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Archive for the ‘Ciência Política’ Category

O iPAD2 ESTRÉIA COM PÉ DIREITO NO MERCADO AMERICANO

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Aguardado com ansiedade pelos “applemaníacos”, estudiosos de marketing e geeks do mundo inteiro, o lançamento do iPad 2 – a versão turbinada do tablet que criou um novo segmento de mercado – foi alvíssaro para a empresa de Cupertino, na Califórnia. Aliás, teria como ser diferente, pergunto eu?

Segundo dados do setor, os estoques do tablet foram esgotados no final de semana passado, quando o iPad 2 chegou ao varejo norte-americano. As estimativas falam em aproximadamente quase 1 milhão de aparelhos vendidos (!!!!), e o estoque foi zerado nas lojas próprias da Apple, e em outras redes varejistas como a Target e a Best Buy. Com o aquecimento da demanda, as encomendas do produto já demoram cerca de 1 mês até chegarem nas lojas, o que aumenta ainda mais a ansiedade dos consumidores – tanto os já usuários do iPad quanto os neófitos ansiosos por ingressarem no mundo das telas de toque. 

Para refrescar a memória dos meus estimados leitores, a versão 1 do iPad vendeu mais de 300 mil unidades só nas primeiras 24 horas de sua comercialização…

A meta posta pela própria empresa, a da comercialização de 5,5 milhões de iPads 2, deverá ser atingida com facilidade em menos de três meses. Tudo isso em meio a mais de cem concorrentes do tablet produzidos por fabricantes rivais, que atualmente se encontram no segmento…

Até dezembro do ano passado, a Apple vendeu 14,8 milhões de iPads, gerando uma receita de 9,6 bilhões de dólares, tornando o gadget um dos aparelhos eletrônicos de consumo de venda mais rápida na história mundial.

E você, já comprou o seu? Confesso que estou achando o meu iPad meio básico, meio antiquado…

10 TENDÊNCIAS TECNOLÓGICAS PARA 2011

janeiro 14, 2011 4 comentários
Façam suas apostas!
Em sua edição de quinta-feira, o periódico Valor Econômico publicou uma lista das 10 tendências tecnológicas para o ano de 2011. Uma breve olhada nessa lista indica claramente o seu fio condutor: interatividade, mobilidade e convergência.

Claro que o fato destas tendências serem listadas não se torna garantia de que todas elas possam, de fato, acontecer e se consolidar, posto existir diferenças claras de gradação, difusão e adoção por parte dos consumidores. Por exemplo, na lista do ano passado publicada pelo mesmo periódico, duas dessas tendências tornaram-se verdadeiros “micos”: são elas o blue-ray e a realidade aumentada.

Eis a lista das 10 tendências tecnológicas para o ano de 2011:

1. Tablets – haja iPads, Galaxys, Androids e congêneres. Definitivamente, as “tabuletas mágicas” ganharam os corações e as mentes dos consumidores brasileiros…

2. Aplicativos – no rastro dos smartphones e dos tablets, a onda do momento é baixar softwares para turbinadar e personalizar as máquinas.

3. Banda larga – já que as operadoras de acesso residencial nos desprezam cada vez mais, a solução é apelar para as “maravilhosas” redes 3Gs das operadoras de telefonia móvel. Bem entendido, trata-se da típica situação do jogo de soma-zero. Ou melhor, do dilema entre a cruz e a calderinha. Ou melhor, como diriam os americanos, hell or high water

4. Software como serviço – se Deus está nos céus, o Google está nas nuvens!

5. TV fora da TV – seja via smartphones, tablets ou streaming, o lema do negócio é: quando quiser, com quem quiser e da maneira que quiser…

6. Redes sociais – haja Twitter, Facebook, Linkedin, blogs... E, de preferência, com “joguinhos” embutidos. Quanto mais, melhor!

7. Smartphones – o óbvio ululante…

8. Tecnologia 3D – apesar de não despertar tanto “frisson” nos EUA, os filmes em 3D caíram no gosto dos brasileiros. A próxima aposta dos fabricantes é a TV de LED utilizando essa tecnologia. Há controvérsias…

9. Mapas – se o Street View do Google virou mania entre os brasileiros, o Foursquare é uma tendência a ser considerada. Afinal, confiamos mais nas dicas dos nossos seguidores do que as oferecidas pelos órgãos tradicionais de comunicação.

10. Sites de compras coletivas – tudo bem que isso já “encheu o saco”, mas o fato é que a onda ainda não acabou! Afinal, estamos na Corrida do Ouro. The east is the best!

