Arquivo

Archive for agosto \25\UTC 2010

MAIS UM SONHO DE CONSUMO…

Para quem acompanha mais amiúde esse Escriba que vos fala, sabe da preferência que tenho por sabores, cores e gostos. Apesar do teor um tanto pedante da palavra, considero-me um gourmet: gosto de comer bem, de beber melhor e, ainda, com uma companhia extremamente agradável e encantadora – o que, tenho de admitir, é um artigo extremamente escasso no mercado atual…

Especialmente, gosto de bebidas dos mais variados tipos. As minhas prediletas são, pela ordem: vinho, uísque e cerveja (no caso dos alcóolicos); café (disparado!), e chá (no caso de não alcóolicos). 

Bem entendido, não sou um bebedor contumaz, mas sim um apreciador do bouquet, do sabor, do corpo e do prazer auferido pela degustação do líquido. Gosto de relaxar ao final de um dia pesado de trabalho com uma taça de vinho, um copo de cerveja (especialmente red ale, bock ou do tipo abadia) e uma dose de uísque. A escolha, varia do meu estado de humor e de espírito: para mim, uma cerveja sempre para descontrair; um uísque sempre para diminuir a tensão… e um vinho (ou espumante) sempre (!!!), em qualquer ocasião – na alegria ou na tristeza, na vitória ou no revés…

Já o meu caso com o café é seríssimo. Não vivo sem uma fumegante dose dessa empolgante e estimulante rubiácea. Ao longo do meu dia, sempre há espaço para um bom espresso – puro, sem açúcar, um ristretto, um arpeggio ou um roma, desde que bem “tirado”, cremoso e com uma espuma consistente. Com ele subo ao infinito e, parodiando Jimmy Hendrix, eu “beijo o céu”… 

No entanto, tal fidelidade não me impede de “pular a cerca” em certas ocasiões, e degustar outras bebidas. Nesse caso, venho me aventurando no terreno dos chás por pura curiosidade – e deleite também, tenho de confessar! Não conheço tanto essa bebida que é identificada com o Império Britânico, mas pretendo dentro em breve começar a dar os meus palpites aqui no PRAGMA sobre essa outra bebidas dos deuses, que é rica em sabores, cores e extremamente complexa.

Fiquei ainda mais tentado quando vi a notícia de que a Nestlé, gigante suíça de bebidas e alimentos, resolveu entrar nesse mercado com um sistema de máquinas de chás intitulado Special T. A estratégia adotada é a mesma da bem sucedida experiência da Nespresso, um sistema de comercialização de máquinas, cápsulas e acessórios de cafés espressos fumegantes, cremosos e deliciosos. Todos que me acompanham já há algum tempo sabem que tenho em meu escritório uma “maquininha” maravilhosa dessas, e só de saber que a empresa resolveu ingressar no segmento de cápsulas de chá me deixou com água na boca…

A divisão Special T utiliza o mesmo sistema consagrado pela Nespresso, a saber: cápsulas de alumínio seladas (em tempo, uma invenção da italiana Illy, concorrente da multinacional suíça) que contém folhas de chás, preparadas em máquinas especiais que reconhecem os diferentes tipos de blends desenvolvidos pela empresa. O tempo de preparo e a temperatura da água são regulados de acordo com cada tipo de cápsula, que é reconhecida automaticamente pelo sistema da máquina.

Inicialmente, serão comercializados 25 tipos diferentes de blends – que abrangem desde as variedades verde, preta, vermelha, azul e brancas, passando pelos chás aromatizados até chegar nos tipos orgânicos. Os chás serão provenientes de áreas de cultivos selecionados da China, Japão, Sri lanka, Índia e África do Sul.

O Special T será comercializado a partir de setembro desse ano na França, e a Nestlé pretende ampliar a iniciativa para outros mercados do continente europeu. Vale lembrar que o mercado europeu da bebida cresceu cerca de 3,5% na última década, e atualmente movimenta aproximandamente 12,8 bilhões de euros por ano.

Os preços – bastante europeus, diga-se de passagem! – são equivalentes aos observados no sistema Nespresso. As máquinas irão custar 129 euros, e um blister com dez cápsulas custará 3,5 euros.

