Arquivo

Archive for outubro \30\UTC 2010

BELTAINE – O INÍCIO DO VERÃO

Enquanto estão todos aqui no Brasil se divertindo e fantasiados de “vampiro” ou “bruxinha” a fim de comemorar o Halloween – “festinha” hoje comercial e  divertida, que recorda as origens pagãs de outro grande festival celta chamado Samhain -, é preciso tecer algumas considerações. Não quero aqui estragar a balada de ninguém mas, a bem da verdade, nós do Hemisfério Sul estamos inseridos em outro ciclo astronômico diferentemente dos povos que habitam o Hemisfério Norte. Estamos na Roda Sul, portanto celebremos os festivais de acordo com o ciclo no qual estamos inseridos

Precisamente nesse momento, os países do Hemisfério Norte estão entrando em sua estação fria do ano – daí o fato de comemorarem o Samhain. Por outro lado, nós, do Hemisfério Sul, estamos vivendo precisamente a chegada da estação quente. Daí, comemorarmos na virada do dia de hoje para amanhã o festival de Beltaine, posto que o verão já se insinua por essas bandas aqui do planeta…

Comemorado no Hemisfério Norte em maio, e no Hemisfério Sul em novembro, o Beltaine é um dos grandes festivais celtas – junto com o Samahain (1 de maio), o Imbolc (1 de agosto) e o Lughnasadh (1 de fevereiro). Vale lembrar que a Roda do Ano, representação do calendário celta a partir do calendário de Coligny, é baseado nos ciclos lunares e solares do ano.

Do ponto de vista astronômico, o Beltaine marca o ponto intermédio da passagem do sol pelo firmamento, estando localizado entre o Equinócio de Primavera e o Solstício de Verão. Entre os povos celtas, o Beltaine era marcado com o acendimento de várias fogueiras rituais em locais sagrados na Irlanda, na Escócia, na Cornualha, na Gália e no País de Gales. Na antiga religião pagã celta, o fogo era visto como elemento purificador e renovador, daí o hábito antigo dos camponeses passarem o gado por entre duas fogueiras a fim de protegê-lo durante a estação quente. Também era um festival onde se comemorava a fertilidade, daí a sexualidade estar muito aflorada nestes dias. Assim como no Samhain, no Beltaine os portais para o Outro Mundo estão mais próximos, sendo facilitada a comunicação dos homens com os Povos Antigo e Nobre. 

O festival de Beltaine é dedicado ao deus celta do Sol, Belenus – também chamado de “O Brilhante”. E é justamente a ele que peço, junto com o meu clã, que derrame suas bençãos sobre nós, a fim de nos guiar, proteger e indicar caminhos venturosos e prósperos durante essa metade solar e quente do ano que se inicia.

A fim de comemorar essa importante época do ano, abaixo transcrevo uma canção escrita pelo poeta-xamã Fionn mac Cuill, filho de Dagda e guerreiro Tuatha Dé Danann, que a compôs após comer um pedaço do Salmão da Sabedoria.

“Bela e perfeita estação;
Os melros cantam
Onde brilha o sol.

O valoroso cuco entoa
As boas-vindas ao nobre verão;
Findas estão as amaras tempestades
Que despem as árvores do bosque.

O verão deságua nos riachos;
Os lestos cavalos buscam por água;
A urze cresce frondosa:
E florescem as belas folhagens.

Em brotos o estrepeiro;
Suave flui o oceano – adormecido pelo verão;
E os botões de flores cobrem o mundo.

As abelhas, a despeito de seu tamanho,
Colhem nas flores –
Levando mel abundante em seus pés;
Enquanto o gado passa nas encostas.

Ouve-se a música dos bosques,
Uma melodia de perfeita paz;
A poeira é retirada da casa,
E a névoa das margens do lago.

As aves pousam aos montes sobre a terra
Onde uma mulher caminha, cantando;
Em cada campo, o som
Murmurante da água a correr.

A valentia dos cavaleiros,
Hostes se reúnem por toda a parte;
E as íris nas margens do lago
São iluminadas pelo sol.