E vocês, meus caros leitores, concordam com essa tendência. Acrescentam algo? Suprimem algo? 

O SALDO DESSAS ELEIÇÕES

Acabei de ler um artigo interessantíssimo do respeitado cientista político brasileiro Wanderley Guilherme dos Santos – um dos maiores do país, em minha opinião, e autor de livros precisos a respeito da sociedade brasileira – publicado na edição de quinta-feira do periódico Valor Econômico. Além de denso, o autor levanta uma série de questões que considero importantes sobre o resultado – não eleitoral, bem entendido – das eleições majoritárias deste domingo para o cenário político futuro em nosso país.

Não tenho o objetivo aqui de tecer maiores comentários, posto que o autor os expressa numa prosa elegante e sofisticada. Gostaria apenas de elencá-las abaixo, na tentativa de fomentar o debate com e entre os meus caros e argutos leitores. São eles:

1. A ocorrência de dois óbitos: o da eficácia eleitoral da política de redistribuição de renda no país, e o do efeito desestabilizador da grande mídia.

2. Os avassaladores ganhos de renda das classes econômicas menos favorecidas nos últimos anos, somado à ascensão do consumo frenético de bens e serviços, tornou um outrora “encabrestado” eleitorado de mais de 136 milhões de brasileiros cada vez mais insubmisso, tanto ao poder das elites leninistas quando ao controle dos coronéis locais. Talvez esse seja um dos saldos mais importantes para o futuro do processo político no país.

3. A redução dramática do poder das elites oligárquicas e hereditárias do nosso país ocorre a olhos vistos – leia-se o futuro raquítico do DEM, por exemplo – e o surgimento de uma “nova classe média” de consumidores do tamanho do Japão (aproximadamente 80 milhões de pessoas), não deixa muita margem de manobra para a sobrevivência dessa elite política cada vez mais desidratada. Resta-lhes, apenas, negociar com essa nova classe média, apesar de todo o ressentimento oriundo de ambos os lados que contaminará o cenário no curto prazo.

4. Grande parte das políticas sociais implementadas nos últimos anos visando atingir a população de baixa renda dispensa quaisquer tipos de intermediários – leia-se, coronéis, políticos, padrinhos e até mesmo autoridades religiosas. Consequentemente, a percepção dos favorecidos por essas políticas tende a deixar a esfera da “gratidão”, adentrando ao espectro de “obrigações mínimas” do estado. Como decorrência disto, qualquer político que queira sustentar seus ganhos políticos a partir da franquia a essas políticas sociais tende a erodir o seu capital político – logo suas chances eleitorais – a médio prazo.

5. Logo, a relação entre eleitor, político e Estado tende a sair do plano da subserviência e adentrar ao plano da obrigação do aparato estatal e dos formuladores das políticas públicas. Em decorrência disso, o “voto-gratidão” ou se torna “voto-confiança”, ou então irá migrar de dono. Talvez nesse movimento residam as bases sustentáveis para a construção de um pacto político consistente e duradouro envolvendo o cidadão e a res publica.

6. Parte considerável dessa “nova classe média” tenderá ao conservadorismo, por acreditar que existem limites à atual mobilidade social ascendente. Afinal, ganhos desse tipo não se mostram capazes de resistir a uma longa série histórica. A maioria das pessoas empregadas atualmente em postos no setor industrial ou de serviços deverá se aposentar em sua posição atual, dificilmente atingindo cargos de mando ou chegando no topo da hierarquia organizacional. E a percepção delas é que, se houver mudanças, essas deverão ser para pior. Isto é uma decorrência natural posto que, conforme as pessoas amadureçam, elas tendem a ser mais conservadoras – o que é chamado de “aversão ao risco”, ou de “potencial de votos conservadores”. Logo, nas próximas eleições, mais do que a promessa de novas alterações na ordem social, a maioria do eleitorado irá querer a consolidação das conquistas atingidas anteriormente.

7. Com os escândalos e o denuncismo jornalístico vigente, caberá aos futuros governos uma melhor escolha dos gestores de políticas públicas, objetivando-se buscar quadros que sejam melhor preparados, e que operem nos limites aceitáveis da lisura, da eficiência e da legalidade de seus atos. O cuidado com o funcionamento da engrenagem governamental deve ser permanente e habilidoso, e não meramente regido por critérios burocráticos ou de confiança. 

