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Archive for fevereiro \27\UTC 2010

E A CLASSE A VAI AO PARAÍSO…

Sem dúvida alguma, o segmento “queridinho” dos estrategistas de negócios e dos profissionais de marketing é a over-presente classe C. Tanta atenção tem sido dedicada a esses consumidores nos últimos anos, que acaba-se por não se discutir com maior profundidade as transformações que estão ocorrendo nos demais segmentos de renda da nossa sociedade. E, se pensarmos bem, as coisas também mudam no andar de cima da piramide…

A classe A brasileira – os nossos “ricos” – abrange o conjunto de famílias que possuem rendimentos mensais acima de 20 salários mínimos – algo a partir de 10,2 mil reais. Segundo pesquisa realizada pela MB Associados, publicada no jornal O Estado de S. Paulo, desde 1998 que o número de famílias deste tipo ultrapassou o patamar de 1 milhão e, a despeito da crise economica que afetou em cheio os rendimentos dos segmentos mais favorecidos economicamente, este número continua crescendo. Desde 2003, o número de unidades familiares da classe A aumentou cerca de 48%, isto é, 303.553 famílias brasileiras atingiram o topo da cadeia alimentar. Isso dentro de um escopo onde 1,146 milhão de famílias ascenderam para a classe B (com renda entre 10 a 20 salários mínimos), e 7,72 milhões subiram para a classe C (rendimentos entre 3 a 10 salários mínimos).

No entanto, o percentual de famílias de classe A no Brasil ainda mantém a sua distribuição de anos anteriores, isto é, estas abrangem apenas cerca de 1,9% das unidades familiares em nosso país. Isso se justifica pelo fato de que, como decorrencia direta da crise, cerca de 10 mil famílias desceram para o patamar de renda da classe B. Vale lembrar que a classe A é um agregado de consumo heterogeneo e diversificado, abrangendo diferentes perfis de consumidores tais como profissionais liberais, consumidores emergentes (conhecidos como “novos ricos”) e consumidores tradicionais de artigos de altíssimo luxo. Evidentemente que, com os efeitos minorados da crise, a classe A recuperou sua renda durante o ano de 2009, só que em menor proporção do que o observado na classe C.

A prova da força das famílias da classe A é a pujança do consumo de bens de luxo. A KitchenAid, marca de eletrodomésticos de luxo que está no Brasil desde 2008, possui uma expectativa de crescimento das vendas em torno de 70% para 2010. A joalheria H. Stern também obteve uma expansão de 15% de suas vendas em 2009. Shoppings centers voltados para esse segmento de consumo sofisticado também estão sendo lançados, como o Village Mall, no Rio de Janeiro, localizado na Barra da Tijuca, e ao lado do Barra Shopping. E o mercado de carros esportivos de luxo também está bastante aquecido. Por exemplo, em 2003, a Porsche vendeu 76 automóveis no país, passando para 753 unidades comercializadas em 2008 (um salto nas vendas 10 vezes maior). Com a crise em 2009, as vendas caíram cerca de 26,5%, mas em 2010 a expectativa é que a empresa comercialize cerca de 620 automóveis da marca.

A título de informação, a distribuição das famílias brasileiras por renda está da seguinte forma: 1,9% na classe A, 5,5% na classe B e 32,6% na classe C.

A GRANDE ESTRATÉGIA DO IMPÉRIO BIZANTINO

fevereiro 27, 2010 1 comentário
Quem me conhece mais amiúde, sabe: sou um aficcionado por história, especialmente por história antiga. Estudar livros de história é, para mim, além de um delicioso hobby, uma maneira de compreender melhor a dinamica de funcionamento dos atores envolvidos naquele período, entender o seu funcionamento mental, bem como vislumbrar como a nossa subjetividade atual é forjada a partir do lento e complexo processo da sedimentação e entrecruzamento de diversas práticas sociais que tiveram origem em tempos remotos. Nesse sentido, é extremamente instrutivo estudar a história de civilizações antigas como a Mesopotamia, o Egito, a Grécia, Roma, os celtas, os germanicos, os persas, os cartagineses, os fenícios, dentre inúmeras outras. Isso só pode ser fruto de uma mente foucaultiana, engendrada em meio a livros de nouvelle histoire, com uma pitada de jogos de linguagem wittgensteinianos…