O verdadeiro homem canta
Alegremente durante o dia brilhante,
Canta alto!
Ah, Bela Estação!” 
Anúncios
Categorias:Celtas, Eventos, Religião

SESSÃO DE CINEMA – "TROPA DE ELITE 2: O INIMIGO É OUTRO"

outubro 16, 2010 4 comentários
Escrevo o post dessa noite ainda sob o impacto de Tropa de Elite 2: O Inimigo é Outro (2010), a continuação da saga do anti-herói Capitão Nascimento – mais uma monstruosa interpretação desse excepcional ator chamado Wagner Moura – em sua luta contra o crime organizado na cidade do Rio de Janeiro, que é magistralmente dirigido por José Padilha.

Não que nada na película seja pura invencionice, efeito dramático ou novidade. Pelo contrário, Tropa de Elite 2 é o mais puro exemplar do que se convencionou chamar do “óbvio ululante” – expressão consagrada pelo escritor carioca Nelson Rodrigues. E é justamente aí, por “chover no molhado”, que reside a verdadeira potência do filme…

Tropa de Elite 2 choca, incomoda, atormenta, nos tira da zona de conforto. Nos faz, simultaneamente, rir, chorar, debochar, se deprimir e se divertir. Nos aliena e nos conscientiza. Nos tira do torpor nosso de cada dia, mas ao mesmo tempo nos faz mergulhar nas trevas do caos, da insensatez, da escuridão e da mais pura negatividade. O resumo da ópera, quando o espectador sai estupefato ao final do projeção, pode ser dado por uma única e simples expressão: “there’s no way out!”

Afinal, como o próprio diretor adverte no início do filme, “qualquer semelhança com a realidade é apenas coincidência. Essa é uma obra de ficção”. Vejam só como a ironia pode ser tão sutil e fina…

Não vou ficar aqui discutindo os meandros do filme, nem a densidade psicológica das personagens, muito menos destilando explicações psicosociológicas sobre a origem da violência no Rio de Janeiro. Para isso, aconselho fortemente os meus leitores a lerem a obra-prima da filósofa alemã Hannah Arendt, intulada “A Banalidade do Mal”. Os links são muitos, e inevitáveis…

Outra coisa: apesar de intimamente conectados, Tropa de Elite 2 é um filme bastante diferente do seu antecessor. Se no primeiro, os “caveiras” enchiam de porrada os “playboys maconheiros” da Zona Sul e “mandavam prá vala” os “buchas de canhão” do tráfico, no segundo a “parada” é muito mais “sinistra”: trata-se da substituição do poder, nas comunidades carentes cariocas, outrora nas mãos dos traficantes de droga, pelas milícias paramilitares repletas de policiais militares, bombeiros e outros “agentes da lei”, bem como suas funestas associações envolvendo a classe política. E, podem crer nisso, Tropa 2 é muito, mas muito melhor que o primeiro!!!! 

Para finalizar, visando criar expectativa nos meus leitores que porventura ainda não tenham visto o filme, uma observação: o enorme fascínio que o Capitão Nascimento exerce sobre as platéias brasileiras, independentemente de faixa etária, gênero e renda – aliás, como ponto curioso, na sessão de cinema de hoje haviam muitas crianças e adolescentes na sala. 

Seus bordões, suas frases de efeito, sua narrativa sussurante, entediada e melancólica, seu espírito alquebrado, tudo contribui para a popularidade da personagem – e que realmente rouba a cena de Tropa 2, apesar das interpretações excepcionais dos atores que vivem, respectivamente, o policial chefe da milícia e o político midiático e espertalhão que posa de “linha dura” na TV, mas é um tremendo “picareta” nos corredores do poder. 

O Capitão Nascimento fascina por ser a mais pura representação do nosso anti-herói trágico, que sofre e fica à deriva por ser refém de um destino que ele acreditava piamente ter controle. Nesse sentido, o parentesco com as personagens das tragédias gregas de Sófocles é assaz evidente. Nascimento navega sem rumo, a ermo, sem saber que o seu destino é traçado sem a sua ingerência – o que ele, pela falta de uma palavra melhor, nomeia com o vago substantivo de “O Sistema”. Nascimento sofre e faz sofrer, mata e é morto, perde o controle da sua vida profissional, pessoal e afetiva – restando-lhe apenas beber um copo de água retirado de sua geladeira, na penumbra de sua solidão e ataraxia, visando “esfriar a cebeça” e esquecer momentaneamente a realidae tétrica e lúgubre que o cerca…

Nascimento encanta por ser a projeção do nosso inconsciente, por colocar para fora todos os nossos anseios destrutivos e pensamentos mais profundos que possuímos sobre o nosso país e os nossos compatriotas. É um mundo onde a “lei de Gérson” impera, e o mais importante “é cair prá cima, certo parceiro?”. Por isso, o filme nos causa sentimentos tão contraditórios, justo por ser a expressão da identidade profunda do brasileiro, das suas marcações identitárias, da complexidade da nossa psiquê, do nosso inconsciente coletivo. Em minha humilde opinião, o filme é uma aula sobre o que é “ser brasileiro”, com todas as suas virtudes, vícios e contradições. Afinal, não somos nós que somos conhecidos no mundo inteiro por justamente “padecermos no paraíso”?