8. No entanto, o poder desestabilizador da grande mídia brasileira agoniza, posto haver tanto um distanciamento dos setores populares quanto dos militares – historicamente, estes últimos são forças desestabilizadoras em nossa história. Nesse sentido, o recrudescimento do denuncismo é apenas uma evidência desse fato. Porém, é preciso sempre lembrar que o mesmo leitor de jornais que recusa o exagero, acaba por aceitar o fato comprovado.

O artigo é deveras complexo, apesar de conciso. Resumi aqui os seus principais pontos com alguns comentários meus adicionais – e devo acrescentar que simpatizei com todos eles. Agora, eu gostaria de ouvir a opinião de vocês sobre essas questões. Será que podemos dizer que o saldo dessas eleições de amanhã – para além da vitória do candidato A, B ou C – é esse mesmo?

Com vocês, meus estimados leitores, a palavra… 

O PEQUENO NOTÁVEL

Mal foi lançado, o iPad vem mostrando que definitivamente veio para ficar ao criar um novo mercado – se os meus leitores eruditos preferirem, um verdadeiro “oceano azul”… 

O descoladíssimo tablet da Apple, apesar das inúmeras críticas dos especialistas, atingiu a marca de 1 milhão de unidades comercializadas em apenas 28 dias após a sua introdução no mercado – que ocorreu no dia 3 de abril passado.

Só para se ter uma idéia do sucesso estrondoso do iPad, o iPhone – outro gadget de sucesso da Maçã – demorou 74 dias para atingir a mesma marca. Ou seja, tudo indica que estamos vivenciando o início de uma revolução na área do consumo de conteúdo digital…

Como se isso não bastasse, foram “baixados” 12 milhões de aplicativos e 1,5 milhões de livros digitais para o aparelho na Apple Store, só nas últimas quatro semanas! Realmente, um belíssimo começo…

A pergunta que não quer calar é a seguinte: com o impulso dado no mercado de tablets pelo iPad, haverá ainda espaço suficiente para os leitores de e-books (como Kindle, Nook, Sony Reader, CooLer, etc…)? Ou será que os e-readers estão fadados a ser tornarem um mercado de nicho bastante restrito?

A GRANDE ESTRATÉGIA DO IMPÉRIO BIZANTINO

fevereiro 27, 2010 1 comentário
Quem me conhece mais amiúde, sabe: sou um aficcionado por história, especialmente por história antiga. Estudar livros de história é, para mim, além de um delicioso hobby, uma maneira de compreender melhor a dinamica de funcionamento dos atores envolvidos naquele período, entender o seu funcionamento mental, bem como vislumbrar como a nossa subjetividade atual é forjada a partir do lento e complexo processo da sedimentação e entrecruzamento de diversas práticas sociais que tiveram origem em tempos remotos. Nesse sentido, é extremamente instrutivo estudar a história de civilizações antigas como a Mesopotamia, o Egito, a Grécia, Roma, os celtas, os germanicos, os persas, os cartagineses, os fenícios, dentre inúmeras outras. Isso só pode ser fruto de uma mente foucaultiana, engendrada em meio a livros de nouvelle histoire, com uma pitada de jogos de linguagem wittgensteinianos…

É com esse espírito que, quase sempre, me deparo com textos extremamente instigantes que me levam a pensar com profundidade sobre temas como a natureza da guerra, a paz, o conflito de interesses e sua respectiva resolução. Um deles, que foi publicado no famoso periódico Foreign Policy do final de 2009, é de autoria do historiador e estrategista norte-americano Edward Luttwack. O texto, intitulado “Take Me Back To Constantinople”, discute que a saída para o atual impasse americano no Oriente Médio e no AfPaq (o codinome para Afeganistão – Paquistão) deve ser buscado nos livros de história, ou melhor, nas lições do Império Bizantino. Ou seja, para os Estados Unidos, a solução para o impasse é: mais Bizancio, menos Roma!

Como é que é? Explica melhor isso…

Luttwak é um escritor polemico, autor de livros como The Grand Strategy of the Roman Empire (1976), The Grand Strategy of the Soviet Union (1983) e Turbo-Capitalism (1999). Sua obra é marcada por uma grande preocupação com as estratégias utilizadas pelos grandes impérios na defesa dos seus interesses. Do Império Romano, ele observou uma estratégia guerreira e militarista, baseada na expansão territorial e na dominação de povos estrangeiros com base na força bruta. É inegável o paralelo entre a estratégia norte-americana e a estratégia dos Césares, dado o predomínio da força bruta e do poderio militar. Algo que o cientista político norte-americano Joseph Nye denominaria de exercício efetivo do hard power.

