NAS BANCAS, A EXAME ANGOLA

Em um mundo globalizado, onde as oportunidades comerciais, políticas e culturais dão a tônica, é importante que os brasileiros tenham idéia do que acontece ao nosso redor. Até porque, como o mundo é cada vez mais sistêmico, o que acontece em outros países ou em outros continentes certamente terá impacto na dinâmica de funcionamento da nossa economia. A crise financeira global do final de 2008 está aí para nos provar a existência do chamado “efeito borboleta”: o bater de asas de uma borboleta em Taiwan pode, por exemplo, ter implicações na dinâmica climática da África, ou até mesmo do Brasil…
Falando em África, são evidentes os laços culturais entre o Brasil e os países da África subsaariana – em especial, os de língua portuguesa e os situados na costa atlântica do continente. Música, manifestações culturais, religião, costumes, culinária e moda são alguns dos pontos de contato entre estas sociedades, definidas como melting pots ou “cadinhos culturais” – cujas práticas culturais são o fruto de um longo processo de entretecimento histórico de inúmeras contribuições de diversos povos, etnias, costumes e tradições.
Nem é preciso lembrar que, desafortunadamente, um dos elementos que possibilitou essa convergência cultural entre o Brasil e a África foi o comércio de escravos – um dos momentos mais infames da história dessa região -, e que proporcionou o trânsito desses elementos entre as duas margens do Oceano Atlântico.
Em uma figura de linguagem que considero extremamente feliz e bem construída, o diplomata Alberto da Costa e Silva – uma das maiores autoridades em África do nosso país – escreveu um livro cujo título que ilustra com muita propriedade o trânsito de produtos e elementos culturais entre as duas regiões. Trata-se do livro Um rio chamado Atlântico: a África no Brasil e o Brasil na África (Rio de Janeiro: Nova Fronteira/Editora UFRJ, 2003). Trata-se, sem dúvida, de uma belíssima indicação bibliográfica para o meu curioso leitor que deseja se aprofundar um pouco mais na temática das relações entre o Brasil e o continente africano…
Dentre os países do continente africano, são óbvias as ligações entre o Brasil e os países de língua portuguesa – Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau. Dentre esses, Angola destaca-se não apenas pela proximidade dos laços culturais, mas também pela pujança econômica que o país vive desde o final da Guerra Civil (que durou de 1975 a 2002), que destroçou essa ex-colônia portuguesa rica em diamentes, minérios e hidrocarbonetos. Aliás, são justamente esses últimos recursos energéticos – petróleo e gás – que estão impulsionando o crescimento do país, tornando-o um verdadeiro “canteiro de obras” a céu aberto. Destaca-se também o crescimento do investimento chinês na região em obras de infra-estrutura, construção civil e agricultura.
A despeito da queda do preço do barril do petróleo e a crise econômica global, que levaram inclusive que os organismos internacionais projetassem indicadores bastante pessimistas para a economia do país, as perspectivas atuais para o crescimento do PIB angolano para 2010 são extremamente otimistas: enquanto o governo angolano prevê um crescimento econômico da ordem de 8,2%, órgãos internacionais como FMI e o Banco Mundial projetam um crescimento da 9,3% e 6,5%, respectivamente. Já prestigiada revista britânica The Economist projeta para 2010 uma expansão do PIB da ordem de 5,5%.
No entanto, Angola é um país com seríssimos problemas econômicos, políticos e sociais. Primeiro, é um país cuja economia é afetada pelas flutuações mundiais dos preços das commodities minerais – principal produto de sua pauta de exportação -, o que certamente é um fator gerador de instabilidade econômica. Segundo, é um país onde não há alternância de poder desde o final da Guerra Civil em 2002, agravado pela corrupção que é um elemento endêmico da estrutura política do país. Além disso, Angola possui indicadores de renda e sociais tenebrosos quando o assunto é: má distribuição de renda, taxas de analfabetismo, índices de natalidade, mortalidade e expectativa média de vida da população, isso sem falar numa das grandes chagas do continente africano, que é o grau de infestação do vírus HIV/AIDS na população. Isso sem falar numa elite política extremamente corrupta, predatória e plutocrata. Ou seja, algo que nós brasileros conhecemos muito bem…
Tudo isso não tira o encanto, a complexidade e a riqueza da África. É para lá que as atenções do mundo estarão voltadas em junho/julho de 2010, com a realização da Copa do Mundo de Futebol na África do Sul, certamente o maior evento esportivo do planeta. E, para que possamos olhar o continente africano de uma forma diferenciada daquela que é difundida pela mídia de massa global – onde a África é alcunhada de “o continente esquecido” -, é digno de registo a publicação em terras brasileiras do primeiro número da revista Exame Angola, ocorrido em dezembro do ano passado. A revista é fruto de um contrato de licenciamento entre o grupo Media Nova e a Editora Abril, que é dona da revista Exame, uma das revistas de negócios de maior circulação no Brasil.
Apesar de algumas matérias repetidas das edições brasileiras, a Exame Angola traz matérias inéditas – e bastante interessantes – que dissecam os mais variados setores produtivos da economia do país, além de entrevistas com políticos, executivos e empreendedores do país. É um belo mergulho na economia de um país que, apesar de tão perto – é logo ali, do outro lado do Atlântico -, ainda é bastante desconhecido pela grande maioria dos brasileiros.

Para quem quiser dar uma olhada na publicação, basta visitar o site http://www.exameangola.com/web/
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