Conclamo a todos os meus leitores que vejam o filme, e comentem aqui as suas impressões. Trata-se de um filme obrigatório para todos aqueles que desejam entender a história política e social recente do nosso país. E, não é sempre temos a nossa disposição uma crônica tão verossímil e atualizada quanto essa, e que descreve em minúcias tudo aquilo que tragicamente acontece em frente aos nossos olhos…

… O “óbvio ululante”, como diria Nélson Rodrigues… Ou, melhor: seria o “Unheimlich”, aquele “Estranho” que foi tão bem descrito por Freud, e que nos assedia, incomoda e constrange todas as vezes que o inconsciente teima em romper a barreira do recalcamento?

A CARTA DE STEVE JOBS A UMA JOVEM UNIVERSITÁRIA

Dificilmente reproduzo uma matéria inteira aqui no PRAGMA, por achar que é muita falta de inspiração minha – além de aborrecer os que porventura venham a ler esse blog. No entanto, peço a gentil permissão dos meus queridos leitores para excepcionalmente hoje tomar a liberdade de reproduzir o texto quase integral de uma coluna. 


O texto em tela é da jornalista Lucy Kellaway, do renomado periódico britânico de negócios Financial Times, cuja coluna é republicada todas as segundas-feiras no caderno “Eu & Investimentos” do jornal Valor Econômico. Nessa matéria, publicada na edição de 4 de outubro passada, Kellaway relata uma troca de e-mails entre Chelsea Isaacs, uma aluna da Long Island University, e o CEO da Apple Steve Jobs. A fim de não cansá-los, vou editar a matéria de forma a reproduzir aqui apenas os pontos mais importantes:

“Chelsea Isaacs havia entrado em contato com a assessoria de imprensa da Apple para obter algumas informações sobre o iPad para um trabalho que estava fazendo. Ela tentou seis vezes, mas não obteve resposta. Então, enviou um e-mail para o executivo-chefe da companhia para reclamar: ‘Senhor Jobs, gostaria humildemente de saber por que a Apple, que é tão atenciosa com as necessidades dos estudantes, seja a sua mais nova e maior invenção, seja na prestativa linha de serviço aos clientes, tem um departamento de comunicação que ironicamente não responde a nenhuma das minhas perguntas que, como já disse repetidas vezes, são essenciais ao meu desempenho acadêmico’.

Jobs respondeu: ‘Nossos objetivos não incluem ajudar você a conseguir uma boa nota. Sinto muito’. Chelsea escreveu uma outra mensagem, longa, afirmando que a Apple deveria ter respondido mesmo que por cortesia.

Desta vez ele escreveu: ‘Negativo. Temos mais de 300 milhões de usuários e não podemos responder a todos os pedidos, a menos que eles envolvam algum tipo de problema. Sinto muito”. Então, ela observou que era um cliente e tinha um problema. Ele respondeu: ‘por favor, não nos incomode’.

Vários leitores que odeiam a Apple me enviaram a troca de correspondência, convidando-me a engolir meus elogios à companhia. Mas não vou engolí-los. Vou cuspir mais alguns. Steve Jobs pode ser uma figura um pouco antipática, assustadora e arrogante. Mas se essas mensagens forem dele, eu o cumprimento pela objetividade, irritabilidade e ter razão.

Chelsea também merece elogios. A primeira lição diz respeito à brevidade. Sua mensagem inicial tinha 473 palavras. A dele tinha 12. As palavras de Jobs foram curtas, grossas e fáceis de serem entendidas. As dela, menos. Mesmo na sentença do começo do texto, ela comete três erros elementares. Ela usa a palavra ‘humilde’quando não está sendo. Ela se refere a ironia, quando não há nenhuma. E sarcasmo é sempre um erro em um e-mail, especialmente se você está tentando chegar a algum lugar.

