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PSICODELIA No. 1

Suaves cavaleiros deslizavam pelas dunas, roçando seus dedos de cetim em almiscarados brocados que adornavam as suas armaduras, dando um ar nobre as suas montarias mais do que já eram – e, por suposto, deveriam aparentar. Vistos de longe, estes assemelhavam-se a silhuetas longilíneas cujas sombras projetadas lembravam a imponencia de zigurates antigos, oriundos de longínquas terras e ancestrais épocas, mas que agora cavalgavam firme e decididamente em direção ao premio tão sonhado: a cidadela fortificada de espelhos, em meio a dunas perdidas que enlouqueciam os guerreiros que tanto a ansiavam.

Tais como guerreiros de terracota, indestrutíveis e decididos, eles demoraram séculos até achá-la, em meio a brumas, tempestades de areia, oásis e histórias que os povoados em tão erma terra entoavam em busca de algum encantamento em meio ao monótono, incansável e mortal deserto de areia. Ao finalmente adentrarem a cidade, e para o espanto de todos que lá habitavam, uma lufada de ar fresco e a brisa úmida de uma chuva improvável anunciavam uma promessa de caos e de destruição. Logo, o horror estava estampado na face de cada um, e todos, sem exceção, agarravam ferozmente suas tenues vidas em esperanças vazias do retorno de heróis que, desde muito tempo atrás, tinham sido varridos por tempestades de areia em priscas eras. Afinal, diziam eles, são guerreiros de terracota, e não resistirão por muito tempo a mais feroz de nossas tormentas: o deserto…

Nesse ínterim, andarilhos desesperançados buscavam a atenção dos atordoados transeuntes, em busca de reconhecimento, esperança e fé. Circulavam atonitos pelas alamedas e medinas, esquivando-se do ardor do sol do deserto que calcinava impiedosamente a pele e cegava os olhos, em meio ao burburinho caótico que tomava de assalto as ruas da cidadela. O tom alvo da paisagem árida e erma contrastava com o sanguíneo latejar dos pulsos que se entreolhavam, das batidas entrecortadas do coração de cada um, que quase deixavam surdo o visitante pouco atento as idiossincrasias que habitam o peito do homem quando este é sobrepujado pelo sentimento de medo e de desamparo. É nessas horas que homens destemidos se tornam meninos, e meninos mais do que nunca teimam em não amadurecer, ciosos de que é preferível morrer inocente do que tragado pelos horrores e agruras da vida…

A aridez do deserto e a secura da boca levava a todos buscarem um refresco na fonte de água localizada no centro do souq. O verde esmaltado de seus delicados arcos lembrava finas laminas de jade importadas de distantes terras maias – um improvável porém firme comércio, estabelecido entre povos distantes mas que tinham muito mais em comum do que se poderia supor. Afinal, irmanavam-se a partir de crenças apocalípticas e escatológicas que rememoravam o fato de que o fim do mundo é sempre uma porta entreaberta e próxima – uma hipótese a ser levada em consideração no complexo contexto do horizonte de possibilidades existenciais…

No canto esquerdo da grande praça do mercado, situava-se o majestoso palácio de cristal que tanto encantava quanto amedrontava o visitante bissexto que para lá acorria. É para lá, também, onde a população acorria quando significativas ameaças pairavam sobre a cidadela.

Uma espécie de transe eletrizava a massa que lá acampava diante de seu magnífico jardim, repleto de cores, luzes, fontes e esculturas. Seu gigantesco frontispício estava recoberto de símbolos antigos entalhados em cada portal de formato de um hexágono, cada qual postado em cada entrada, cada saída de escape. Lá, encrustavam-se pletoras de diferentes símbolos mágicos como runas, triskellions, árvores, traços do I Ching, animais totemicos, diversas e elegantes mandalas, todas encimadas por arcanos maiores que zelavam pela ordem nesse aparente caos de imagens, sinais e símbolos.

Em seu interior, seus maravilhosos e avassaladores espelhos concentricos lembravam a qualquer desavisado conquistador a dificuldade em se tomar a cidadela. Afinal, tal como uma donzela meiga porém traiçoeira, a tarefa assaz dificultuosa de adentrar em suas entranhas era deveras arriscada, dado que conquistador e conquistado se confundiam no projetar dos infinitos espelhos, num infernal e diabólico arranjo. O perigo, bem entendido, não era lá chegar, mas sim enlouquecer na imensidão do fugaz escape das imagens projetadas na infinitude especular.

Não por acaso que os habitantes da cidadela diziam que nunca ninguém tinha de lá retornado são, quando não desaparecido para sempre, dado sua corporeidade ter sido esvaída pelo jogo infernal dos espelhos que imiscuiam-se ao corpo físico, drenando toda a sua substancia vital. Logo, os espectros formavam-se em fila, aterrorizados em sua vacuidade, e os lamúrios tétricos dos esvaídos inundavam a sala de horripilantes e angustiados sons, servindo de lembrete aos seus visitantes de que nunca se atrevessem a ultrapassar o umbral que separava Este do Outro Mundo
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Categorias:Meus contos, Pensamentos
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