No entanto, argumenta Luttwak no referido artigo, nem sempre a afirmação dos interesses de uma nação – ou de um império – pode ser obtida exclusivamente pelo uso exclusivo da via militar. Inclusive, se esta for usada sem parcimonia e cálculo, ela pode significar o ocaso de um Império – e o declínio e a derrocada de Roma é a maior prova histórica da fragilidade dessa estratégia. Daí, o autor argumentar que os atuais dilemas vividos pelo Império Americano serem melhor equacionados a partir de um exame mais minucioso dos recursos estratégicos utilizados pelos basileis – plural de basileus, como eram denominados os monarcas bizantinos.

O Império Bizantino, cuja capital era Constantinopla – atualmente Istambul, capital da Turquia – foi o remanescente da queda do Império Romano do Ocidente, tomado pelas invasões bárbaras de hunos, godos, vandalos, francos e germanicos. Apesar de estar situado em um território prá lá de explosivo (já naquela época!), entre o Crescente Fértil, os Balcãs, a região do Caúcaso e o Leste Europeu, Bizancio conseguiu sobreviver durante oito séculos, até a sua queda em 1453 frente aos árabes. Seu segredo residia na combinação criativa e extremamente entre o hard power (recursos militares) e o soft power (recursos economicos e culturais).

Ou seja, a virtude bizantina repousava na negação dos princípios imperiais romanos: onde residia a força bruta, havia a diplomacia dos acordos; onde havia o conflito aberto, abria-se espaço para o suborno e o incentivo ao dissenso entre as fileiras inimigas; onde existia a luta aberta e franca, entrava em jogo o conluio de interesses, a “guerra fria”, a manipulação dos adversários e até mesmo dos aliados. Persuasão, pensamento estratégico, dados de inteligencia, doutrinas táticas, suborno, cisões e dissensos, tudo isso fazia parte do arsenal tático da realpolitik de Bizancio…

Em seu último livro, intitulado The Grand Strategy of the Byzantine Empire (2009), Luttwak elenca os princípios que guiavam a ação estratégica do típico basileus e estrategistas bizantinos. São eles:

1. Evite a guerra ao máximo, mas esteja sempre preparada para ela. Prontidão, preparação e treinamento são elementos fundamentais para a consecução desses objetivos. A elevada predisposição para o combate reduz a possibilidade de deflagrar o conflito;

2. Colete dados dos seus inimigos (armas, recursos, táticas, doutrinas, formas de pensar e de agir), e monitore suas ações constantemente;

3. Lute com vigor, tanto ofensiva quanto defensivamente, mas evite grandes batalhas – exceto em circunstancias muito favoráveis. Use a força em pequenas doses para persuadir aqueles que são suscetíveis a ela, e atingir aqueles que não são suscetíveis ao seu poder;

4. Troque guerras prolongadas de ocupação por ações de manobra rápidas, que desestruturem o moral do seu adversário, e depois retire-se. Lembre-se: o objetivo não é destruir os seus adversários, pois eles podem se aliar a voce amanhã. É melhor ter muitos inimigos, porém divididos e enfraquecidos, pois é possível manipulá-los e jogá-los uns contra os outros;

5. A diplomacia é mais importante na guerra do que na paz. Busque encerrar uma guerra recrutando aliados que possam alterar o equilíbrio de poder. Os aliados mais úteis são aqueles mais próximos dos seus inimigos, pois eles o conhecem com propriedade e profundidade. Rejeite o aforisma: “quando as armas falam, os diplomatas se calam”;

6. A subversão é o caminho mais barato para a vitória. Ela é tão mais barata que a guerra, que deve ser sempre tentada, mesmo com aqueles inimigos que parecem os mais difíceis e irreconciliáveis. E lembrem-se: como a experiencia bizantina demonstrou, até mesmo fanáticos religiosos podem ser “comprados” ou subornados; e, por fim,

7. Quando a diplomacia e a subversão forem ineficazes, use táticas que minem o adversário, buscando consumar as suas forças e sua disposição para lutar, explorando suas limitações e fraquezas, minando-o lentamente e abatendo o seu moral. Lembre-se: isso requer tempo e paciencia.