Trata-se do meu mais novo objeto de desejo. Mas, a expectativa desse sistema chegar ao mercado brasileiro é bastante remota…

OLHA ONDE FOI PARAR O ASTERIX…

Os franceses – além da maravilhosa comida, os excelentes vinhos e das belezas culturais e históricas – são conhecidos por suas características um tanto o quanto peculiares, diria eu. São elas: o pedantismo irritante (posto que a França, no entender deles, é o centro da cultura ocidental), o proverbial mal humor e o nacionalismo exacerbado, somado a um sentimento anti-americano bastante pronunciado – noves fora Sarkhozy e seu recente alinhamento ianque…

Cientes de suas raízes históricas e antepassados ilustres, os franceses chegam a ser intransigentes na defesa de suas personagens que integram o imaginário que circunda a criação da pátria gaulesa. Dentre elas, encontra-se a reverência ao passado céltico, especialmente na figura de Vercingétorix – o líder gaulês da resistência contra os invasores romanos, derrotado por volta do século I a.C. na batalha de Alésia pelo poderoso cônsul romano (e depois ditador) Júlio Cesar.

Apesar de ter unificado a resistência gaulesa contra as legiões romanas, Vercingétorix não chegou a ser propriamente uma unanimidade entre os gauleses. Muitas tribos célticas da região se opuseram a sua liderança, tendo inclusive se juntado aos invasores latinos. A derrota do chefe tribal arveno se deu, em grande parte, pelas dificuldades de unificação das tribos gaulesas em um único comando, e que levaram ao dramático cerco que pôs fim à resistência céltica na Gália.

No entanto, como já dizia Eric Hobsbawn, a construção de um país envolve a criação de um imaginário nacional – símbolos capazes de galvanizar o imaginário popular em torno de um conjunto de idéias políticas. No caso da construção da identidade francesa moderna, esta envolve o apelo ao passado céltico que evoca o caráter de resistência feroz dos gauleses aos invasores estrangeiros. Como não poderia deixar de ser o caso, a figura de Vercingétorix foi reconfigurada para servir de base para o imaginário da pátria e do caráter franceses, como líder brilhante, general aguerrido e depositário fiel do caráter de seu povo.

A prova disso foi a transfiguração do chefe arveno na personagem de HQ mais famosa na terra de Balzac e Victor Hugo: o simpaticíssimo e divertidíssimo Astérix – sempre acompanhado do seu hilário e rotundo escudeiro Obélix. Quem não se lembra dessas personagens quando criança?

Pois bem, não é que a cadeia americana de lanchonetes fast-food McDonald`s (sempre ela!) resolveu mexer com a figura do Astérix? Dêem uma olhada no outdoor recente – que ilustra esse post – que a empresa lançou na França esse mês, iniciando a campanha intitulada “Venez comme vous êtes” (algo como “venha como você for”). A peça apresenta o simpático gaulês dando uma festa de arromba com sua galera num restaurante da rede, enquanto o seu adversário Chatotorix permanece amarrado numa árvore do lado de fora – literalmente “barrado no baile”…

Dá para imaginar o tamanho da fúria arvena dos franceses diante dessa peça!

Pelo menos uma coisa não há de se negar: a agência Euro RSCG conseguiu um tremendo “buzz” para essa campanha…