É com esse espírito que, quase sempre, me deparo com textos extremamente instigantes que me levam a pensar com profundidade sobre temas como a natureza da guerra, a paz, o conflito de interesses e sua respectiva resolução. Um deles, que foi publicado no famoso periódico Foreign Policy do final de 2009, é de autoria do historiador e estrategista norte-americano Edward Luttwack. O texto, intitulado “Take Me Back To Constantinople”, discute que a saída para o atual impasse americano no Oriente Médio e no AfPaq (o codinome para Afeganistão – Paquistão) deve ser buscado nos livros de história, ou melhor, nas lições do Império Bizantino. Ou seja, para os Estados Unidos, a solução para o impasse é: mais Bizancio, menos Roma!

Como é que é? Explica melhor isso…

Luttwak é um escritor polemico, autor de livros como The Grand Strategy of the Roman Empire (1976), The Grand Strategy of the Soviet Union (1983) e Turbo-Capitalism (1999). Sua obra é marcada por uma grande preocupação com as estratégias utilizadas pelos grandes impérios na defesa dos seus interesses. Do Império Romano, ele observou uma estratégia guerreira e militarista, baseada na expansão territorial e na dominação de povos estrangeiros com base na força bruta. É inegável o paralelo entre a estratégia norte-americana e a estratégia dos Césares, dado o predomínio da força bruta e do poderio militar. Algo que o cientista político norte-americano Joseph Nye denominaria de exercício efetivo do hard power.

No entanto, argumenta Luttwak no referido artigo, nem sempre a afirmação dos interesses de uma nação – ou de um império – pode ser obtida exclusivamente pelo uso exclusivo da via militar. Inclusive, se esta for usada sem parcimonia e cálculo, ela pode significar o ocaso de um Império – e o declínio e a derrocada de Roma é a maior prova histórica da fragilidade dessa estratégia. Daí, o autor argumentar que os atuais dilemas vividos pelo Império Americano serem melhor equacionados a partir de um exame mais minucioso dos recursos estratégicos utilizados pelos basileis – plural de basileus, como eram denominados os monarcas bizantinos.

O Império Bizantino, cuja capital era Constantinopla – atualmente Istambul, capital da Turquia – foi o remanescente da queda do Império Romano do Ocidente, tomado pelas invasões bárbaras de hunos, godos, vandalos, francos e germanicos. Apesar de estar situado em um território prá lá de explosivo (já naquela época!), entre o Crescente Fértil, os Balcãs, a região do Caúcaso e o Leste Europeu, Bizancio conseguiu sobreviver durante oito séculos, até a sua queda em 1453 frente aos árabes. Seu segredo residia na combinação criativa e extremamente entre o hard power (recursos militares) e o soft power (recursos economicos e culturais).

Ou seja, a virtude bizantina repousava na negação dos princípios imperiais romanos: onde residia a força bruta, havia a diplomacia dos acordos; onde havia o conflito aberto, abria-se espaço para o suborno e o incentivo ao dissenso entre as fileiras inimigas; onde existia a luta aberta e franca, entrava em jogo o conluio de interesses, a “guerra fria”, a manipulação dos adversários e até mesmo dos aliados. Persuasão, pensamento estratégico, dados de inteligencia, doutrinas táticas, suborno, cisões e dissensos, tudo isso fazia parte do arsenal tático da realpolitik de Bizancio…

Em seu último livro, intitulado The Grand Strategy of the Byzantine Empire (2009), Luttwak elenca os princípios que guiavam a ação estratégica do típico basileus e estrategistas bizantinos. São eles:

