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PRIMEIRO VINHO ALEMÄO A GENTE NUNCA ESQUECE…


Sabadão ensolarado de um feriado prolongado no Rio de Janeiro é sempre um espetáculo para todos os sentidos. Para aproveitar melhor o dia, acordei cedo e me encaminhei para a rampa da Pedra Bonita, em São Conrado, para acompanhar a minha mulher que iria saltar pela primeira vez de asa delta. Apesar de ser um programa um pouco caro, é uma experiencia fantástica! Além de ver a orla da Cidade Maravilhosa do alto, e de toda a natureza daquela linda região ao redor, deu para meditar bastante e descansar a cabeça das atribulações do dia-a-dia. Só um adendo: quando eu voltar – coisa que pretendo fazer muito em breve -, dessa vez irei de parapente! Ah, seu vou…

Animado com o dia de um sol de tons outonais – por não serem mais dias tão insuportáveis de quentes -, resolvi me dar um presente renovando um item essencial da minha enoteca: novas taças de cristal para tornar a minha experiencia de degustação mais agradável. Comprei algumas taças para vinho tinto do estilo Borgonha – daquelas bem bojudas, com a borda se estreitando -, o que permite ao vinho “respirar” e, por extensão, evoluir na taça e liberar toda a sua complexidade olfativa. Também acabei comprando algumas taças para degustação de vinho branco, estas um pouco mais austeras e estreitas. Tudo isso pode parecer uma tremenda frescura para quem não aprecia vinhos com maior afinco e dedicação – coisa de “enochato”, como se diz na gíria -, mas o detalhe da taça adequada é fundamental para quem aprecia uma degustação com maior amplitude de sentidos, sejam estes de natureza visual, olfativa e gustativa…

Ato contínuo, acabei adquirindo também algumas garrafas de vinho para acompanharem as minhas novas taças – e, também, para embalarem as libações desse Escriba que vos fala, como nesse exato momento onde traço essas linhas em meu computador…

No entanto, meio por paladar, meio por preconceito, sempre dou preferencia aos tintos em detrimento dos brancos – a razão é de 3 garrafas de vinho tinto, para 1 de vinho branco. Afinal, a cor violácea dos Cabernet Sauvignon chilenos me seduz em demasia, assim como os fortes taninos dos Tannats uruguaios, os aromas dos Malbecs argentinos… Isso sem falar nos vinhos franceses, portugueses, italianos, espanhóis, libaneses…

Apesar de já admitir a presença dos vinhos rosés em minha coleção – culpa desse verão carioca insuportavelmente quente -, a minha história com os vinhos brancos é um misto de preconceito, curiosidade e encanto. Confesso que sempre tive uma certa má vontade com os brancos, até que fui apresentado aos vinhos da região francesa da Alsácia – mais especificante, os Rieslings e os Gewurztramminers -, bem como os argentinos elaborados com a uva Torrontés. Ao degustá-los, foi uma experiencia inesquecível (semelhante ao que tive no dia de hoje!). Ao girar o líquido no copo, o amarelo-palha tímido abriu-se em uma paleta olfativa absolutamente explosiva e expansiva. Foram aromas de mel, limão, maracujá, flores, melão, todos tomando de assalto o meu cérebro e me inundando com uma sensação de frescor e júbilo. Desde então, sempre que posso, incluo vinhos dessas regiões e castas na minha cesta de compras…

Nunca tinha experimentado um vinho alemão, especialmente os situados no lado contíguo da fronteira francesa. Afinal, a experiencia do brasileiro com os vinhos alemães nem sempre foi positiva – vale lembrar os tenebrosos vinhos da “garrafa azul” e os intragáveis “Liebfraumlichs” -, e durante muito tempo a combinação Alemanha e vinho carregava esse estigma extremamente negativo. No entanto, sempre li e ouvi falar da fama dos Rieslings da terra de Odin, Frey, Freyja e Thor, e resolvi experimentar uma garrafa para tirar as minhas próprias conclusões.

Escolhi um vinho regional (weingut) da vinícola Balthasar Rees – um Rheingau Riseling Kabinett Trocken, safra 2000. Pois é meus leitores, degustar um vinho alemão é também andar com um dicionário debaixo do braço… Du hast mich!

Os vinhedos da Balthasar Rees estendem-se por cerca de 3.000 hectares na região do Rheingau (literalmente, “distrito do Reno”), uma das 13 regiões produtoras dos vinhos de qualidade da vitivinicultura germanica. Situada no estado de Hesse, a região é conhecida pelos vinhos da casta Riseling, uma casta complexa que é caracterizada por gerar vinhos bastante ácidos e extremamente aromáticos – ou seja, a verdadeira maravilha em forma de vinho! Já um vinho Kabinett recebe essa denominação por ser de primeira colheita, de caráter leve, para ser bebido de maneira descontraída e descompromissada. Ele pode ser semi-seco (lieblich), seco (trocken) ou extra-seco (halbtrocken). Logo, o que repousa em minha taça é um Riseling de primeira colheita seco… e maravilhoso!

São vinhos leves, pouco alcóolicos (11%) e bastante ácidos, com aromas de mel, maçã, flores e toques minerais. Na taça, ele evolui com elegancia ao longo do tempo liberando a sua complexidade aromática. 90% dos vinhedos na região do Rheingau são cultivados com a uva Riesling, tornando-a a rainha da vitivincultura germanica. Isso se deve em grande parte à resistencia da casta diante das baixas temperaturas que caracterizam o país, e registros históricos mostram que o seu cultivo remonta ao século XV. São ótimos vinhos para acompanhar pratos leves como saladas, peixes e sobremesas a base de frutas. Ou então, para beber descompromissadamente em um dia tórrido de verão…

Todas essas qualidades eu encontrei no vinho da Balthasar Rees. Apesar de um tanto “velho” para o meu gosto (ano 2000), suas características florais e frutadas permaneceram intactas. Um belo encerramento para um dia tão alegre e solar. Logo, se estiverem diante de uma garrafa dessas, não pestanejem!

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PS: E,também, não deixem de pular de asa delta! Eu recomendo!!!
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  1. abril 4, 2010 às 4:42 am

    É professor, se eu não soubesse que estava em seu blog, pensaria que se tratava de um texto do Lopes o homem do vinho.kkkkkk

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