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DEVANEIOS PLUVIOMÉTRICOS DE UM ESCRIBA ILHADO…



Segunda-feira (05 de abril de 2010, 16:00 hs, universidade): olho pela janela da minha sala na universidade a chuva torrencial que assola a cidade. E penso com os meus botões: “É só uma pancada passageira, vai passar logo…


Segunda-feira (05 de abril, 19:00 hs, Maracanã): saio com o meu carro da universidade em meio a uma chuva inclemente em direção à Zona Sul, onde iria pegar a minha mulher em seu curso de espanhol. Ao fazer o contorno no quarteirão, me deparo com um engarrafamento monstro na Av. Radial Oeste. Penso novamente com os meus botões: “A Praça da Bandeira deve estar alagada; farei o caminho até o Túnel Rebouças por São Cristóvão”. Ato contínuo, me dirijo para lá sem saber que o meu inferno estava apenas começando…

Segunda-feira (05 de abril, 20:00 hs, Av. Francisco Bicalho): depois de um percurso tumultuado em meio ao caos já instalado, me deparo com um engarrafamento monstro em frente a desativada estação de trens da Leopoldina, na verdadeira armadilha que é o Canal do Mangue. Vejo que carros, caminhões e onibus estão há muito parados. Pressinto que a minha espera será bastante longa…

Segunda-feira (05 de abril, 21:00 hs, Leopoldina): ligo para minha esposa, e digo que irei demorar um “pouquinho”. Peço a ela para me esperar, e digo para ir comer ou bebericar algo até eu chegar…

Segunda-feira (05 de abril, 23:00 hs, Leopoldina): com o panico prestes a se instalar, percebo que só me resta um ponto na bateria do telefone celular, e que o meu tanque de gasolina está na reserva. Resolvo desligar o carro, e informo a minha mulher essa precária situação. Ela sai do curso de espanhol e se dirige para casa de um amigo na Zona Sul, onde irá se abrigar e me esperar. Sua saída foi providencial pois, minutos depois, há um deslizamento da encosta do morro que destrói parte do local onde ela estava antes…

Terça-feira (06 de abril, 00:30 hs, Leopoldina): a ansiedade aumenta: a chuva não pára, o nível da água está aumentando, e os dois onibus que estão na minha frente enguiçam. Como não podia me informar pelo Twitter no celular – afinal, precisava economizar bateria -, liguei o rádio para saber das notícias. Mais panico, pois tive a real percepção que toda a cidade estava desabando em meio ao dilúvio. Ligo para a minha esposa, e ela não consegue encontrar um táxi ou um onibus que a leve até a casa do nosso amigo…

Terça-feira (06 de abril, 02:00 hs, Leopoldina): a água sobe ameaçadoramente, colocando em risco a minha integridade física. Encontro uma brecha em meio ao mar – literalmente! -, e coloco o meu carro em cima de um canteiro bem alto. Penso, de novo, com os meus botões: “Esse será o meu Forte Álamo, a minha Torre de Londres, o meu Castelo de Tintagel”. Que bela hora para fazer metáforas…

Terça-feira (06 de abril, 03:30hs, ainda Leopoldina): ligo para a minha mulher, e recebo – finalmente! – uma notícia boa. Ela já estava instalada na casa do nosso amigo, sã e salva. Informo a ela a minha situação desesperadora. Pela janela do carro, vejo carros boiando e pessoas ilhadas no onibus. Penso em como, às vezes, a vida nos coloca em situações realmente surreais…

Terça-feira (06 de abril, 06:30hs, ainda Leopoldina): após tentar dormir no carro – coisa que não consegui fazer, posto ora estar preocupado com o nível das águas, ora preocupado com possíveis “arrastões” -, a chuva dá uma trégua e o “mar” timidamente começa a baixar. Pela janela, percebo o mar de lixo, entulho, plantas, pedaços de madeira, sacos plásticos e embalagens pet. Me sinto imerso em meio a uma estação de tratamento de esgoto. Penso cá comigo: “Se o inferno existe, deve ser algo semelhante a isso”. Felizmente, passo a noite incólume, pois meu carro não ficou alagado nem foi tragado pela força da água. Infelizmente, outros não tiveram a mesma sorte…