Mas, ao fim e ao cabo, no pain, no gain. Afinal, nações mudam, os ventos sopram em outras direções, as circunstancias sofrem alterações, e os líderes vem e vão… Exceto os impérios que, dependendo da habilidade tática e da visão estratégica do lìder, podem perdurar por séculos e séculos…

A CRISE NA UNIÃO EUROPÉIA (3): ESPANHA

Continuando a série sobre a recessão econômica no bloco europeu, hoje o país a ser discutido é a Espanha. A Espanha é um dos países que mais sofreu os impactos da crise econômica e financeira global do final de 2008. Isto tem levado a população do país a um estado atual que é um misto de letargia e perplexidade diante das condições de vida cada vez mais hostis e austeras…

Diferentemente de seu vizinho de Península Ibérica, a economia espanhola é muito mais moderna, vibrante e diversificada, em função da presença de arranjos produtivos locais que espelham diferentes realidades regionais. A Espanha deve ser entendida muito menos como um bloco indiferenciado, e muito mais como uma federação de estados com culturas, línguas e estruturas sociais próprias. O país é um mosaico colorido e diversificado de povos, etnias e marcações culturais específicas.

Neste complexo mosaico convivem, por exemplo, uma Galícia agrária e de raízes celtas, com um País Basco marcado pela indústria pesada e pela siderurgia. Enquanto Madrid é o centro econômico-financeiro do país, Barcelona é sinônimo de sofisticação, europeidade, urbanidade e arrojo arquitetônico. Isso sem falar no introspectivo e explosivo flamenco gestado na região de Valencia – sem falar na sua maravilhosa culinária e suas “teterías” – e a exuberancia solar da região da Andaluzia que, a cada visita a antigas mesquitas, palácios e fortificações, nos lembram que a Europa é em grande parte forjada também pela herança da arquitetura e da culinária moçárabes. Enfim, a Espanha é um belíssimo e fascinante caleidoscópio onde, a cada giro, novas nuances se abrem ao olhar atento do visitante…

No entanto, essa alegria contagiante não corresponde à situação econômica atual, que é desesperadora. Com a crise de 2008, a bolha imobiliária do país explodiu – sim, ela não era uma exclusividade norte-americana! Cerca de 25% dos espanhóis pagam hipoteca, e a dívida em créditos hipotecários está acima de €678 bilhões. Ou seja, um em cada 3 espanhóis tem dificuldades para honrar as suas dívidas, e mais da metade deles possuem tres ou mais empréstimos bancários.

Segundo pesquisas do Instituto Nacional de Estatísticas, realizada entre 2007 e 2008, o número de famílias que tinham perdido as suas habitações superava a cifra de 1 milhão e meio! O país possui uma das maiores dívidas externas do mundo, que compromete cerca de 65,9% do seu PIB. Para piorar, a taxa de desemprego encontra-se no patamar de 20% (uma das maiores entre os países desenvolvidos), atingindo 44% só entre a população mais jovem, isto é, a mais apta e disposta a trabalhar.

O resultado disso tudo é muito dramático: famílias despejadas de suas casas, filas nos guiches dos programas governamentais de auxílio desemprego, um número cada vez maior de pessoas se alimentando em restaurantes populares ou até mesmo buscando ajuda em instituições de caridade, geralmente mantidas pela Igreja Católica – instituição que tem uma forte presença no país. O número de famílias inadimplentes é da ordem de 114 mil, e que sofrem uma perda progressiva de seu padrão de vida: primeiro, perdem o emprego; segundo, tornam-se inadimplentes; por fim, perdem as suas casas. Ou seja, uma funesta e destrutiva espiral!

Aliás, uma observação: quando se fala em Espanha, não existe meio-termo! Tudo nela é superlativo, dramático, hiperbólico…