Isso é o que se chama escrever certo por linhas tortas…   

NÃO EXISTE FÓRMULA MÁGICA

Os últimos acontecimentos envolvendo os atrasos nos vôos da companhia aérea Gol – a pioneira no Brasil na adoção do famigerado modelo “low cost, low fare” – expõem a faceta mais óbvia de uma operação de negócios baseada no tripé grande escala – liderança em preços baixos – alta eficiência: o corte drástico de custos, com tudo o que há de positivo e de negativo nesse tipo de estratégia empresarial…
Há muito tempo que questiono a idéia da referida companhia ser a líder em passagens aéreas de baixo preço em nosso mercado. Há muito tempo que a empresa vem elevando as tarifas de maneira suave e quase imperceptível. O fato é que outras companhias – tais como a Azul, a Webjet e até mesmo a Avianca (ex-Ocean Air) – já oferecem tarifas menores. Porém, o caso da Gol é o exemplo típico de que uma idéia repetida à exaustão acaba tendo valor de verdade – mesmo que os fatos contradigam o discurso apregoado…
Ontem, o presidente da Gol fez um périplo pelas assembléias de funcionários que ameaçam entrar em greve a partir de sábado, tentando dissuadí-los do possível “inferno” que isso seria para a empresa (e bota inferno nisso!).
As principais reinvindicações dos funcionários: mudanças no plano de saúde – que é custeado integralmente pelos mesmos, e que teve um reajuste há pouco tempo de 35%; reformas no check-in do “galinheiro” que atende pelo nome de Aeroporto do Galeão, visando melhores condições de trabalho para os colaboradores; e, por fim, alterações na escala de trabalho draconiana imposta a pilotos e tripulação de cabine, que os torna mais cansados e expõe os passageiros a um risco de acidente aéreo por fadiga ou falta de concentração dos pilotos.
Por fim, os salários dos pilotos e co-pilotos estão defasados em relação à média do mercado…
Detalhe: as chances dessas reinvindicações serem atendidas é remotíssima, posto que isso seria um ataque frontal ao modelo espartano de custos baixíssimos adotados pela empresa!
Resumo da ópera: deve ser difícil a vida do dono de uma empresa que tem como cerne de uma estratégia de “vender mais barato, sempre”. E, pior ainda, deve ser a vida de quem trabalha numa empresa dessa!!!
Parodiando um tweet que entrou na moda nesses últimos dias, “quem transporta de ônibus nunca deveria se meter a transportar de avião”…  

E O NOOK "MICOU"

E o mercado editorial continua sofrendo reveses, numa trajetória que se assemelha em muito ao ocorrido há alguns anos atrás no mercado fonográfico. Agora, a “bola da vez” é a outrora poderosa rede de livrarias norte-americana Barnes and Noble, que anunciou ao mercado a sua venda na semana passada.

Fundada em 1917, a rede atualmente conta com 750 lojas em 50 estados americanos, empregando cerca de 40 mil funcionários. Como o setor está de “bola baixa” desde o recrudescimento das vendas dos e-books com o relançamento do Kindle (o e-reader da Amazon) e a explosão de vendas do iPad (o tablet da Apple), o valor da empresa passou de 2,2 bilhões de dólares em 2000 para 1 bilhão de dólares em 2010.

No final do ano passado, a Barnes and Noble lançou o seu próprio e-reader – denominado Nook -, mas parece que o mesmo não caiu no gosto dos consumidores, apesar do frisson inicial…

Parece que a cadeia que envolve o segmento livreiro está sendo radicalmente transformada pela ascensão vertiginosa da venda dos e-books e dos e-readers. O estágio de introdução do produto está em plena efervescência – pelo menos nos países do Hemisfério Norte -, e tudo indica que não não ficará pedra sobre pedra…

Enquanto isso, no Brasil, tudo anda a passos lépidos e fagueiros de uam tartaruga. Para vocês terem uma idéia, excetuando-se alguns poucos executivos da Ponte Aérea e alguns alunos meus adotantes iniciais do iPad, não vi ninguém ainda com e-readers nas mesas das cafeterias, ou nos bancos das universidades. A conferir…

Em tempo: eu, que não sou bobo nem nada, já garanti o meu e-reader. Trata-se do Cool-ER, comercializado por aqui pela livraria digital Gato Sabido. É um aparelho muito leve, fácil de operar, possui tela fosca (tecnologia e-ink), lê arquivos em formato PDF e epub, além de comportar um cartão de memória de 4GB. Já coloquei todos os meus textos que utilizo nas minhas aulas nele. É de grande valia para se ler no avião, no café, na fila do banco, no almoço, no intervalo das aulas, ou então para se livrar de gente chata quando está se aproximando e querem puxar uma conversa. 

Além dessas inúmeras vantagens, faz bem para a saúde e para o meio ambiente. Afinal, dói demais a coluna aquela quantidade absurda de papel que carregamos nas bolsas, além de preservar o meio ambiente ao diminuir a quantidade de árvores derrubadas para fazer papel. Além disso, não acho que muda tanto a proverbial experiência da leitura – pelo menos para mim, não senti nenhuma alteração. 

