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SAM DUNN: UM ANTROPÓLOGO A SERVIÇO DO HEAVY METAL

É difícil explicar a complexidade de sentimentos quando um headbanger escuta suas bandas favoritas. Riffs mortais de guitarra, baterias trovejantes, baixos vindos das profundezas da alma e vocais arrebatadores – sejam estes os mais agudos ou os mais guturais possíveis – convidam quase que instintivamente um metalhead a literalmente “bater a cabeça”. Pelo menos, tem sido assim comigo nos últimos 25 anos – isto é, desde que eu me entendo como gente…

Desde minha adolescência, o som pesado “caiu como uma luva” para um garoto que sentia – e ainda sente, mesmo já adulto – um profundo senso de inadaptação a esse mundo. Afinal, nunca fui o tipo popular entre a “galera” da escola: era CDF, usava (e ainda uso) um óculos “fundo de garrafa”, e nunca fiz o tipo atlético – praticava mal esportes, e não tinha um corpo propriamente adequado aos padrões estéticos atuais e de outrora. Resultado: me tornei um cara com um profundo sentimento agressivo armazenado, fruto de uma visão distópica, melancólica e amargurada de tudo e de todas as pessoas que me cercavam… 

Felizmente, logo na adolescência descobri que eu não estava só – tinha um monte de moleques parecidos comigo que, como eu, compartilhavam um amor profundo por uma música difícil, pesada, barulhenta e sombria, justamente por tocar nos recantos mais obscuros da alma. Logo, me apaixonei pelo heavy metal, tornando-me um fanático colecionador de fitas cassetes das bandas – é meus amigos, naquela época não existia ainda o CD!

Como não poderia deixar de ser, ainda por cima deixei o meu cabelo crescer (triste lembrança da época em que eu ainda o possuía!), andava pela escola com camisas pretas das bandas mais obscuras e extremas, vestindo jeans rasgados, headphones no volume máximo e, como qualquer headbanger que se preza, dedilhava air guitars pelos quatro cantos. Ato contínuo, formei uma banda de garagem, toquei em alguns shows, fui a inúmeros outros e tornei-me mais apaziguado justamente por ter encontrado a minha “tribo”. O resto é história que se desenrola até hoje…

Literalmente, foi o heavy metal que me ajudou a superar esses momentos difíceis em minha vida, onde os sentimentos obscuros e depressivos costumam tomar conta das almas mais atormentadas. O fato de ter descoberto a minha própria “galera” foi terapêutico, ajudou a aumentar a minha auto-estima e tornou-se o meu combustível existencial de cada dia. Até hoje, todos os dias em que saio para trabalhar, ou até mesmo em um simples passeio pela rua, lá estou eu com os meus indefectíveis headphones, nutrindo a minha alma com minha dieta diária de Black Sabbath, Deep Purple, Van Halen, Slayer, Tool, Nine Inch Nails, Rammstein, dentre inúmeros outros que cabem no meu propositalmente black iPod

Confesso que sempre vi a polêmica que cerca o heavy metal como uma simples falta de compreensão da complexidade que cerca esse fenômeno cultural que, a despeito de seu caráter inevitavelmente unhip, continua atraindo uma legião de fãs devotados e de todas as idades no mundo todo. Como em qualquer relação com a alteridade, os mais desavisados selecionam pontualmente os seus aspectos mais controversos – o sexismo machista, a iconoclastia anti-religiosa, o satanismo e as manifestações ritualizadas de virilidade e de agressividade  – e destacam-nas, como se fossem os elementos centrais ao movimento. 

Nunca o princípio gestaltista foi tão válido como nessa situação: “o todo é MAIOR do que a soma das partes”. Literalmente…

Para mim, isso é fruto de truísmos simplórios tais como julgar o livro pela capa, ou então riscar a superfície de uma manifestação cultural tão complexa. Além disso, o som pesado é difundido globalmente a ponto de atravessar a vida de milhões de jovens de todas as regiões, países, etnias e crenças. Paralelamente a esse ponto, sempre achei que faltava um olhar definitivo sobre a cultura heavy metal, e creditava a isso uma certa falta de distanciamento histórico que é necessária a fim de diminuir as paixões que temas extremos geralmente despertam nas pessoas…

Para a minha surpresa, nos últimos anos têm surgido um série de livros e documentários que procuram analisar esse movimento de maneira mais profunda, tanto em termos históricos quanto em sua complexidade cultural. Dentre esse movimento, destaca-se a figura do jovem antropólogo, documentarista e metalhead canadense Sam Dunn. Junto com seu parceiro Scott McFayden, eles criaram a Banger Films – uma produtora dedicada a realizar filmes que visam analisar o movimento pesado. Resolvi ver algumas de suas películas nesse final de semana, e confesso que saí de “alma lavada e enxaguada” – como diria o folclórico Odorico Paraguassu…

