, que abriu, na semana passada, um escritório de comercialização de seus produtos na belíssima Beirute, capital do Líbano. Segundo informações da empresa, o objetivo do escritório é conquistar mercados próximos em países como Arábia Saudita, Emirados Árabes, Irã, Iraque, Israel e Jordânia. Vale lembrar que o principal mercado da empresa na região é o Kuwait, onde a Oxford quer aumentar a sua fatia de mercado.

O potencial do Oriente Médio é entendido a partir das perspectivas de recuperação do mercado turístico, impulsionando a demanda por louças decorativas e gourmets em hotéis, restaurantes e bares. Atualmente, a região é responsável por cerca de 4% das vendas da Oxford para o mercado externo – a empresa exporta aproximadamente 15% de sua produção.

Atualmente, a distribuição da exportação da empresa – cuja sede encontra-se em São Bento do Sul, no agradabilíssimo estado de Santa Catarina – obedece ao seguinte padrão: África (30%), América do Norte (20%) e Europa (10%). Esses números são recentes, a baixa participação dessas duas regiões é resultado da catastrófica crise econômica global que atingiu em cheio os países desenvolvidos.

A GERAÇÃO Y E O MUNDO DO TRABALHO

Um dos temas prediletos de Cientistas Sociais e Psicólogos são as diferenças entre as gerações. Em especial, tal questão entrou em minha tela de pesquisas pela primeira vez durante o final dos anos 1990, enquanto lecionava na graduação de Psicologia e concluía o meu Doutorado na PUC-Rio. Naquela ocasião, discutia com os meus alunos as reorganizações subjetivas e identitáras com relação ao mundo do trabalho e do emprego frente as alterações oriundas da revolução das Tecnologias da Informação e da Comunicação.

Naquele momento, eu estava absolutamente encantado pela obra – e, após alguns anos de sua publicação, ainda continuo achando a sua argumentação irresistível -, recém-lançada no Brasil, do sociólogo norte-americano Richard Sennett, intitulada A Corrosão do Caráter (Rio de Janeiro: Editora Record, 2004). Uma das coisas mais interessantes, dentre várias abordadas pelo autor, era a distinção que ele traçava entre os conceitos de emprego e trabalho, o primeiro relacionado ao imaginário da geração bay-boomer – os nascidos após a Segunda Guerra Mundial – e o segundo relacionado ao universo subjetivo da chamada geração Y – no Brasil, os nascidos durante os anos 1980 e 1990.

Enquanto os boomers tinham dificuldade de lidar com a precariedade do mundo corporativo atual, os Ys sentiam-se absolutamente à vontade nesse universo marcado pelas noções de precariedade, instabilidade e de curto prazo. Lembro-me claramente de um aluno meu, aluno da graduação em Comunicação Social, que dizia sentir-se angustiado se ele ficasse mais de 6 meses em um estágio sem ter sido sondado por outra empresa…

O resultado disso todos nós sabemos: jovens altamente empreendedores, totalmente contrários à vida corporativa tradicional, muito mais preocupados em tocar os seus projetos pessoais do que dedicarem-se “de cabeça” a uma determinada empresa. É o que Sennett genialmente denominou de “força dos laços fracos”. E até hoje, tanto nas minhas aulas de graduação quanto de pós, continuo a ver o mesmo fenômeno – jovens cada vez menos siderados pela perspectiva de uma vida totalmente dedicada a uma grande empresa, ávidos por uma carreira de longo prazo. Para essa nova geração, a palavra da moda é empregabilidade, isto é, a capacidade de mostrar-se competitivo no mundo transitório e efêmero das grandes corporações – que, ora sucumbem às grandes crises financeiras globais, ora são adquiridas em processos predatórios de fusões e aquisições.

