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SESSÃO DE CINEMA – "O SEGREDO DE KELLS"

Vivemos em um mundo hiperealista, onde a crueza, a violência e o caos do cotidiano deixam pouco espaço para o lírico, o poético e o onírico. É nesse mundo onde o peso do real é deveras espesso e opressor, que nós esquecemos a existência humana não é feita apenas de dor, de sangue e de sofrimento. E, não raro, é na passagem para a vida adulta que tais sentimentos negativos emergem com força irresistível, deixando apenas pálidas e vagas as lembranças do tempo em que olhávamos ao nosso redor com mais magia, tolerância, poesia e mistério…


É por isso que os contos de fada, as fábulas e as histórias mitológicas evocam o que há de mais arcaico, ancestral, infantil e inconsciente dentro de nós. Quem nunca se pegou imaginando ter um martelo mágico como o de Tor, os poderes mágicos de um Cu Cucchulainn, a tenacidade dos Cavaleiros da Távola Redonda, a honra e a pureza de um Parsifal, o tirocínio de Merlin ou os poderes xamânicos de Odin?

Acrescente-se a isso as intrincadas narrativas de J.R.R. Tolkien, as Crônicas de Nárnia ou do Príncipe da Pérsia. Tudo isso sem falar nas histórias em quadrinhos, que hoje ocupam o lugar dos contos de fada e das narrativas orais das fábulas e dos mitos em tempos passados.

Foram todas essas impressões que a animação “O Segredo de Kells” (The Secret of Kells, 2009) conseguiu evocar em mim. Confesso que não sou muito fã de animações, mas o tema do filme – uma mescla de história irlandesa medieval e mitologia celta – despertou a minha atenção. E tive, durante a sua audiência, uma agradabilíssima e emocionante experiência…

Criada pelo diretor de animação irlandês Tomm Moore, “O Segredo de Kells” concorreu ao Oscar de Animação de 2010, sendo considerado um verdadeiro azarão! – haja visto a tecnologia de animação em 2D utilizada na película, um tanto ultrapassada dado os Shreks, Madagascares e Procurando Nemos da vida… 


Em verdade, isso é o que menos importa quando somos convidados a mergulhar na história do menino-noviço Brendan durante os primórdios do cristianismo irlandês, onde as práticas druídicas e o paganismo celta conviviam com as invasões nórdicas dos Vikings – alíás, tema corrente nas histórias da Irlanda, vide o famoso “The Book Of Invasions”

O roteiro entrelaça o sentimento de isolamento e estranhamento em um mundo de rápidas transformações, onde as crenças pagãs ancestrais (representadas pela floresta misteriosa que cerca o povoado) são infrutiferamente recalcadas para longe dos olhares dos habitantes do monastério, que vivem o sobressalto de ter o seu povoado destruído pelas hordas de invasores do Norte que, durante os séculos IV-V d.C., fustigavam as terras irlandesas. Impossível não ser tomado pelo senso de precariedade e instabilidade dos homens daquela época,e que apenas reforçavam o culto aos ancestrais e as divindades celtas.


Curiosamente, são justamente os temidos seres da floresta – bem entendido, os representantes da tradição antiga – que “salvam” os habitantes da pequena localidade. Além disso, a floresta é o local onde se localizam os dos frutos que dão origem a tinta mágica que permite aos artistas cristãos criarem ricas e exuberantes ilustrações que adornam o livro sagrado – o “Book of Kells”, inspiração da película, é composto por 4 evangelhos e foi escrito por monges latinos por volta do século IX d.C., sendo considerado uma das maiores relíquias da Irlanda -, permitindo que todos esses acontecimentos – fantasiosos ou não – chegassem até o nosso conhecimento nos dias de hoje.

Além das personagem receberem nome oriundos das tradições celtas – como, por exemplo, Brendan e Aidan -, outras fazem referência às tradições históricas, mitológicas e literárias do país do trevo: por exemplo, a fada Aisling (que pode ser tanto o vocábulo irlandês para “visão” ou “sonho”, como também um ser feérico segundo os Tuatha De Danann); o gato Pangun Bán (que é título de um poema irlandês do século VIII d.C.); o ancestral deus pré-cristão Crom Cruach (cujo culto, antiquíssimo, reputa-se o uso de sacrifícios humanos, e que foi extinto por São Patrício), divindade essa que era uma dos mais populares da Irlanda celta até a chegada do cristianismo.

“O Segredo de Kells” é um filme belíssimo, cheio de lirismo, poesia e metáforas que os estudiosos e conhecedores da mitologia celta irão perceber logo de cara. Apesar de ser filmado em 2D, as imagens são exuberantes e coloridíssimas, tendo destaque as belas reproduções das iluminuras medievais irlandesas – base para a arte cristã célta e hibérnica-saxônica -, além dos triskelions que são exibidos à exaustão – tanto literais quanto sugeridos – e a exuberância da floresta que embala o passeio de Brendan e Aisling na busca do material para a tinta verde mágica. 


Por ser uma explosão de cores que inebria a alma e aquece o coração, a película nos lembra que ainda é possível vivenciarmos experiências estéticas que nos levem ao estado de êxtase e de felicidade!

A trilha sonora, assinada pelo compositor francês Bruno Coulais, mescla a modernidade dos ritmos eletrônicos com a tradição dos cânticos religiosos cristãos e a beleza da música celta. Além disso, a banda folk irlandesa Kila contribui com duas canções (Epicy e Cardinal Knowledge). A minha canção favorita é a de Aisling, talvez uma das músicas que talvez mais se aproxima do que é um encontro com um ser feérico guardião da floresta que é a simpática e misteriosa fada-lobo.

Uma última observação. Caso os meus queridos leitores tenham a experiência de assistir a animação, não deixem de vem a cena entre a fada Aisling e o gato Pangun Bán! É uma das coisas mais lindas que assisti em toda a minha vida, dado o lirismo e a magia que giram em torno de um ser que convive entre os dois mundos – o real e o feérico. 


“O Segredo de Kells” é tão estrondosamente belo, que torna-se impossível não se comover com a trama. Comover-se, bem entendido, não de tristeza, mas sim de felicidade por se estar diante de uma obra de arte singular e bastante delicada.

Dizem que os deuses habitam nos detalhes. E, tal como uma iluminura medieval, “O Segredo de Kells” resgata o sentimento de que, em comunhão com a natureza e o sagrado, o homem não apenas pode reviver a sua essência mágica como pode experimentar o ápice que um projeto existencial pode ter: o de tornar a própria vida uma verdadeira obra de arte…
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  1. setembro 5, 2010 às 4:20 pm

    Muito obrigada pela dica e por suas palavras….lhe digo que tive esta mesma sensação ao ver Avatar este ano, n ão pelo enredo simplesmente, mas pelo aspecto lírico e pelas imagens que tb me levaram ao êxtase…..beijo grandeAna Claudia Mkt28BH

  2. setembro 6, 2010 às 8:17 pm

    Oi Ana, tudo bom?Obrigado pela visita pelo comentário. Avatar também é lindo, mas o "Segredo de Kells" me tocou mais profundamente. Acabei de revê-lo, e me emocionou mais uma vez.Um beijo grande!

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