Terça-feira (06 de abril, 07:00 hs, ainda Leopoldina): pelo rádio, ouço a primeira manifestação de uma autoridade carioca sobre a tragédia. O prefeito do Rio – um fanfarrão inficaz e produtor de factóides – pede em tom funesto que as pessoas não saiam de casa (sic). Penso que quando chega-se no fundo do poço, ela pode ser ainda mais fundo…

Terça-feira (06 de abril, 09:00 hs, ainda Leopoldina): depois da chuva ter dado uma trégua, o asfalto começa a ser vislumbrado, e a destruição começa a ficar evidente. Depois desse tempo todo, surgem as primeiras autoridades: bombeiros e policiais aparecem para nos resgatar, e para liberar a pista dos veículos enguiçados. Consigo sair com o meu carro por um atalho improvisado, e começo o meu retorno para a casa do nosso amigo que hospedou a minha esposa. Até lá, foi um longo e tortuoso caminho…

Terça-feira (06 de abril, 11:00 hs, Laranjeiras): depois de perambular por postos de gasolina – sem funcionários, já que não conseguiram chegar até o trabalho! -, consigo abastecer o meu carro e me encaminhar até a casa do nosso amigo. Pelo caminho, um cenário de destruição completa, com ruas alagadas, onibus escassos, táxis bissextos, pessoas caminhando a pé debaixo de um dilúvio tentando chegar até o trabalho, trens parados, motoqueiros perigosamente circulando em verdadeiros rios, arriscando-se em meio a buracos no asfalto e em bueiros abertos pela violencia das águas… A rua do meu amigo virou um enorme rio, e a quantidade de lama acumulada na calçada em frente ao seu prédio é assustadora! Finalmente, consigo chegar e reencontro a minha esposa…

Terça-feira (06 de abril, 15:00, lar doce lar): depois de descansar um pouco e almoçar na casa do nosso amigo, volto de carro com a minha esposa para casa. Pela Zona Sul, percebo o caos e a destruição na cidade. Vejo muitos morros com deslizamentos de terra, verdadeiras cachoeiras descendo das encostas e ruas e avenidas completamente alagadas. Uma atmosfera sinistra ronda as pessoas e o carioca, um ser sorridente por definição, está casmurro, tenso, falando pouco e com o semblante fechado. Nunca achei que eu gostasse tanto da minha casa…

Parece um filme de terror, mas o relatado aconteceu de verdade com esse Escriba que vos fala. Nunca presenciei uma enchente como essa em toda a minha vida – somente no longínquo ano de 1993, tive uma experiencia semelhante de passar à noite inteira ilhado, com o meu carro ancorado em um posto de gasolina. O que mais me impressionou foi a chuva, torrencial e avassaladora, não parou um instante: foram 12 horas seguidas de dilúvio inclemente!

A Cidade Maravilhosa está triste desde segunda-feira à noite. As pessoas estão assustadas, só se fala sobre isso nas esquinas, nos bares, nas ruas. As imagens, tanto as retidas na memória quanto as transmitidas pela TV, são deprimentes, chocantes e tétricas. Numa cidade cuja geografia é um funesto paradoxo – é deslumbrante e, ao mesmo tempo, traiçoeira – trata-se de um desastre de morte anunciada. Afinal, as áreas mais atingidas foram as localizadas em bacias de rios – Praça da Bandeira, Maracanã, Tijuca e Jacarepaguá – e em encostas – Humaitá, Santa Teresa, Grajaú e todas as comunidades carentes. Quem mora no Rio sabe disso – até mesmo os governantes! – mas, entra ano e sai ano, ninguém faz nada! Quando uma tragédia desse porte acontece, só nos resta lamentar e mal-dizer os políticos fdps por seu descaso, inoperancia e inércia!