A maioria esmagadora deles, de uma certa maneira, foram bons aprendizes e entenderam que a única certeza a se ter na vida é que a incerteza é onipresente…

Para adensar essa linha de pensamento, hoje saiu uma entrevista bastante interessante no periódico Valor Econômico com DeAnne Aguirre, sócia sênior da consultoria Booz & Co. Nesta, ela justamente aborda algumas diferenças cruciais entre os boomers e a geração Y – também conhecidos como Millenials ou geração da Internet – no que tange à dimensão do trabalho. E, de quebra, lança um belo desafio aos gestores de RH posto que, segundo estudo comandado por ela, cerca de 73% da força de trabalho no Brasil em 2025 será composta pelos representantes dessa vindoura geração Y

Tanto para os boomers quanto para a geração X – os nascidos entre os anos 1960 e 1970, dentre os quais eu humildemente me incluo -, a vida ideal seria marcada por um respeitável emprego em tempo integral, em uma grande empresa, com uma jornada presencial de várias horas no escritório – de preferência de maneira que o chefe pudesse testemunhá-lo. O modelo de ascensão corporativa assemelhava-se a uma escada, riscos e fracassos eram palavras riscadas do caderno corporativo, e a separação entre a vida pessoal e o trabalho era bastante marcada – família e comunidade de um lado, empresa do outro. Tudo isso regado a uma régia remuneração pois, para essas gerações, o dinheiro era o principal motivador. Afinal, só relógio trabalha de graça – e ainda assim, há controvérsias…

Em contraposição, para a geração Y, o mais importante é trabalhar em projetos que os satisfaçam como indivíduos, e de preferência com colegas onde haja pertença, cumplicidade e sentimentos positivos. A ascensão funcional não tem a ver com galgar patamares na hierarquia corporativa, mas sim com a capacidade de adquirir novos conhecimentos, a enfrentar novos desafios, a aprender novas coisas. É uma geração extremamente exigente e crítica quanto ao mundo corporativo, e que deseja uma jornada de trabalho mais flexível para que possa desenvolver novos projetos – pessoais, diga-se de passagem – fora do ambiente de sua empresa.

São workhaholics, viciados em tecnologia (mobilidade, wireless e redes sociais) e adeptos ao home-office e trabalho remoto, com day-offs e períodos sabáticos – vide o modelo corporativo do Google, o ícone dos Ys. Além disso, há uma interposição entre trabalho e vida pessoal, posto que eles trabalham o tempo todo – e, longe de uma relação sofrida e calvinista com este, encaram isto como pure fun!

Lidam bem com o risco e com a transitoriedade, e estão muito preocupados com os impactos sociais, ambientais e comunitários dos seus projetos de trabalho. Se entediam com facilidade – alguns especialistas dizem que são portadores de Transtorno de Atenção – e a remuneração não é o principal motivador – pelo contrário, são movidos primordialmente por novos desafios e novas oportunidades. São nômades, independentes e extremamente cientes de suas necessidades e desejos – afinal, são o produto mais bem-acabado do ideário individualista que tomou de assalto a Sociedade Ocidental de Consumo do pós-guerra..

Nem preciso dizer que os desafios são inúmeros quando o target é a geração Y. Isso vale não apenas para CEOs, superintendentes, gestores de RH e gerentes, mas também para profissionais de marketing e estudiosos de tendências e do comportamento do consumidor.

Como diria o nosso velho bardo inglês Shakespeare, há muito mais coisas entre o céu e a terra do que a nossa vã filosofia supõe. Isso é que torna angustiante e, ao mesmo tempo fascinante, a bela tarefa de se conhecer em profundidade a mente e os desejos humanos…

A GERAÇÃO Y E O MUNDO DO TRABALHO

Um dos temas prediletos de Cientistas Sociais e Psicólogos são as diferenças entre as gerações. Em especial, tal questão entrou em minha tela de pesquisas pela primeira vez durante o final dos anos 1990, enquanto lecionava na graduação de Psicologia e concluía o meu Doutorado na PUC-Rio. Naquela ocasião, discutia com os meus alunos as reorganizações subjetivas e identitáras com relação ao mundo do trabalho e do emprego frente as alterações oriundas da revolução das Tecnologias da Informação e da Comunicação.

Naquele momento, eu estava absolutamente encantado pela obra – e, após alguns anos de sua publicação, ainda continuo achando a sua argumentação irresistível -, recém-lançada no Brasil, do sociólogo norte-americano Richard Sennett, intitulada A Corrosão do Caráter (Rio de Janeiro: Editora Record, 2004). Uma das coisas mais interessantes, dentre várias abordadas pelo autor, era a distinção que ele traçava entre os conceitos de emprego e trabalho, o primeiro relacionado ao imaginário da geração bay-boomer – os nascidos após a Segunda Guerra Mundial – e o segundo relacionado ao universo subjetivo da chamada geração Y – no Brasil, os nascidos durante os anos 1980 e 1990.

