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… E A TRADIÇÃO SENDO REINVENTADA EM PORTUGAL

No entanto, engana-se quem acha que os portugueses estão voltando às costas para as suas tradições! Afinal, existe tradição maior do que os rótulos que adornam os seus tradicionais produtos? Quem não se lembra de embalagens como a latinha dourada do Azeite Gallo, as garrafa de vinhos verdes como Casal Garcia, Cavalinho e Acácio? Isso sem falar no onipresente Galo de Barcelos – símbolo nacional e que, por sinal, tenho um em minha escrivaninha, junto com uma caravela, uma Torre de Belém, um Mosteiro dos Jerônimos, um astrolábio…

Algumas empresas estão caminhando na contramão dessa tendência de modernização das embalagens, e estão reforçando os tradicionais símbolos dos produtos portugueses, onipresentes nos armazéns de “secos e molhados” da primeira metade do século XX. Pelo menos, esse é o caso da cadeia de lojas A Vida Portuguesa, fundada em maio de 2007 em um armazém centenário no Chiado – tinha de ser lá!

A iniciativa, empreendida pela jornalista Catarina Portas, se baseia na pesquisa, criação, desenvolvimento e comercialização de produtos tracionais portugueses, outrora considerados ultrapassados e símbolos de estagnação, agora envolvidos em uma aura retrô-chique extremamente charmosa, delicada e de bom gosto. Não apenas os produtos em si, mas também as próprias lojas são pensadas para proporcionar ao cliente que lá adentra a maior experiência possível das raízes da lusitanidade – um país, aliás, extremamente diferente para os europeus, dadas suas especificidades culturais e de costumes, além do apego de seu povo às suas tradições.

Estão lá expostos marcas portuguesas tradicionais: por exemplo, o azeite Triunfo, o café Brasileira, o chá Gorreana, as conservas Tricana, o limpa metais Coração, a pasta dentrífica Couto, os sabonetes Ach. Brito e Confiança, o lápis Viarco, além de objetos decorativos e de artesanato como as andorinhas, os bordados de Viana do Castelo, objetos de funilaria, os tradicionalíssimos azulejos portugueses, imagens de santos, dentre outros que vão sendo adicionados ao portfólio de produtos após uma meticulosa pesquisa. A Vida Portuguesa também vende kits e caixas dos seus produtos, o que torna a loja uma opção bastante popular para presentear parentes e amigos em qualquer ocasião.

A filosofia da empresa, exposta em seu site na internet, é bastante simples: vender produtos antigos em suas embalagens tradicionais. A proposta se baseia na “vontade de inventariar as marcas sobreviventes no tempo, a intenção de revalorizar a qualidade da produção portuguesa manufacturada e o desejo de revelar Prortugal de forma surpreendente”. Interessante, não?

A princípio, nada tão decadente quanto os sentimentos de nostalgia e de saudosismo – impossível, nesse ponto, não se lembrar das senhoras de vestido preto, em suas ladainhas chorosas, maldizendo a todos e a imperfeição do mundo. No entanto, se olharmos por um outro ângulo, tal proposta de valor é extremamente interessante e inovadora. Afinal, em tempos de globalização, de pasteurização mercadológica e do imperativo estilo de vida norte-americano, nada mais gauche, nada mais original, nada mais against do que apelar à tradição, a tudo aquilo que nos remete as raízes culturais de um povo ou de uma nação. Ao tocar os recônditos de nosso inconsciente coletivo ao utilizar marcas que tocam o nosso coração, despertam o nosso sentimento de familiaridade, é óbvio que experiências emocionais e identitárias mais profundas emergem em nossa mente. Daí, como afirma e empresa em seu site, “esses produtos são nossos, esses produtos somos nós”.

N’ A Vida Portuguesa, é possível encontrar produtos de apelo nostálgico como perfumes, sabonetes, relicários, flores de sal, além dos onipresentes azeites e souvenirs típicos. Segundo a proprietária Catarina Portas, a idéia, além de remeter à identidade nacional, era a de preservar a manufatura portuguesa que caminhava a passos largos para a extinção. O design ingênuo e divertido das embalagens das décadas de 1920, 1930, 1940, 1950 e 1960, além do óbvio apelo emocional, reforçam o vínculo afetivo do consumidor com as suas próprias raízes. Em um mundo onde tudo muda em altíssima velocidade, encontrar embalagens e marcas familiares representam um oásis de segurança, de confiança e de familiaridade. Aliado a tudo isso, some-se o preço barato, o que tornou a loja um destino obrigatório para qualquer visitante em terras lisboetas.

O negócio deu tanto certo, que a loja virou um verdadeiro point. A loja foi eleita uma das 10 mais criativas e originais da capital portuguesa pela revista Time Out. Além do mais, sua clientela é a mais ampla e democrática possível: a casa é frequentada por senhoras portuguesas tradicionais, turistas ávidos por comprar até ficarem “duros”, jovens moderninhos e descolados, e até mesmo por estudantes secundaristas atraídos pela beleza da loja, das suas estantes, dos aromas, cores e gostos dos produtos lá exibidos…

No Brasil, um caso semelhante é o adotado pela Loja Granado – uma farmácia tradicional da época do Segundo Reinado, e que reúne estas características de tradição e inovação em uma roupagem retrô-chique, exposta em sua loja conceito no centro da cidade do Rio de Janeiro. A sua linha de produtos de beleza, toucador, perfumaria e cuidados do corpo, pele e cabelo das marcas Granado e Phebo, além de serem um tremendo sucesso, estão em plena consonância com a proposta da loja portuguesa. Para quem não for a Portugal num futuro próximo, aconselho uma visita à loja da Granado no Rio de Janeiro para entender um pouco melhor o conceito e a proposta de valor por trás desse modelo de negócios que pode ser altamente rentável…

Voltando ao caso luso, a valorização das tradições portuguesas (produto, ambientação e embalagem) ganhou uma roupagem nova, um tratamento de sofisticação a fim de reposicionar a idéia de tradição pura e simples. Não é à toa que Portas comercializa também os seus produtos em lojas de design e de museus, por considerá-los verdadeiras obras de arte decorativas. O zelo com a embalagem, com a apresentação dos produtos e com a sua arrumação nas prateleiras denuncia a necessidade de um alinhamento constante entre a proposta de valor e a experiência de entrega ao cliente, desde o momento em que ele vê a loja da rua, até a sua entrada no recinto, sua respectiva navegação, e seu check-out. Não é por acaso que suas duas lojas em Portugal – uma em Lisboa e outra no Porto – estão localizadas em armazéns centenários, o que reforça todo o conceito ao redor da marca. Ou seja, o grande barato é criar no visitante uma verdadeira experiência lusitana sem que isto seja sinônimo de algo bolorento, feio, velho, sem graça, encarquilhado…

Para a sua dona, A Vida Portuguesa gira em torno do conceito de “comércio delicado”, isto é, o “respeito pelo produto, embalagem e pela história que existe atrás da marca”. O sucesso é tão grande, que os seus produtos estão em outros destinos sofisticados como Barcelona e a loja do MoMa, em Nova York.

Em suma, quem diria que os produtos que os meus avós se usavam se transformariam em ícones de sofisticação e de bom gosto? Em produtos de apelo fashion, cool e trendy?

Como diria Lavoisier, “na natureza nada se cria, tudo se copia e se transforma”. Coisas dessa enorme roda que é o mundo, que gira, transforma, recupera, resignifica e nos devolve as coisas ao nosso redor…
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