Ah, sim, eu notei uma alteração. Baixei uma quantidade absurda de livros para o meu e-reader, e agora tenho de lê-los. Agora, por favor, me dêem licença, pois tenho alguns papers para ler e aulas para preparar…

SESSÃO DE CINEMA – "A ORIGEM"

Minha relação com o cinema é deveras curiosa, quando não paradoxal. Explico: adoro filmes, mas não gosto de ir ao cinema. Vários motivos explicam essa minha resistência: primeiro, a preguiça de sair de casa, demorar um tempão para achar uma vaga no shopping center para estacionar o carro, e depois ainda ter de enfrentar uma fila gigantesca para comprar o ingresso; segundo, o preço da entrada é caro, especialmente nesses cinemas do tipo “multiplex”, onde o “combo” (leia-se, um balde de pipoca mais uma bombona de refri) é os olhos da cara; terceiro e último, a oferta disponível de filmes é muito ruinzinha – que vai desde pobres comédias românticas sem inspiração, passando pela mesmice sonífera dos filmes de porradaria, até chegar nos blockbusters descartáveis e sem um pingo de criatividade…

Entretanto, o convite de alguns amigos para pegar um cineminha no sábado à noite muda a coisa de figura, por se tornar irresistível – especialmente quando esses me são muito queridos. Daí, vale a pena despencar até o cinema e passar com garbo e galhardia por todos esses percalços acima citados… e, mais legal ainda, quando o filme em tela é excepcional!

“A Origem” (Inception, 2010), do diretor Christopher Nolan – o mesmo de “Batman, O Cavaleiro das Trevas”, com o falecido Heath Leadger, e de outras maravilhas como “Amnésia” e “Insônia” – nasceu para ser cult e intrigar as platéias de todo o mundo. É um FILMAÇO, com todas as escansões silábicas que a palavra merece! Não teria o menor receio de dizer que “A Origem” foi um dos melhores, mais criativos, instigantes e interessantes filmes que assisti nos últimos 10 anos! Talvez só “Matrix” tenha gerado em mim tamanho encantamento, guardado é claro as devidas proporções…

O tema do filme gira em torno dos recônditos da mente humana que sonha, em especial sobre a possibilidade de invadir e “plantar” idéias na mente de uma outra pessoa. Várias pesquisas psicológicas deste tipo foram realizadas nos EUA e na ex-URSS durante os tétricos anos da Guerra Fria – pois esta, afinal, era travada em vários tabuleiros: econômico, político, militar, cultural e psicológico. Portanto, a idéia em si propriamente não é nova, mas sim a forma como o diretor encontra para contá-la ao espectador.

Em uma expressão apenas, o filme é um gigantesco quebra-cabeças, um complexo labirinto sem fim, cujo roteiro – apesar de intrincado – é extremamente bem construído, sendo passado em diversos planos mentais das personagens, tornando assemelhado a uma daquelas figuras de ilusões de óptica de M.C. Escher. É a mais bem construída tessitura envolvendo roteiro, efeitos especiais e trama dos últimos anos, somadas a uma atuação prá lá de seguras dos atores.

A história se passa no plano mental das personagens, isto é na equipe de “invasores de sonhos” comandada por Dom Cobb – vivido por Leonardo Di Caprio, em uma atuação monstruosa de perfeita! Aliás, eu que o achava apenas mais um rostinho bonitinho perdido na multidão, vem tendo atuações consistentes e cada vez melhores desde “Gangues de Nova York”, de Matrin Scorcese.

Como se isso não bastasse, o filme tem de tudo um pouco: mescla o onírico da fantasia surrealista, com a melancolia de uma funesta história de amor, além de frenéticas perseguições de carro dignas de um baita suspense de ação, tudo isso temperado por doses cavalares de paranóia delirante e claustrofóbica, distopia e teoria da conspiração. Ou seja, um prato cheio para críticos, especialistas, acadêmicos, filósofos, blogueiros, hackers e outros seres que frequentam o ciberespaço. Sem dúvida alguma, “A Origem” é um filme que vai dar o que falar – aliás, já está dando -, e merece ser visto várias vezes, dada a recorrência de cenas, símbolos, imagens e situações…
Para vocês terem uma idéia do impacto que o filme exerceu sobre esse Escriba que vos fala, estou escrevendo essas parcas linhas às 2:00 hs da manhã (!!!), e não sei se conseguirei  dormir depois de finalizá-las, de tão “ligado”, excitado e absolutamente extasiado por essa preciosa película!