Enquanto os boomers tinham dificuldade de lidar com a precariedade do mundo corporativo atual, os Ys sentiam-se absolutamente à vontade nesse universo marcado pelas noções de precariedade, instabilidade e de curto prazo. Lembro-me claramente de um aluno meu, aluno da graduação em Comunicação Social, que dizia sentir-se angustiado se ele ficasse mais de 6 meses em um estágio sem ter sido sondado por outra empresa…

O resultado disso todos nós sabemos: jovens altamente empreendedores, totalmente contrários à vida corporativa tradicional, muito mais preocupados em tocar os seus projetos pessoais do que dedicarem-se “de cabeça” a uma determinada empresa. É o que Sennett genialmente denominou de “força dos laços fracos”. E até hoje, tanto nas minhas aulas de graduação quanto de pós, continuo a ver o mesmo fenômeno – jovens cada vez menos siderados pela perspectiva de uma vida totalmente dedicada a uma grande empresa, ávidos por uma carreira de longo prazo. Para essa nova geração, a palavra da moda é empregabilidade, isto é, a capacidade de mostrar-se competitivo no mundo transitório e efêmero das grandes corporações – que, ora sucumbem às grandes crises financeiras globais, ora são adquiridas em processos predatórios de fusões e aquisições.

A maioria esmagadora deles, de uma certa maneira, foram bons aprendizes e entenderam que a única certeza a se ter na vida é que a incerteza é onipresente…

Para adensar essa linha de pensamento, hoje saiu uma entrevista bastante interessante no periódico Valor Econômico com DeAnne Aguirre, sócia sênior da consultoria Booz & Co. Nesta, ela justamente aborda algumas diferenças cruciais entre os boomers e a geração Y – também conhecidos como Millenials ou geração da Internet – no que tange à dimensão do trabalho. E, de quebra, lança um belo desafio aos gestores de RH posto que, segundo estudo comandado por ela, cerca de 73% da força de trabalho no Brasil em 2025 será composta pelos representantes dessa vindoura geração Y

Tanto para os boomers quanto para a geração X – os nascidos entre os anos 1960 e 1970, dentre os quais eu humildemente me incluo -, a vida ideal seria marcada por um respeitável emprego em tempo integral, em uma grande empresa, com uma jornada presencial de várias horas no escritório – de preferência de maneira que o chefe pudesse testemunhá-lo. O modelo de ascensão corporativa assemelhava-se a uma escada, riscos e fracassos eram palavras riscadas do caderno corporativo, e a separação entre a vida pessoal e o trabalho era bastante marcada – família e comunidade de um lado, empresa do outro. Tudo isso regado a uma régia remuneração pois, para essas gerações, o dinheiro era o principal motivador. Afinal, só relógio trabalha de graça – e ainda assim, há controvérsias…

Em contraposição, para a geração Y, o mais importante é trabalhar em projetos que os satisfaçam como indivíduos, e de preferência com colegas onde haja pertença, cumplicidade e sentimentos positivos. A ascensão funcional não tem a ver com galgar patamares na hierarquia corporativa, mas sim com a capacidade de adquirir novos conhecimentos, a enfrentar novos desafios, a aprender novas coisas. É uma geração extremamente exigente e crítica quanto ao mundo corporativo, e que deseja uma jornada de trabalho mais flexível para que possa desenvolver novos projetos – pessoais, diga-se de passagem – fora do ambiente de sua empresa.

São workhaholics, viciados em tecnologia (mobilidade, wireless e redes sociais) e adeptos ao home-office e trabalho remoto, com day-offs e períodos sabáticos – vide o modelo corporativo do Google, o ícone dos Ys. Além disso, há uma interposição entre trabalho e vida pessoal, posto que eles trabalham o tempo todo – e, longe de uma relação sofrida e calvinista com este, encaram isto como pure fun!

Lidam bem com o risco e com a transitoriedade, e estão muito preocupados com os impactos sociais, ambientais e comunitários dos seus projetos de trabalho. Se entediam com facilidade – alguns especialistas dizem que são portadores de Transtorno de Atenção – e a remuneração não é o principal motivador – pelo contrário, são movidos primordialmente por novos desafios e novas oportunidades. São nômades, independentes e extremamente cientes de suas necessidades e desejos – afinal, são o produto mais bem-acabado do ideário individualista que tomou de assalto a Sociedade Ocidental de Consumo do pós-guerra..

