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AS “TETERIAS” DE GRANADA E OS SONHOS DESSE ESCRIBA


Domingo de Páscoa, dia de almoço em família e de “enfiar o pé na jaca” em quilos e mais quilos de chocolate! Segundo alguns estudos científicos, o chocolate seria um alimento propensor à produção de serotonina, o que proporcionaria ao glutão uma sensação de felicidade e prazer. Não é à toa que muitas amigas minhas dizem preferir uma barra de chocolate a uma hora de sexo! Nada contra o sexo, bem entendido, mas a sensação de prazer obtida após a degustação de uma barra de cacau não possui o infame “efeito-rebote” – o desprazer de ter de conversar com a pessoa, em algumas ocasiões específicas, após a consumação do ato…

Hoje, quero falar um pouco sobre as casas de chá – em espanhol, “teterias” – na cidade andaluz de Granada, onde se localiza uma das grandes maravilhas da arquitetura árabe em território europeu, o antigo palácio de Alhambra (cujo nome deriva do árabe Qal`at al-hamra, “A Fortaleza Vermelha” em tradução literal). A construção, situada no bairro de Albaicín, foi erguida pelo califa Muhammad V no século XIV, e possui um valor histórico e arquitetonico inestimáveis. Vale lembrar que Granada, a antiga capital do califado árabe na Península Ibérica, foi a última cidade a ser conquistada pelos reis católicos, em 1492, após 800 anos de dominação muçulmana na região. Daí, a presença islamica na região ser muito forte e ainda presente, em cada construção, rua, esquina, palácio, além da música, da dança e da gastronomia.

O hábito de beber chá – algo bastante comum na Andaluzia, região localizada no sul da Espanha – é uma herança tipicamente árabe, tal como os belíssimos arcos e as portas ricamente adornadas de Alhambra. Afinal, foram os árabes que trouxeram para a Europa a beberagem feita com folhas da planta Camellia Sinensis, acrescida de ervas aromáticas, especiarias e frutos secos. As “teterias” de Granada foram objeto de uma matéria publicada na edição deste final de semana do periódico de negócios Valor Economico.

A primeira casa de chá da cidade, a Teteria As-Sirat (Rua De La Calderería Nueva, 4) foi aberta em 1982, mas a moda de degustar a bebida cresceu entre os habitantes e turistas nos últimos 15 anos, com a abertura de novas casas no entorno da rua. Nestas, são servidos chás das mais variadas regiões do mundo e em suas diferentes variações, tais como os marroquinos, paquistaneses, somalis, egípcios, turcos, libaneses, tunisianos, indianos e do Ceilão. Ou seja, uma explosão de gostos, aromas e cores para todos os gostos e paladares!

Por exemplo, o chá marroquino – o chá árabe mais conhecido por todos – é uma mistura simples de chá verde com hortelã, servido fumegante em belíssimos copos e bules inspiradores. Já o chá paquistanes é preparado com chá preto, leite, canela e uma semente de cardamomo – o que lhe dá um toque picante e extremamente aromático. A versão tunisiana da bebida leva chá verde, hortelã e piñones – uma espécie de amendoa branca. O egípcio leva chá preto, menta canela e rosas. Na versão somali, entram em sua composição chá preto, leite, gengibre, canela e cardamomo. Todos deliciosos, e custando na faixa de 2 a 3 euros o bule. Na maioria das vezes, são acompanhados de pequenos bolos ou doces árabes – como o briwat, que leva amendoas e pistaque -, ou então pequenos biscoitos.

Além dessas versões, a “teterias” da cidade criaram variações criativas e absolutamente deliciosas da bebida. Por exemplo, a proprietária da As-Sirat, Laila Muñoz, desenvolveu uma série de combinações para elevar o espírito dos frequentadores da casa: o Nazarí (chá preto, coquetel de frutas e azahar – uma flor branca do Mediterraneo), o Mil e Uma Noches (pétalas de várias flores, canela, frutos secos e suco de laranja) e o Sueños de Alhambra (chá preto, bergamota, canela e rosas). Além de servidas na casa, elas podem ser adquiridas no próprio estabelecimento para preparo em domicílio.

Já nas teterias Alfaguarra (Rua De La Calderería Nueva, 7), Nazarí (Rua De La Calderería Nueva, 14) e La Oriental (Cuesta Marañas, 3 – esquina com Calderería Nueva), é possível encontrar também chás japoneses, chineses, russos e nepaleses, além das infusões que nós brasileiros apreciamos tanto – e que, tecnicamente, não são considerados chás, por serem elaborados com frutos secos ou outras ervas aromáticas que não as folhas da Camellia Sinensis.

O serviço do chá é tão exótico, complexo e envolvente quanto os aromas e sabores dessa rica bebida. A tradição manda que o líquido seja despejado do alto, para que se forme um fio entre o bule e a xícara. Tal ritual deve ser realizado 3 vezes, devolvendo-se a cada vez o líquido da xícara para o bule e para lá novamente, numa sensual e instigante dança, a fim de oxigenar a bebida, realçar os seus aromas e consequentemente perfumar o ambiente…

Confesso que estou morrendo de vontade de ir lá, e pretendo faze-lo o mais breve possível! Enquanto isso, deixe eu correr pro fogão que eu tenho um Darjeeling pronto para beber…
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