Não irei falar muito sobre o filme, pois as palavras que eu porventura escrever não irão dar conta da experiência impactante de assistir o filme na telona. Portanto, conclamo aos meus leitores que assistam o filme  o mais rápido possível, e postem os seus comentários a fim de que possamos entender um pouco mais esse “acontecimento cinematográfico”, essa obra-prima única que é “A Origem”.

O filme mostra que quando há boas idéias e criatividade em demasia, o cinema americano é capaz de produzir verdadeiras preciosidades. E que é também possível sair do blockbuster mediocrizante, da comédia insossa “água-com-açúcar”, e do terror B barato. “A Origem” é a prova viva de que o cinema não acabou, e de que este pode ser uma das formas mais sublimes e complexas de arte. Ou seja, tornar-se uma forma de lazer inteligente!

Fiquei pensando apenas qual seria o meu “totem”, o meu “talismã”, o meu “amuleto”,a minha ligação com a realidade verdadeira (se é que ela ainda existe) : meu iPod? Uma guitarra? Meus livros?

Uma dica: o final do filme é um dos mais inusitados que eu já vi nos últimos tempos! Não percam! Vejam, e depois os meus curiosos leitores tenham o obséquio de registrar aqui as suas impressões. Garanto que vocês irão ver a realidade de maneira muito diferente após terem assistido esse filme…    
Categorias:Arte, Cinema, Cult, Entretenimento

DICA DE DVD – RAMMSTEIN: "Volkerball"

Para o desespero dos otimistas e das famílias que acreditam no bem da humanidade, o som pesado continua firme e forte – o que é uma ótima notícia para camaradas como esse Escriba que vos fala, um fanático por guitarras distorcidas, pedais duplos e uma zoeira de doer o cérebro. Afinal, quer coisa melhor do que um belo riff de guitarra para levantar o espírito e aguentar as agruras desse mundo de expiação? Que digam caras como Tony Iommi, Ritchie Blackmore, Jimmy Page, Glenn Tipton, K.K. Downing, Adrian Smith, Dave Murray e outros tantos que honram a tradição e o peso desse estilo musical…

Para os mais incautos, o heavy metal é uma barulheira indescritível das trevas do submundo, uma mescla de barulho, peso, caos, turbulência, dissonância que produzem um profundo desconforto e dor de cabeça aos menos acostumados. Em parte, trata-se de uma grande verdade (rsrsrsrsrsrs), posto que o objetivo desse tipo de música é esse mesmo! Afinal, estamos diante de um som “mais pesado que o céu”…

O movimento está sempre se reinventando – o que é uma coisa deveras salutar, demonstrando a vitalidade do estilo. Pois, como diria o velho poeta, tempos difíceis exigem uma música mais difícil ainda! Isso justifica o surgimento de sub-estilos e modismos como o thrash metal, o black metal, o grindcore, o nu metal, o industrial e por aí vai… 

O Rammstein – literalmente, “martelo” ou “ariete” em alemão – é uma banda formada em 1994 na antiga Alemanha Oriental, cujo som pode ser classificado como “Industrial”, “Tanz Metal” ou “NDH – Neue Deutsche  Harte” (algo como “A Nova Dureza Alemã”) – na praia de grupos como o genial Nine Inch Nails, e o Marilyn Manson dos primeiros discos  -, mixando riffs de guitarra pesadíssimos, baixo e bateria que parecem o trovão de Thor, com fortes passagens pela música eletrônica e uma atitude e visual punks marcantes. Aliás, é essa mistura aparentemente inusitada que torna o som dos caras muito, mas muito interessante…

Tomei contato pela primeira vez com o som da banda ao assistir “Lost Highway”, o onírico e “viajandão” filme do cineasta norte-americano David Lynch. No meio daquele surrealismo de imagens, o som mais surreal ainda dos caras me chamou a atenção. Depois, eles reapareceram na trilha sonora de “Matrix”, resolvi acompanhá-los mais amiúde e vire fã!