A lição seguinte é que não tem problema para um CEO ser grosso com um cliente. O cliente nem sempre precisa ser o rei, especialmente quando está se comportando como um pirralho mimado e maçante. Além disso, nesse caso em particular, a irritação de Jobs era de interesse público. Ele estava deixando claro, embora de uma maneira heterodoxa, quais são as prioridades da Apple. Se eu fosse acionista da empresa, ficaria tranquila em saber que ajudar Chelsea não está entre elas.

Essa idéia precisa ser trasmitida com dureza, prqque os estudantes modernos simplesmente não entendem. Frequentemente recebo e-mails deles dizendo: ‘estou fazendo um trbalho sobre marketing. Você poderia, por favor, me enviar tudo o que escreveu sobre o assunto?’. Da próxima vez vou dizer: ‘Não, não posso. Não é o meu trabalho fazer isso’.

Quando Jobs era estudante, se precisasse de ajuda, ouso dizer que ele faria o que todos fazíamos então: pedir a um professor ou tentar resolver o problema por conta própria. Mas a geração de Chelsea vem sendo ludibriada pelo movimento da autoestima, que a faz acreditar que seu desenvolvimento é uma questão de interesse geral, e também ludibriada mais um pouco pela internet, que ensinou que o mundo é democrático e que se pode ter tudo na hora.

Infelizmente, essas crenças estão tão enraizadas que as mensagens contundentes de Jobs não impressionaram ninguém: na semana passada, Chelsea, ainda indignada, esperava que o ocupado presidente de uma das mais extraordinárias empresas do mundo lhe pedisse desculpas. ‘Não tenho nada contra ele”, dizia ela magnânima. ‘Espero que ele me ligue’.

Acho que ela terá de esperar uma eternidade por essa ligação e, enquanto isso, vai crescer, conseguir um emprego, descobrir que a vida profissional não é uma democracia, que existe hierarquia e que ter um pouco de humildade é uma boa maneira de se começar”.

E aí, gostaram? Queria ouvir um pouco a opinião dos meus criteriosos leitores a respeito dessa fábula do mundo corporativo. Especialmente quando a história envolve um cara tão polêmico quanto genial que é o caso de Jobs…

OS JOVENS BRASILEIROS, ACESSO À INTERNET E REDES SOCIAIS

Foi divulgada essa semana uma pesquisa sobre o acesso à internet das crianças brasileiras entre 5 a 9 anos de idade, realizada pelo Núcleo de Informação e Comunicação do Ponto BR (NIC.br), órgão diretamente ligado ao CGI.br (Comitê Gestor da Internet no Brasil).

Alguns dados bastante interessantes foram levantados por essa pesquisa. Por exemplo: 57% das nossas crianças entre 5 e 9 anos informaram já ter utilizado o computador – sendo que na cidade esse percentual chegou ao patamar de 60%, em detrimento da zona rural onde o indicador chegou a 46%. No entanto, quando o assunto é acesso à internet, os números são bem inferiores. Vejam só…

A média de crianças dessa faixa etária que afirmaram já ter se conectado à internet foi de apenas de 23% (25% nas cidades, e 16% na zona rural). Como fatores de restrição ao acesso à internet, foram citados o alto preço da conexão e as barreiras impostas pelo acesso à rede nas escolas.

Do total dessas crianças, 49% declararam ter acesso à web via residência, 35% via casa de outra pessoa, 27% via escola, 25% em outro lugar e 1% via celular.

Estando conectadas, 97% das crianças entre 5 e 9 anos afirmam utilizar jogos, 56% brincam em sites de personagens de desenhos animados, 46% usam a web para fazer pesquisas, 31% conversam com amigos e parentes, 19% trocam e-mails e 5% fazem conexões do tipo Voip (p.ex., Skype).   

Esses números contrastam com as crianças situadas em faixas etárias posteriores, mais especificamente entre 10 a 15 anos, onde 69% dos jovens afirmam estar conectados à internet. Já os internautas brasileiros acima de 15 anos gastam quase 20% do seu tempo conectados em redes sociais, sendo que o site mais popular no Brasil ainda é o Orkut – com 29,4 milhões de acessos, um crescimento de cerca de 30% em comparação à agosto de 2009.  O resultado é igual a soma dos seus três concorrentes mais importantes: o Windows Live, o Facebook e o Twitter.