O primeiro filme de Dunn, intitulado Metal: a Headbanger`s Journey (de 2005), pretende lançar um olhar antropológico sobre o movimento, a partir da perspectiva do próprio cineasta que, numa abordagem participante, procura entender a história, suas principais características e nuances que cercam a cultura do heavy metal. Utilizando uma linguagem ágil (primorosa e profundamente apropriada), combinando o didatismo de um historiador com o entusiasmo de um fã devotado, Dunn vai aos festivais, conversa com os “dinossauros” (Tony Iommi, Ronnie James Dio, Lemmy), as bandas mais recentes (Slipknot, Lamb Of God) e até mesmo com os fãs mais comuns – e que geraram os materiais mais interessantes do filme. Impossível não se identificar! O resultado é particularmente tocante para aqueles que, como esse Escriba que vos fala, estão envolvidos emocionalmente com o som pesado até as entranhas da alma. Até mesmo temas controversos como o black metal norueguês e sua cruzada anti-cristã são abordados pelo cineasta.

O segundo filme, Global Metal (de 2008), procura mostrar a difusão do movimento para além da Europa Ocidental e dos Estados Unidos, berços históricos do heavy metal. O antropólogo nos leva a lugares onde nunca se imaginaria que o som pesado pudesse prosperar – tais como o death metal indonésio, o metal oriental israelense, o black metal chinês, o thrash metal iraniano além, é claro, das bandas “brazucas” (com destaque para o Sepultura, de longe o nome mais importante do metal nacional por ter sido a primeira banda brasileira a granjear respeito e sucesso comercial lá fora). O filme é uma mostra da vitalidade do movimento, mostrando que existe uma legião de fãs worldwide que produz, consome e ressignifica os símbolos dessa cultura independentemente do fato de ser um movimento intrinsecamente outsider.

Deixando de lado o caráter didático, Dunn e McFayden deixaram aflorar as emoções nas películas posteriores, sobre dois grandes ícones do movimento. Em 2009, lançaram Iron Maiden: Flight 666, onde cobriram o dia-a-dia da turnê mundial de 2008 desse que é considerado um dos grupos mais representativos do som pesado – para muitos fãs, o Iron Maiden É o heavy metal.

Nesse ano de 2010, lançaram o belíssimo documentário Rush: Beyond The Lighted Stage, que conta a história da banda canadense de maior sucesso até os dias de hoje. Em comum com o Iron Maiden, a legião fanática de fãs que o power trio canadense possui. Além do mais, para qualquer fã do som pesado o Rush é a personificação da genialidade, da criatividade e do virtuosismo – todos os seus integrantes são músicos “monstruosos”!. Todo garoto que aspira a ser um músico de metal sabe o que é passar horas decorando os riffs, as quebradas de ritmos e os tempos de obras-primas como YYZ, Tom Sawyer, La Villa Strangiatto, 2112, dentre outras várias…

Sam Dunn faz tributos emocionados e profundos sobre um movimento cultural e musical tão rico quanto controverso. Assistir aos seus filmes foi como voltar a ampulheta do tempo, um verdadeiro reencontro com a minha história e com aquele garoto de 25 anos atrás que, apesar de mais gordinho e sem tanto cabelo nos dias de hoje, continua a ser o mesmo a sair por aí com os seus fones de ouvido no volume máximo, a dedilhar air guitars e tocar baterias imaginárias enquanto busca sentido nesse mundo estranho em que vivemos…

Aliás, para terminar: eu vou ao show do Rush nesse domingo na Praça da Apoteose. Alguém se habilita?    
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  1. Tutuio(pode ser apelido?)
    outubro 13, 2010 às 4:22 am

    Cara: RUSH, assim, com maiúscula! Fui em Sampa…1500 km prá ir e o mesmo prá voltar (sou do RS)…os caras são como tu falou (“monstruosos”)…baita texto o teu!

    • Jose Mauro Nunes
      outubro 13, 2010 às 12:54 pm

      Camarada, os caras do RUSH são maravilhosos, uns puta músicos! Assisti-os pela primeira vez aqui no Rio de Janeiro, por ocasião que deu origem ao DVD “Rush in Rio”. Nem preciso falar nada, pois as imagens falam por si só! E muito obrigado pelo seu comentário. Afinal, apenas expressei um sentimento que acho que todos os “metalheads” possuem, me maior ou menor garu! Abraços!

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