O Rammstein conta com a seguinte formação, intacta desde 1994: o vocalista Till Lindemann, ex-nadador olímpico da Alemanha Oriental, um ciclope em termos de formato corporal, com um voz grave de dar medo até os menos devotos das coisas boas da vida; a dupla de guitarristas Richard Kruspe e Paul Landers, donos de riffs pesadíssimos que são a marca registrada do grupo, e que enchem de barulho, saturação e distorção até mesmo o menor dos speakers existentes; o baixista Oliver Riedel que, junto com o baterista Christoph “Doom” Schneider – dono de baquetas pesadíssimas e de pedais duplos de dar inveja aos melhores bateristas de trash metal – tornam o som da banda a verdadeira sucursal do inferno de tão sólido e maciço que é o seu peso; por fim, encerrando a formação, o bizarro tecladista Christian “Flake” Lorenz, mago das texturas eletrônicas e teclados dissonantes e que se veste com um visual à la Mad Max

O DVD em tela, intitulado “Volkerball” (literalmente, “baile do povo”), foi gravado em julho de 2005 durante a turnê do álbum “Rosenrot” (de 2005) em Nimes, na França, em um anfiteatro romano construído no ano de 27 a.C. na época do imperador Augusto. Atualmente, além de praça de touros, o local é sede de espetáculos musicais, tendo sido local de gravação de um DVD do Metallica.  

O DVD ilustra com riqueza de detalhes a magnitude do show dos caras: um verdadeiro espetáculo teatral que honra a tradição inaugurada por artistas como Alice Cooper e Kiss, com uma iluminação impecável, maquiagens que lembram uma usina siderúrgica e um gestual típico do teatro kabuki. No entanto, o mais impressionante é a forma como o grupo maneja os recursos pirotécnicos. Confesso que nesse item o Rammstein é imbatível: está para nascer banda de rock que trabalhe com tanta radicalidade os fogos de artifício como eles!

O concerto abre com “Reise, Reise” (título do álbum homônimo de 2004), seguida da maravilhosa “Links 1, 2, 3” – uma pancada sonora capaz de levantar defunto do caixão! As pesadíssimas “Kleine Lust” e “Feuer Frei” dão ensejo à “rodinha de porrada” na pista da arena – oui, mons amis, eles também tem isso lá! A trovoada continua sem parar com petardos como “Morgenstern”, “Mein Teil” (em homenagem a um canibal alemão recente), a maravilhosa “Los” (uma das minhas favoritas, com uma versão na parte final digna de grindcore!) e “Du Riechst So Gut”. “Benzine” (que abre o álbum “Rosenrot”) é uma muralha sonora de peso, de desnortear os tímpanos dos mais incautos. Sucessos como “Amerika”, “Du Hast” e “Sehnsucht” (lembram-se de “Matrix”?) também estão lá, assim como a música-título “Rammstein” (que mais parece uma broca de dentista no lobo temporal!). As muralhas sonoras “Sonne” e “Ich Will” – do sensacional álbum “Mutter”, de 2001 – me fizeram sair do sofá para bater a cabeça! O espetáculo encerra com a balada “Ohne Dich” e um grand finale com “Stripped”! A francesada saiu suada prá caramba, mas com a alma literalmente lavada de tão extasiada com o espetáculo dado pela banda!

“Volkerball” é uma prova de como o som pesado está mais vivo do que nunca, se reinventa o tempo todo e é capaz de tirar do sério uma cara como eu, esse pobre Escriba que vos fala, que não consegue de parar de bater a cabeça mesmo com o show terminado há cerca de duas horas atrás!

Além do mais, é um belo aquecimento para a única apresentação da banda no Brasil, que ocorrerá no dia 30 de novembro próximo, no Via Funchal em São Paulo.

Se por um acaso algum de vocês me encontrar na rua com os headphones batendo cabeça sem parar, não tenham dúvida: é o Rammstein dominando as minhas ondas cerebrais! E, por favor, não interrompam!!!
Categorias:DVD, Heavy Metal, Música, Rock, Show