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A GRANDE ESTRATÉGIA DO IMPÉRIO BIZANTINO

Quem me conhece mais amiúde, sabe: sou um aficcionado por história, especialmente por história antiga. Estudar livros de história é, para mim, além de um delicioso hobby, uma maneira de compreender melhor a dinamica de funcionamento dos atores envolvidos naquele período, entender o seu funcionamento mental, bem como vislumbrar como a nossa subjetividade atual é forjada a partir do lento e complexo processo da sedimentação e entrecruzamento de diversas práticas sociais que tiveram origem em tempos remotos. Nesse sentido, é extremamente instrutivo estudar a história de civilizações antigas como a Mesopotamia, o Egito, a Grécia, Roma, os celtas, os germanicos, os persas, os cartagineses, os fenícios, dentre inúmeras outras. Isso só pode ser fruto de uma mente foucaultiana, engendrada em meio a livros de nouvelle histoire, com uma pitada de jogos de linguagem wittgensteinianos…

É com esse espírito que, quase sempre, me deparo com textos extremamente instigantes que me levam a pensar com profundidade sobre temas como a natureza da guerra, a paz, o conflito de interesses e sua respectiva resolução. Um deles, que foi publicado no famoso periódico Foreign Policy do final de 2009, é de autoria do historiador e estrategista norte-americano Edward Luttwack. O texto, intitulado “Take Me Back To Constantinople”, discute que a saída para o atual impasse americano no Oriente Médio e no AfPaq (o codinome para Afeganistão – Paquistão) deve ser buscado nos livros de história, ou melhor, nas lições do Império Bizantino. Ou seja, para os Estados Unidos, a solução para o impasse é: mais Bizancio, menos Roma!

Como é que é? Explica melhor isso…

Luttwak é um escritor polemico, autor de livros como The Grand Strategy of the Roman Empire (1976), The Grand Strategy of the Soviet Union (1983) e Turbo-Capitalism (1999). Sua obra é marcada por uma grande preocupação com as estratégias utilizadas pelos grandes impérios na defesa dos seus interesses. Do Império Romano, ele observou uma estratégia guerreira e militarista, baseada na expansão territorial e na dominação de povos estrangeiros com base na força bruta. É inegável o paralelo entre a estratégia norte-americana e a estratégia dos Césares, dado o predomínio da força bruta e do poderio militar. Algo que o cientista político norte-americano Joseph Nye denominaria de exercício efetivo do hard power.

No entanto, argumenta Luttwak no referido artigo, nem sempre a afirmação dos interesses de uma nação – ou de um império – pode ser obtida exclusivamente pelo uso exclusivo da via militar. Inclusive, se esta for usada sem parcimonia e cálculo, ela pode significar o ocaso de um Império – e o declínio e a derrocada de Roma é a maior prova histórica da fragilidade dessa estratégia. Daí, o autor argumentar que os atuais dilemas vividos pelo Império Americano serem melhor equacionados a partir de um exame mais minucioso dos recursos estratégicos utilizados pelos basileis – plural de basileus, como eram denominados os monarcas bizantinos.

O Império Bizantino, cuja capital era Constantinopla – atualmente Istambul, capital da Turquia – foi o remanescente da queda do Império Romano do Ocidente, tomado pelas invasões bárbaras de hunos, godos, vandalos, francos e germanicos. Apesar de estar situado em um território prá lá de explosivo (já naquela época!), entre o Crescente Fértil, os Balcãs, a região do Caúcaso e o Leste Europeu, Bizancio conseguiu sobreviver durante oito séculos, até a sua queda em 1453 frente aos árabes. Seu segredo residia na combinação criativa e extremamente entre o hard power (recursos militares) e o soft power (recursos economicos e culturais).

Ou seja, a virtude bizantina repousava na negação dos princípios imperiais romanos: onde residia a força bruta, havia a diplomacia dos acordos; onde havia o conflito aberto, abria-se espaço para o suborno e o incentivo ao dissenso entre as fileiras inimigas; onde existia a luta aberta e franca, entrava em jogo o conluio de interesses, a “guerra fria”, a manipulação dos adversários e até mesmo dos aliados. Persuasão, pensamento estratégico, dados de inteligencia, doutrinas táticas, suborno, cisões e dissensos, tudo isso fazia parte do arsenal tático da realpolitik de Bizancio…

Em seu último livro, intitulado The Grand Strategy of the Byzantine Empire (2009), Luttwak elenca os princípios que guiavam a ação estratégica do típico basileus e estrategistas bizantinos. São eles:

1. Evite a guerra ao máximo, mas esteja sempre preparada para ela. Prontidão, preparação e treinamento são elementos fundamentais para a consecução desses objetivos. A elevada predisposição para o combate reduz a possibilidade de deflagrar o conflito;

2. Colete dados dos seus inimigos (armas, recursos, táticas, doutrinas, formas de pensar e de agir), e monitore suas ações constantemente;

3. Lute com vigor, tanto ofensiva quanto defensivamente, mas evite grandes batalhas – exceto em circunstancias muito favoráveis. Use a força em pequenas doses para persuadir aqueles que são suscetíveis a ela, e atingir aqueles que não são suscetíveis ao seu poder;

4. Troque guerras prolongadas de ocupação por ações de manobra rápidas, que desestruturem o moral do seu adversário, e depois retire-se. Lembre-se: o objetivo não é destruir os seus adversários, pois eles podem se aliar a voce amanhã. É melhor ter muitos inimigos, porém divididos e enfraquecidos, pois é possível manipulá-los e jogá-los uns contra os outros;

5. A diplomacia é mais importante na guerra do que na paz. Busque encerrar uma guerra recrutando aliados que possam alterar o equilíbrio de poder. Os aliados mais úteis são aqueles mais próximos dos seus inimigos, pois eles o conhecem com propriedade e profundidade. Rejeite o aforisma: “quando as armas falam, os diplomatas se calam”;

6. A subversão é o caminho mais barato para a vitória. Ela é tão mais barata que a guerra, que deve ser sempre tentada, mesmo com aqueles inimigos que parecem os mais difíceis e irreconciliáveis. E lembrem-se: como a experiencia bizantina demonstrou, até mesmo fanáticos religiosos podem ser “comprados” ou subornados; e, por fim,

7. Quando a diplomacia e a subversão forem ineficazes, use táticas que minem o adversário, buscando consumar as suas forças e sua disposição para lutar, explorando suas limitações e fraquezas, minando-o lentamente e abatendo o seu moral. Lembre-se: isso requer tempo e paciencia.

Mas, ao fim e ao cabo, no pain, no gain. Afinal, nações mudam, os ventos sopram em outras direções, as circunstancias sofrem alterações, e os líderes vem e vão… Exceto os impérios que, dependendo da habilidade tática e da visão estratégica do lìder, podem perdurar por séculos e séculos…
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  1. André
    outubro 15, 2010 às 2:32 pm

    Olá amigo, interessante artigo.

    Também gosto muito de historia, principalmente da antiga. Estou com uma dificuldade, e creio que talvez poderá me ajudar. Gostaria de saber nomes de obras literarias bizantinas, seus livros mais famosos. Há muito pouco disso na internet e nos livros onde pesquisei.
    Ficarei grato se puder me ajudar.

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