Entretanto, o fato a ser destacado por essa pesquisa é o crescimento do Facebook e do Twitter, sendo que este último obteve um crescimento de 86% (isto é, 8,6 milhões de visitas no mês de agosto desse ano). Dessa forma, o Brasil lidera o ranking de penetração do Twitter entre os internautas, com 23% dos brasileiros tendo acessado o microblog.

Já o Facebook apresentou um crescimento também bastante significativo – cerca de 479% em um ano, ou seja, 8,8 milhões de visitas mensais em agosto de 2010.

SAM DUNN: UM ANTROPÓLOGO A SERVIÇO DO HEAVY METAL

É difícil explicar a complexidade de sentimentos quando um headbanger escuta suas bandas favoritas. Riffs mortais de guitarra, baterias trovejantes, baixos vindos das profundezas da alma e vocais arrebatadores – sejam estes os mais agudos ou os mais guturais possíveis – convidam quase que instintivamente um metalhead a literalmente “bater a cabeça”. Pelo menos, tem sido assim comigo nos últimos 25 anos – isto é, desde que eu me entendo como gente…

Desde minha adolescência, o som pesado “caiu como uma luva” para um garoto que sentia – e ainda sente, mesmo já adulto – um profundo senso de inadaptação a esse mundo. Afinal, nunca fui o tipo popular entre a “galera” da escola: era CDF, usava (e ainda uso) um óculos “fundo de garrafa”, e nunca fiz o tipo atlético – praticava mal esportes, e não tinha um corpo propriamente adequado aos padrões estéticos atuais e de outrora. Resultado: me tornei um cara com um profundo sentimento agressivo armazenado, fruto de uma visão distópica, melancólica e amargurada de tudo e de todas as pessoas que me cercavam… 

Felizmente, logo na adolescência descobri que eu não estava só – tinha um monte de moleques parecidos comigo que, como eu, compartilhavam um amor profundo por uma música difícil, pesada, barulhenta e sombria, justamente por tocar nos recantos mais obscuros da alma. Logo, me apaixonei pelo heavy metal, tornando-me um fanático colecionador de fitas cassetes das bandas – é meus amigos, naquela época não existia ainda o CD!

Como não poderia deixar de ser, ainda por cima deixei o meu cabelo crescer (triste lembrança da época em que eu ainda o possuía!), andava pela escola com camisas pretas das bandas mais obscuras e extremas, vestindo jeans rasgados, headphones no volume máximo e, como qualquer headbanger que se preza, dedilhava air guitars pelos quatro cantos. Ato contínuo, formei uma banda de garagem, toquei em alguns shows, fui a inúmeros outros e tornei-me mais apaziguado justamente por ter encontrado a minha “tribo”. O resto é história que se desenrola até hoje…

Literalmente, foi o heavy metal que me ajudou a superar esses momentos difíceis em minha vida, onde os sentimentos obscuros e depressivos costumam tomar conta das almas mais atormentadas. O fato de ter descoberto a minha própria “galera” foi terapêutico, ajudou a aumentar a minha auto-estima e tornou-se o meu combustível existencial de cada dia. Até hoje, todos os dias em que saio para trabalhar, ou até mesmo em um simples passeio pela rua, lá estou eu com os meus indefectíveis headphones, nutrindo a minha alma com minha dieta diária de Black Sabbath, Deep Purple, Van Halen, Slayer, Tool, Nine Inch Nails, Rammstein, dentre inúmeros outros que cabem no meu propositalmente black iPod

Confesso que sempre vi a polêmica que cerca o heavy metal como uma simples falta de compreensão da complexidade que cerca esse fenômeno cultural que, a despeito de seu caráter inevitavelmente unhip, continua atraindo uma legião de fãs devotados e de todas as idades no mundo todo. Como em qualquer relação com a alteridade, os mais desavisados selecionam pontualmente os seus aspectos mais controversos – o sexismo machista, a iconoclastia anti-religiosa, o satanismo e as manifestações ritualizadas de virilidade e de agressividade  – e destacam-nas, como se fossem os elementos centrais ao movimento. 