1. Evite a guerra ao máximo, mas esteja sempre preparada para ela. Prontidão, preparação e treinamento são elementos fundamentais para a consecução desses objetivos. A elevada predisposição para o combate reduz a possibilidade de deflagrar o conflito;

2. Colete dados dos seus inimigos (armas, recursos, táticas, doutrinas, formas de pensar e de agir), e monitore suas ações constantemente;

3. Lute com vigor, tanto ofensiva quanto defensivamente, mas evite grandes batalhas – exceto em circunstancias muito favoráveis. Use a força em pequenas doses para persuadir aqueles que são suscetíveis a ela, e atingir aqueles que não são suscetíveis ao seu poder;

4. Troque guerras prolongadas de ocupação por ações de manobra rápidas, que desestruturem o moral do seu adversário, e depois retire-se. Lembre-se: o objetivo não é destruir os seus adversários, pois eles podem se aliar a voce amanhã. É melhor ter muitos inimigos, porém divididos e enfraquecidos, pois é possível manipulá-los e jogá-los uns contra os outros;

5. A diplomacia é mais importante na guerra do que na paz. Busque encerrar uma guerra recrutando aliados que possam alterar o equilíbrio de poder. Os aliados mais úteis são aqueles mais próximos dos seus inimigos, pois eles o conhecem com propriedade e profundidade. Rejeite o aforisma: “quando as armas falam, os diplomatas se calam”;

6. A subversão é o caminho mais barato para a vitória. Ela é tão mais barata que a guerra, que deve ser sempre tentada, mesmo com aqueles inimigos que parecem os mais difíceis e irreconciliáveis. E lembrem-se: como a experiencia bizantina demonstrou, até mesmo fanáticos religiosos podem ser “comprados” ou subornados; e, por fim,

7. Quando a diplomacia e a subversão forem ineficazes, use táticas que minem o adversário, buscando consumar as suas forças e sua disposição para lutar, explorando suas limitações e fraquezas, minando-o lentamente e abatendo o seu moral. Lembre-se: isso requer tempo e paciencia.

Mas, ao fim e ao cabo, no pain, no gain. Afinal, nações mudam, os ventos sopram em outras direções, as circunstancias sofrem alterações, e os líderes vem e vão… Exceto os impérios que, dependendo da habilidade tática e da visão estratégica do lìder, podem perdurar por séculos e séculos…

CRISE? SÓ SE FOR EM OUTRO LUGAR…

Em Marketing, muito se fala do “efeito batom”: a capacidade de resistencia do setor de cosméticos frente à situações de crise economica. Em tempos de crise, é um truísmo comum entre os executivos afirmar que as pessoas podem diminuir o seu padrão de consumo, mas sem descuidar da sua aparencia. Isso se justifica pelo fato de que o investimento em beleza e em cuidados de si é um reflexo do instinto de auto-estima. Além, é claro, de ser uma alento que o consumidor oferece para si mesmo, um belo exemplo de comportamento de auto-indulgencia…

A Natura, uma das maiores empresas brasileiras do setor, parece ser um caso exemplar dessa máxima. A companhia, conhecida no mercado pela sua imagem de sustentabilidade e de responsabilidade ambiental que permeia todos os seus produtos, superou os problemas dos anos anteriores e apresentou resultados expressivos em 2009. A empresa obteve um lucro líquido de 683,9 milhões de reais – um crescimento de 32,1% em comparação ao ano de 2008. No disputado setor de cosméticos, a empresa também obteve um crescimento do seu market share: 22,1% em 2009, contra 21,4% em 2008. Num mercado tão “oceano vermelho” quanto o de cosméticos, qualquer décimo é uma vitória e tanto…

Como se isso tudo não bastasse, a empresa também atingiu um patamar recorde no quesito número de consultoras: estas representam um universo de 1 milhão de revendedoras, uma alta de 21,8% e o maior na série história da companhia. Com o perdão do trocadilho, trata-se do mais bem sucedido programa de transferencia de renda após o Bolsa-Família!