NAS BANCAS, A EXAME ANGOLA

Em um mundo globalizado, onde as oportunidades comerciais, políticas e culturais dão a tônica, é importante que os brasileiros tenham idéia do que acontece ao nosso redor. Até porque, como o mundo é cada vez mais sistêmico, o que acontece em outros países ou em outros continentes certamente terá impacto na dinâmica de funcionamento da nossa economia. A crise financeira global do final de 2008 está aí para nos provar a existência do chamado “efeito borboleta”: o bater de asas de uma borboleta em Taiwan pode, por exemplo, ter implicações na dinâmica climática da África, ou até mesmo do Brasil…
Falando em África, são evidentes os laços culturais entre o Brasil e os países da África subsaariana – em especial, os de língua portuguesa e os situados na costa atlântica do continente. Música, manifestações culturais, religião, costumes, culinária e moda são alguns dos pontos de contato entre estas sociedades, definidas como melting pots ou “cadinhos culturais” – cujas práticas culturais são o fruto de um longo processo de entretecimento histórico de inúmeras contribuições de diversos povos, etnias, costumes e tradições.
Nem é preciso lembrar que, desafortunadamente, um dos elementos que possibilitou essa convergência cultural entre o Brasil e a África foi o comércio de escravos – um dos momentos mais infames da história dessa região -, e que proporcionou o trânsito desses elementos entre as duas margens do Oceano Atlântico.
Em uma figura de linguagem que considero extremamente feliz e bem construída, o diplomata Alberto da Costa e Silva – uma das maiores autoridades em África do nosso país – escreveu um livro cujo título que ilustra com muita propriedade o trânsito de produtos e elementos culturais entre as duas regiões. Trata-se do livro Um rio chamado Atlântico: a África no Brasil e o Brasil na África (Rio de Janeiro: Nova Fronteira/Editora UFRJ, 2003). Trata-se, sem dúvida, de uma belíssima indicação bibliográfica para o meu curioso leitor que deseja se aprofundar um pouco mais na temática das relações entre o Brasil e o continente africano…
Dentre os países do continente africano, são óbvias as ligações entre o Brasil e os países de língua portuguesa – Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau. Dentre esses, Angola destaca-se não apenas pela proximidade dos laços culturais, mas também pela pujança econômica que o país vive desde o final da Guerra Civil (que durou de 1975 a 2002), que destroçou essa ex-colônia portuguesa rica em diamentes, minérios e hidrocarbonetos. Aliás, são justamente esses últimos recursos energéticos – petróleo e gás – que estão impulsionando o crescimento do país, tornando-o um verdadeiro “canteiro de obras” a céu aberto. Destaca-se também o crescimento do investimento chinês na região em obras de infra-estrutura, construção civil e agricultura.
A despeito da queda do preço do barril do petróleo e a crise econômica global, que levaram inclusive que os organismos internacionais projetassem indicadores bastante pessimistas para a economia do país, as perspectivas atuais para o crescimento do PIB angolano para 2010 são extremamente otimistas: enquanto o governo angolano prevê um crescimento econômico da ordem de 8,2%, órgãos internacionais como FMI e o Banco Mundial projetam um crescimento da 9,3% e 6,5%, respectivamente. Já prestigiada revista britânica The Economist projeta para 2010 uma expansão do PIB da ordem de 5,5%.
No entanto, Angola é um país com seríssimos problemas econômicos, políticos e sociais. Primeiro, é um país cuja economia é afetada pelas flutuações mundiais dos preços das commodities minerais – principal produto de sua pauta de exportação -, o que certamente é um fator gerador de instabilidade econômica. Segundo, é um país onde não há alternância de poder desde o final da Guerra Civil em 2002, agravado pela corrupção que é um elemento endêmico da estrutura política do país. Além disso, Angola possui indicadores de renda e sociais tenebrosos quando o assunto é: má distribuição de renda, taxas de analfabetismo, índices de natalidade, mortalidade e expectativa média de vida da população, isso sem falar numa das grandes chagas do continente africano, que é o grau de infestação do vírus HIV/AIDS na população. Isso sem falar numa elite política extremamente corrupta, predatória e plutocrata. Ou seja, algo que nós brasileros conhecemos muito bem…
Tudo isso não tira o encanto, a complexidade e a riqueza da África. É para lá que as atenções do mundo estarão voltadas em junho/julho de 2010, com a realização da Copa do Mundo de Futebol na África do Sul, certamente o maior evento esportivo do planeta. E, para que possamos olhar o continente africano de uma forma diferenciada daquela que é difundida pela mídia de massa global – onde a África é alcunhada de “o continente esquecido” -, é digno de registo a publicação em terras brasileiras do primeiro número da revista Exame Angola, ocorrido em dezembro do ano passado. A revista é fruto de um contrato de licenciamento entre o grupo Media Nova e a Editora Abril, que é dona da revista Exame, uma das revistas de negócios de maior circulação no Brasil.
Apesar de algumas matérias repetidas das edições brasileiras, a Exame Angola traz matérias inéditas – e bastante interessantes – que dissecam os mais variados setores produtivos da economia do país, além de entrevistas com políticos, executivos e empreendedores do país. É um belo mergulho na economia de um país que, apesar de tão perto – é logo ali, do outro lado do Atlântico -, ainda é bastante desconhecido pela grande maioria dos brasileiros.

Para quem quiser dar uma olhada na publicação, basta visitar o site http://www.exameangola.com/web/