Nunca o princípio gestaltista foi tão válido como nessa situação: “o todo é MAIOR do que a soma das partes”. Literalmente…

Para mim, isso é fruto de truísmos simplórios tais como julgar o livro pela capa, ou então riscar a superfície de uma manifestação cultural tão complexa. Além disso, o som pesado é difundido globalmente a ponto de atravessar a vida de milhões de jovens de todas as regiões, países, etnias e crenças. Paralelamente a esse ponto, sempre achei que faltava um olhar definitivo sobre a cultura heavy metal, e creditava a isso uma certa falta de distanciamento histórico que é necessária a fim de diminuir as paixões que temas extremos geralmente despertam nas pessoas…

Para a minha surpresa, nos últimos anos têm surgido um série de livros e documentários que procuram analisar esse movimento de maneira mais profunda, tanto em termos históricos quanto em sua complexidade cultural. Dentre esse movimento, destaca-se a figura do jovem antropólogo, documentarista e metalhead canadense Sam Dunn. Junto com seu parceiro Scott McFayden, eles criaram a Banger Films – uma produtora dedicada a realizar filmes que visam analisar o movimento pesado. Resolvi ver algumas de suas películas nesse final de semana, e confesso que saí de “alma lavada e enxaguada” – como diria o folclórico Odorico Paraguassu…

O primeiro filme de Dunn, intitulado Metal: a Headbanger`s Journey (de 2005), pretende lançar um olhar antropológico sobre o movimento, a partir da perspectiva do próprio cineasta que, numa abordagem participante, procura entender a história, suas principais características e nuances que cercam a cultura do heavy metal. Utilizando uma linguagem ágil (primorosa e profundamente apropriada), combinando o didatismo de um historiador com o entusiasmo de um fã devotado, Dunn vai aos festivais, conversa com os “dinossauros” (Tony Iommi, Ronnie James Dio, Lemmy), as bandas mais recentes (Slipknot, Lamb Of God) e até mesmo com os fãs mais comuns – e que geraram os materiais mais interessantes do filme. Impossível não se identificar! O resultado é particularmente tocante para aqueles que, como esse Escriba que vos fala, estão envolvidos emocionalmente com o som pesado até as entranhas da alma. Até mesmo temas controversos como o black metal norueguês e sua cruzada anti-cristã são abordados pelo cineasta.

O segundo filme, Global Metal (de 2008), procura mostrar a difusão do movimento para além da Europa Ocidental e dos Estados Unidos, berços históricos do heavy metal. O antropólogo nos leva a lugares onde nunca se imaginaria que o som pesado pudesse prosperar – tais como o death metal indonésio, o metal oriental israelense, o black metal chinês, o thrash metal iraniano além, é claro, das bandas “brazucas” (com destaque para o Sepultura, de longe o nome mais importante do metal nacional por ter sido a primeira banda brasileira a granjear respeito e sucesso comercial lá fora). O filme é uma mostra da vitalidade do movimento, mostrando que existe uma legião de fãs worldwide que produz, consome e ressignifica os símbolos dessa cultura independentemente do fato de ser um movimento intrinsecamente outsider.

Deixando de lado o caráter didático, Dunn e McFayden deixaram aflorar as emoções nas películas posteriores, sobre dois grandes ícones do movimento. Em 2009, lançaram Iron Maiden: Flight 666, onde cobriram o dia-a-dia da turnê mundial de 2008 desse que é considerado um dos grupos mais representativos do som pesado – para muitos fãs, o Iron Maiden É o heavy metal.

Nesse ano de 2010, lançaram o belíssimo documentário Rush: Beyond The Lighted Stage, que conta a história da banda canadense de maior sucesso até os dias de hoje. Em comum com o Iron Maiden, a legião fanática de fãs que o power trio canadense possui. Além do mais, para qualquer fã do som pesado o Rush é a personificação da genialidade, da criatividade e do virtuosismo – todos os seus integrantes são músicos “monstruosos”!. Todo garoto que aspira a ser um músico de metal sabe o que é passar horas decorando os riffs, as quebradas de ritmos e os tempos de obras-primas como YYZ, Tom Sawyer, La Villa Strangiatto, 2112, dentre outras várias…

Sam Dunn faz tributos emocionados e profundos sobre um movimento cultural e musical tão rico quanto controverso. Assistir aos seus filmes foi como voltar a ampulheta do tempo, um verdadeiro reencontro com a minha história e com aquele garoto de 25 anos atrás que, apesar de mais gordinho e sem tanto cabelo nos dias de hoje, continua a ser o mesmo a sair por aí com os seus fones de ouvido no volume máximo, a dedilhar air guitars e tocar baterias imaginárias enquanto busca sentido nesse mundo estranho em que vivemos…

Aliás, para terminar: eu vou ao show do Rush nesse domingo na Praça da Apoteose. Alguém se habilita?    