De bom, funcionou o rádio e o Twitter. Ambas as mídias foram fundamentais para orientar a população, acalmar as pessoas e auxiliar as autoridades nas operações de resgate. É nessas horas que observa-se o impacto das Tecnologias da Informação e da Comunicação na vida das pessoas. Só não fui mais feliz porque esqueci de carregar o meu telefone celular antes de sair do trabalho, coisa que nunca mais deixarei de fazer…

Hoje, quando escrevo essas linhas, vivo um misto insuportável de sensações. Por um lado um tanto feliz, pois eu e as pessoas que me são importantes estão bem e sem maiores problemas. Por outro lado, absolutamente em luto dada a dimensão de vidas tragadas pelo dilúvio, as perdas materiais incontáveis e o abalo no moral de uma população tão mal-tratada e querida como é essa que habita a Cidade Maravilhosa.

Aos que gentilmente me escreveram procurando ter informações, informo que estou bem. Agradeço muito a preocupação de voces. Mas, estou profundamente triste. Amo profundamente o Rio de Janeiro, e fico extremamente triste quando vejo as cicatrizes em seu corpo nu e martirizado…

PS: Detalhe – na segunda foto que ilustra o post, descobri que fotografaram a posição que fiquei durante a enchente na madrugada. A foto acima, publicada pela Agencia Estado, mostra a calçada onde fiquei com o carro: o C3 vermelho em cima da calçada é o meu, ao lado de um poste, em frente a tres onibus – dois amarelos (enguiçados) e um azul. De repente, vi que me tornei celebridade…
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  1. abril 8, 2010 às 1:55 am

    Oi Zé Mauro, que bom que depois de tudo vcs estão bem! É um absurdo a inércia e o descaso das autoridades em tomar medidas preventivas para estes eventos climáticos extremos. Tanto se fala em mudanças climáticas, e é óbvia a tendência de que estes eventos ocorram. Eles esperam que a desgraça aconteça para se mexerem. Bom descanso depois dessa viagem onírica!Fique com Deus.

  2. abril 8, 2010 às 5:31 pm

    Caos total!Pelo menos você não caiu no bueiro – eu caí… 😦 rs Mas tô bem também, na verdade, a queda foram nas águas de março.

  3. abril 9, 2010 às 2:36 am

    Oi Filipe, tudo bom?Obrigado pela preocupação, mas no final tudo saiu bem. Foi um baita susto, e espero não passar por algo desse tipo tão cedo…Obrigado pela sua preocupação!Grande abraço!

  4. abril 9, 2010 às 2:38 am

    Pois é Debora, caos total mesmo!O Rio de Janeiro virou, literalmente, o purgatório da beleza e do caos… Pelo visto, dado o que aconteceu contigo, pouquíssimos cariocas estão livres do flagelo das enchentes…

  5. abril 9, 2010 às 2:43 am

    É professor,Estava quase chegando na Praça da Bandeira, e tive que desviar para o centro. Só consegui chegar em minha querida Duque de caxias 1:00 da manhã. E isso, por que, perdido perto da cidade do samba um motorista de caminhão da Conlurb solidariamente me ajudou. Me fazendo segui-lo até a linha vermelha. Foi a pior situação que passei dentro de um carro.

  6. abril 13, 2010 às 8:17 pm

    Zé Mauro,lembra que passamos por algo semelhante aqui em Blumenau??? Fiquei mesmo pensando em vcs, q estavam vivendo essa "loucura"! vim aqui ver se vc estava bem. fico feliz q está tdo certo!!!:)um forte abraço,

  7. abril 15, 2010 às 2:48 am

    Oi Josiane,Obrigado pela preocupação, está tudo bem agora!Um grande abraço!

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