Nem preciso dizer que os desafios são inúmeros quando o target é a geração Y. Isso vale não apenas para CEOs, superintendentes, gestores de RH e gerentes, mas também para profissionais de marketing e estudiosos de tendências e do comportamento do consumidor.

Como diria o nosso velho bardo inglês Shakespeare, há muito mais coisas entre o céu e a terra do que a nossa vã filosofia supõe. Isso é que torna angustiante e, ao mesmo tempo fascinante, a bela tarefa de se conhecer em profundidade a mente e os desejos humanos…

FREECONOMICS OU FREAKONOMICS?

Nos últimos anos, toda uma literatura sobre os impactos das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) e da globalização na economia mundial vêm sendo desenvolvida por diversos autores, cada qual dissecando aspectos diferentes desse mesmo fenômeno. Apesar das diferenças, existem alguns pontos em comum: além dessa literatura ser best-seller na área de negócios, todos os autores são unânimes em afirmar que, depois do advento da internet, o mundo nunca será mais o mesmo…

Um dos expoentes dessa literatura é o editora da prestigiadíssima revista Wired (um ícone da cibercultura) e guru de negócios Chris Anderson, autor do mega-hiper-ultra-best-seller A Cauda Longa, um dos livros de negócios mais interessantes que li no último ano. Anderson vem sacudindo o mundo corporativo com o seu novo blockbuster, Free – O Futuro dos Preços (Rio de Janeiro: Editora Campus, 2009). Ainda não tive a oportunidade de lê-lo (pretendo fazê-lo assim que possível), mas não deixa de ser irônico o fato do autor defender a tese de uma economia gratuita, e a versão impressa de seu livro ser vendida no Brasil a módicos R$ 59 (!!!). Curioso, não?

Como diria o sábio Lord Keynes, there’s no free lunch – apesar de Anderson afirmar em sua recente obra que isso é possível…

Em linhas gerais, o argumento central de seu recente livro é o fato de que a emergência das TICs propiciou a criação e a difusão de novos produtos – e também de produtos já existentes – a custo zero. Isso é um fato consumado, haja visto o download de músicas, filmes, games e livros disponíveis em diversos sites na internet a custo zero. Tal argumento, inclusive, levantou críticas violentas de adversários da freeconomics como Andrew Kenn – cujo livro O Culto do Amador, também muito interessante, já foi resenhado aqui no PRAGMA em um passado recente.

Esse novo cenário de negócios repleto de prosumidores – um misto de consumidores e produtores de conteúdo – propicia o surgimento de um fenômeno de consumo onde esses indivíduos possuem uma disposição comportamental de não pagar por produtos e serviços adquiridos virtualmente – a famosa cultura do “download” ilimitado. Ou seja, a internet gera uma cultura do acesso gratuito a conteúdos que, dado ser um hábito arraigado nos internautas, dificilmente será alterada no curto prazo. Perguntem aos executivos de grandes conglomerados de mídia a dificuldade que é cobrar dos seus leitores o acesso ao conteúdo disponibilizado virtualmente…

E, como psicólogo, posso afirmar com bastante propriedade que a mudança de hábitos cristalizados é um processo longo, demorado e, na maioria das vezes, bastante custoso, e cujo resultado nem sempre é existoso…

O que fazer então? Essa é a pergunta angustiante que ronda a cabeça de executivos, gestores e empreendedores no mundo inteiro. A internet é um fato inexorável, e quem não levar em consideração A Grande Rede em suas estratégias de negócios estará literalmente perdido ou fora do jogo da competição. No entanto, como lucrar em um mundo onde as pessoas estão acostumadas a acessar produtos e serviços de maneira gratuita – salvo as empresas de telefonia e os provedores de acesso à internet?