O SALDO DESSAS ELEIÇÕES

Acabei de ler um artigo interessantíssimo do respeitado cientista político brasileiro Wanderley Guilherme dos Santos – um dos maiores do país, em minha opinião, e autor de livros precisos a respeito da sociedade brasileira – publicado na edição de quinta-feira do periódico Valor Econômico. Além de denso, o autor levanta uma série de questões que considero importantes sobre o resultado – não eleitoral, bem entendido – das eleições majoritárias deste domingo para o cenário político futuro em nosso país.

Não tenho o objetivo aqui de tecer maiores comentários, posto que o autor os expressa numa prosa elegante e sofisticada. Gostaria apenas de elencá-las abaixo, na tentativa de fomentar o debate com e entre os meus caros e argutos leitores. São eles:

1. A ocorrência de dois óbitos: o da eficácia eleitoral da política de redistribuição de renda no país, e o do efeito desestabilizador da grande mídia.

2. Os avassaladores ganhos de renda das classes econômicas menos favorecidas nos últimos anos, somado à ascensão do consumo frenético de bens e serviços, tornou um outrora “encabrestado” eleitorado de mais de 136 milhões de brasileiros cada vez mais insubmisso, tanto ao poder das elites leninistas quando ao controle dos coronéis locais. Talvez esse seja um dos saldos mais importantes para o futuro do processo político no país.

3. A redução dramática do poder das elites oligárquicas e hereditárias do nosso país ocorre a olhos vistos – leia-se o futuro raquítico do DEM, por exemplo – e o surgimento de uma “nova classe média” de consumidores do tamanho do Japão (aproximadamente 80 milhões de pessoas), não deixa muita margem de manobra para a sobrevivência dessa elite política cada vez mais desidratada. Resta-lhes, apenas, negociar com essa nova classe média, apesar de todo o ressentimento oriundo de ambos os lados que contaminará o cenário no curto prazo.

4. Grande parte das políticas sociais implementadas nos últimos anos visando atingir a população de baixa renda dispensa quaisquer tipos de intermediários – leia-se, coronéis, políticos, padrinhos e até mesmo autoridades religiosas. Consequentemente, a percepção dos favorecidos por essas políticas tende a deixar a esfera da “gratidão”, adentrando ao espectro de “obrigações mínimas” do estado. Como decorrência disto, qualquer político que queira sustentar seus ganhos políticos a partir da franquia a essas políticas sociais tende a erodir o seu capital político – logo suas chances eleitorais – a médio prazo.

5. Logo, a relação entre eleitor, político e Estado tende a sair do plano da subserviência e adentrar ao plano da obrigação do aparato estatal e dos formuladores das políticas públicas. Em decorrência disso, o “voto-gratidão” ou se torna “voto-confiança”, ou então irá migrar de dono. Talvez nesse movimento residam as bases sustentáveis para a construção de um pacto político consistente e duradouro envolvendo o cidadão e a res publica.

6. Parte considerável dessa “nova classe média” tenderá ao conservadorismo, por acreditar que existem limites à atual mobilidade social ascendente. Afinal, ganhos desse tipo não se mostram capazes de resistir a uma longa série histórica. A maioria das pessoas empregadas atualmente em postos no setor industrial ou de serviços deverá se aposentar em sua posição atual, dificilmente atingindo cargos de mando ou chegando no topo da hierarquia organizacional. E a percepção delas é que, se houver mudanças, essas deverão ser para pior. Isto é uma decorrência natural posto que, conforme as pessoas amadureçam, elas tendem a ser mais conservadoras – o que é chamado de “aversão ao risco”, ou de “potencial de votos conservadores”. Logo, nas próximas eleições, mais do que a promessa de novas alterações na ordem social, a maioria do eleitorado irá querer a consolidação das conquistas atingidas anteriormente.

7. Com os escândalos e o denuncismo jornalístico vigente, caberá aos futuros governos uma melhor escolha dos gestores de políticas públicas, objetivando-se buscar quadros que sejam melhor preparados, e que operem nos limites aceitáveis da lisura, da eficiência e da legalidade de seus atos. O cuidado com o funcionamento da engrenagem governamental deve ser permanente e habilidoso, e não meramente regido por critérios burocráticos ou de confiança. 

