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O SALDO DESSAS ELEIÇÕES

Acabei de ler um artigo interessantíssimo do respeitado cientista político brasileiro Wanderley Guilherme dos Santos – um dos maiores do país, em minha opinião, e autor de livros precisos a respeito da sociedade brasileira – publicado na edição de quinta-feira do periódico Valor Econômico. Além de denso, o autor levanta uma série de questões que considero importantes sobre o resultado – não eleitoral, bem entendido – das eleições majoritárias deste domingo para o cenário político futuro em nosso país.

Não tenho o objetivo aqui de tecer maiores comentários, posto que o autor os expressa numa prosa elegante e sofisticada. Gostaria apenas de elencá-las abaixo, na tentativa de fomentar o debate com e entre os meus caros e argutos leitores. São eles:

1. A ocorrência de dois óbitos: o da eficácia eleitoral da política de redistribuição de renda no país, e o do efeito desestabilizador da grande mídia.

2. Os avassaladores ganhos de renda das classes econômicas menos favorecidas nos últimos anos, somado à ascensão do consumo frenético de bens e serviços, tornou um outrora “encabrestado” eleitorado de mais de 136 milhões de brasileiros cada vez mais insubmisso, tanto ao poder das elites leninistas quando ao controle dos coronéis locais. Talvez esse seja um dos saldos mais importantes para o futuro do processo político no país.

3. A redução dramática do poder das elites oligárquicas e hereditárias do nosso país ocorre a olhos vistos – leia-se o futuro raquítico do DEM, por exemplo – e o surgimento de uma “nova classe média” de consumidores do tamanho do Japão (aproximadamente 80 milhões de pessoas), não deixa muita margem de manobra para a sobrevivência dessa elite política cada vez mais desidratada. Resta-lhes, apenas, negociar com essa nova classe média, apesar de todo o ressentimento oriundo de ambos os lados que contaminará o cenário no curto prazo.

4. Grande parte das políticas sociais implementadas nos últimos anos visando atingir a população de baixa renda dispensa quaisquer tipos de intermediários – leia-se, coronéis, políticos, padrinhos e até mesmo autoridades religiosas. Consequentemente, a percepção dos favorecidos por essas políticas tende a deixar a esfera da “gratidão”, adentrando ao espectro de “obrigações mínimas” do estado. Como decorrência disto, qualquer político que queira sustentar seus ganhos políticos a partir da franquia a essas políticas sociais tende a erodir o seu capital político – logo suas chances eleitorais – a médio prazo.

5. Logo, a relação entre eleitor, político e Estado tende a sair do plano da subserviência e adentrar ao plano da obrigação do aparato estatal e dos formuladores das políticas públicas. Em decorrência disso, o “voto-gratidão” ou se torna “voto-confiança”, ou então irá migrar de dono. Talvez nesse movimento residam as bases sustentáveis para a construção de um pacto político consistente e duradouro envolvendo o cidadão e a res publica.

6. Parte considerável dessa “nova classe média” tenderá ao conservadorismo, por acreditar que existem limites à atual mobilidade social ascendente. Afinal, ganhos desse tipo não se mostram capazes de resistir a uma longa série histórica. A maioria das pessoas empregadas atualmente em postos no setor industrial ou de serviços deverá se aposentar em sua posição atual, dificilmente atingindo cargos de mando ou chegando no topo da hierarquia organizacional. E a percepção delas é que, se houver mudanças, essas deverão ser para pior. Isto é uma decorrência natural posto que, conforme as pessoas amadureçam, elas tendem a ser mais conservadoras – o que é chamado de “aversão ao risco”, ou de “potencial de votos conservadores”. Logo, nas próximas eleições, mais do que a promessa de novas alterações na ordem social, a maioria do eleitorado irá querer a consolidação das conquistas atingidas anteriormente.

7. Com os escândalos e o denuncismo jornalístico vigente, caberá aos futuros governos uma melhor escolha dos gestores de políticas públicas, objetivando-se buscar quadros que sejam melhor preparados, e que operem nos limites aceitáveis da lisura, da eficiência e da legalidade de seus atos. O cuidado com o funcionamento da engrenagem governamental deve ser permanente e habilidoso, e não meramente regido por critérios burocráticos ou de confiança. 

8. No entanto, o poder desestabilizador da grande mídia brasileira agoniza, posto haver tanto um distanciamento dos setores populares quanto dos militares – historicamente, estes últimos são forças desestabilizadoras em nossa história. Nesse sentido, o recrudescimento do denuncismo é apenas uma evidência desse fato. Porém, é preciso sempre lembrar que o mesmo leitor de jornais que recusa o exagero, acaba por aceitar o fato comprovado.

O artigo é deveras complexo, apesar de conciso. Resumi aqui os seus principais pontos com alguns comentários meus adicionais – e devo acrescentar que simpatizei com todos eles. Agora, eu gostaria de ouvir a opinião de vocês sobre essas questões. Será que podemos dizer que o saldo dessas eleições de amanhã – para além da vitória do candidato A, B ou C – é esse mesmo?

Com vocês, meus estimados leitores, a palavra… 
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