Para muitos analistas, inclusive Anderson, o lucro não virá mais sobre a forma da venda direta de produtos, mas sim associado à comercialização de serviços e outros tipos de diferenciais atrelados aos produtos adquiridos gratuitamente. Em suma, é o modelo de negócios do Google, onde a receita está atrelado a serviços adicionados – nesse caso, a venda de publicidade atrelada às páginas de busca. Nem se precisa dizer que essa tese é polêmica – haja visto que os jornais tentaram utlizar o mesmo modelo do Google em suas versões virtuais, e se deram mal -, e ainda muita banda será gasta tentando provar a viabilidade econômica desse modelo…

A despeito da polêmica, é necessário uma reversão radical da mentalidade atual que domina a mentalidade dos gestores, de que os preços cobrados por produtos podem ser absurdamente altos. Em tempo de crise econômica global, então, isso é uma verdadeira heresia! As pessoas querem o bom e o barato – e, de preferência, o gratuito! Utilizando uma metáfora do próprio Anderson, em uma economia onde o atrito é reduzido a quase zero, sempre haverá alguém que postará um conteúdo usualmente cobrado de maneira gratuita em algum site localizado em um provedor longínquo na internet…

Outro pensador, Kevin Kelly, fundador da revista Wired e trailblazer da ciberculura, endossa a tese consensual de que as empresas irão lucrar na economia digital oferecendo serviços atrelados a produtos gratuitos que dificilmente os piratas poderão oferecer com qualidade e eficiência. Eis as sugestões de Kelly para se transformar essa verdadeira freakonomics em uma freeconomics viável:

a) @Imediatismo: clientes podem pagar para ter acesso, em primeira mão, a novos produtos como livros, músicas, filmes, games ou outros tipos de conteúdo disponibilizados em formato digital. Paga-se um preço por ter algo inédito e ser adotante inicial.

b) @Personalização: clientes também poderiam pagar para ter cópias personalizadas desses mesmos produtos, ou então ter um atendimento customizado. Aliás, isso é o que mais desejam hoje todos os usuários de serviços: um atendimento diferenciado que leve em consideração as idiossincrasias e as demandas individuais de cada cliente.

c) @Interpretação: é algo corrente na indústria de software, onde muitos usuários de programas gratuitos pagam pelo suporte ou por soluções customizadas e acordo com suas próprias demandas.

d) @Autenticidade: a pirataria vai, na maioria esmagadora das vezes, em direção contrária à qualidade e à confiabilidade dos produtos oferecidos. Uma grande parcela de clientes estaria disposta a pagar para ter acesso à produtos e serviços confiáveis, de qualidade e com garantia de origem.

e) @Acessibilidade: em tempos de “computação em nuvem”, as pessoas e empresas pagariam para armazenar seus dados em serviços que possibilitariam acesso remoto aos mesmos. O desenvolvimento de plataformas móveis como os smartphones indicariam o crescimento da tendência da mobilidade como a próxima fonteira do mundo dos negócios.

f) @Presença física: a virtualidade não implica a supressão do mundo físico, ao contrário do que muitos gurus da cibercultura pensam. Na contramão dessa tendência, consumidores estarão dispostos a pagar por versões físicas, personalizadas e de qualidade de produtos disponíveis inicialmente em formato digital. Afinal, não vivemos em um mundo de hiperrealidade total, e ainda não lidamos bem com a idéia de que bits substituem os átomos – afinal, os primeiros são feitos dos segundos…

g) @Preço Justo: com o fim dos intermediários no mundo virtual, a tendência é que consumidores e produtores de conteúdo negociem diretamente o preço de seus produtos. O preço justo estaria a meio caminho da gratuidade e do preço extorsivo praticado, até então, por determinadas empresas. Artistas como David Bowie e bandas como Radiohead vislumbraram esta tendência e foram pioneiros, ao oferecer músicas e álbuns em seus respectivos sites diretamente aos seus fãs, deixando-os livres a pagar pelo que acham justo.

h) @Valor: esse é o grande paradoxo da freeconomics. Contraditoriamente, a gratuidade é um forte vetor de commoditização dos produtos, leia-se, de geração de percepção indiferenciada. Dessa maneira, ao cobrar por um determinado produto ou serviço, poderia se tornar uma estratégia de diferenciação.

Em suma, a poderosa tese de uma economia gratuita é uma enorme armadilha para os incautos que acreditam na possibilidade de haver um almoço de graça. Afinal, tudo na vida tem um custo, e tudo visa ao final alguma espécie de lucro. A prova disso são aqueles que, como esse Escriba que vos fala, se dirigirem à livraria mais próxima para comprar o novo livro do Anderson por módicos R$ 59…