8. No entanto, o poder desestabilizador da grande mídia brasileira agoniza, posto haver tanto um distanciamento dos setores populares quanto dos militares – historicamente, estes últimos são forças desestabilizadoras em nossa história. Nesse sentido, o recrudescimento do denuncismo é apenas uma evidência desse fato. Porém, é preciso sempre lembrar que o mesmo leitor de jornais que recusa o exagero, acaba por aceitar o fato comprovado.

O artigo é deveras complexo, apesar de conciso. Resumi aqui os seus principais pontos com alguns comentários meus adicionais – e devo acrescentar que simpatizei com todos eles. Agora, eu gostaria de ouvir a opinião de vocês sobre essas questões. Será que podemos dizer que o saldo dessas eleições de amanhã – para além da vitória do candidato A, B ou C – é esse mesmo?

Com vocês, meus estimados leitores, a palavra… 

DE BOBO, OS CANDIDATOS NÃO TÊM NADA…

Até na hora de investir os seus recursos pessoais, os políticos não são bobos. Eles até podem ser conservadores e apresentarem uma alta aversão ao risco – como qualquer cidadão médio -, mas quando o assunto é dinheiro eles não rasgam dinheiro nem tomam sorvete pela testa. Pelo menos é o que fica evidente a partir de uma matéria publicada na edição dessa sexta-feira do periódico Valor Econômico.

Baseada na declaração de bens apresentada à Justiça Eleitoral, o jornal discute o perfil de investimento dos quatro principais candidatos à corrida presidencial de amanhã. E, o mais interessante de tudo, é que o candidato menos afeito às delícias do capitalismo financeiro é o que ironicamente está melhor posicionado quando o assunto é aproveitar os retornos de rentabilidade elevada que ele proporciona…

O candidato Plínio de Arruda Sampaio, do mega-esquerdista PSOL, é o mais arrojado dentre os concorrentes, e é o que mais diversifica os seus investimentos. A despeito de sua loquacidade verbal e de sua verve que beira o histrionismo, o “velhinho” deixa a fanfarronice de lado quando o assunto é cuidar do seu cofrinho. Seu patrimônio total é de 2,089 milhões de reais (sem contar carros e dinheiro em conta corrente), dentre os quais ele aplica 1,7 milhão em fundos multimercados sofisticados – divididos entre uma gestora de recursos independente, um banco brasileiro privado e um banco suíço. 

Como se isso não bastasse, o candidato do PSOL ainda tem uma conta em um banco americano, onde estão depositados aproximadamente 45,9 mil reais. Bastante interessante…

Já a candidata governista Dilma Rousseff encontra-se do lado oposto ao de Plínio: ela pode ser boa de voto, mas muito “ruinzinha” quando o assunto é investimentos! Segundo a matéria, a candidata “deixa” 113 mil reais (cerca de 12,5% do seu patrimônio total) imobilizado, sem aproveitar as elevadas remunerações  do mercado financeiro nacional – uma das maiores do mundo, diga-se de passagem.

O negócio da petista é investir em imóveis – basta ver que estes compõem cerca de 80% do seu patrimônio total -, o que denota um perfil extremamente conservador. A fatia deste destinada a aplicações financeiras é bem reduzida, estando localizada em produtos de perfil de baixo risco.

O candidato tucano José Serra encontra-se a meio caminho do arrojo de Plínio e do conservadorismo de Dilma – pelos deuses, como isso é irônico!!! Como a petista, Serra também gosta de imóveis e de fundos de renda fixa. A pitada de risco está na aplicação em um fundo multimercado. Outro dado interessante é que o tucano é o único dos quatro candidatos a possuir um plano de previdência privada.

Já a candidata desse Escriba que vos fala, a verde Marina Silva, é a mais “pobrezinha” da galera – dentre os concorrente, é a única a possuir um patrimônio inferior a 1 milhão de reais. Além disso, é também a única dos candidatos a não possuir recursos alocados em aplicações financeiras – além de imóveis, a candidata do PV também prefere deixar uma parte dos seus recursos “parados” em conta corrente.

Agora, imaginem se nós utilizássemos o patrimônio e portfólio de investimentos dos candidatos como base para compreender o seu posicionamento político?
Categorias:Brasil, Eleições, Política