CRISE? QUE CRISE?

fevereiro 26, 2010 2 comentários
Enquanto os países do Hemisfério Norte se ressentem dos efeitos da crise, aqui pelos lados tórridos do Hemisfério Sul a coisa parece ser uma miragem, tamanha a sua existencia longínqua. Basta uma simples olhada nos resultados obtidos pelos maiores bancos brasileiros no ano de 2009 – um ano terrível para o segmento bancário no mundo inteiro, exceto para os sediados em território tupiniquim…

Os números são deveras eloquentes, e os meus caros leitores podem imaginar o porque destas instituições ganharem tanto dinheiro em pleno furacão que foi o mercado financeiro no ano passado. Olhem só:

1) Banco do Brasil – lucro líquido de 10,15 bilhões de reais (!!!!), um crescimento de 15,3% em relação a 2008. Foi o maior resultado do sistema financeiro brasileiro de todos os tempos até agora !!!!

2) Itaú Unibanco – lucro líquido de 10,06 bilhões de reais, um crescimento de 29% (!!!!) em comparação aos números de 2008.

3) Bradesco – em um patamar de lucratividade menor em comparação aos seus concorrentes, obteve um lucro líquido de 8 bilhões de reais em 2009 (!!!!!!), um salto de 5,1% em relação ao ano passado.

4) Santander Banespa – também lucrou bastante: 4,4 bilhões de reais em 2009 (!!!!), um salto de 58,1% em comparação a 2008.

Antes que os meus leitores me acusem de ter má vontade para com estas nobres instituições, lembro a todos que bancos obtém sucesso na desgraça das pessoas: quanto mais endividadas, inadimplentes, “enforcadas” e atoladas em dívidas elas se encontram, melhor para eles! E os bancos são conhecidos como grandes “exterminadores” de trabalhadores – leia-se, responsáveis por demissões maçicas de pessoal…

É caso para uma profunda reflexão, não acham??? Afinal, porque o setor bancário lucra tanto no país???

A CRISE NA UNIÃO EUROPÉIA (3): ESPANHA

Continuando a série sobre a recessão econômica no bloco europeu, hoje o país a ser discutido é a Espanha. A Espanha é um dos países que mais sofreu os impactos da crise econômica e financeira global do final de 2008. Isto tem levado a população do país a um estado atual que é um misto de letargia e perplexidade diante das condições de vida cada vez mais hostis e austeras…

Diferentemente de seu vizinho de Península Ibérica, a economia espanhola é muito mais moderna, vibrante e diversificada, em função da presença de arranjos produtivos locais que espelham diferentes realidades regionais. A Espanha deve ser entendida muito menos como um bloco indiferenciado, e muito mais como uma federação de estados com culturas, línguas e estruturas sociais próprias. O país é um mosaico colorido e diversificado de povos, etnias e marcações culturais específicas.

Neste complexo mosaico convivem, por exemplo, uma Galícia agrária e de raízes celtas, com um País Basco marcado pela indústria pesada e pela siderurgia. Enquanto Madrid é o centro econômico-financeiro do país, Barcelona é sinônimo de sofisticação, europeidade, urbanidade e arrojo arquitetônico. Isso sem falar no introspectivo e explosivo flamenco gestado na região de Valencia – sem falar na sua maravilhosa culinária e suas “teterías” – e a exuberancia solar da região da Andaluzia que, a cada visita a antigas mesquitas, palácios e fortificações, nos lembram que a Europa é em grande parte forjada também pela herança da arquitetura e da culinária moçárabes. Enfim, a Espanha é um belíssimo e fascinante caleidoscópio onde, a cada giro, novas nuances se abrem ao olhar atento do visitante…

No entanto, essa alegria contagiante não corresponde à situação econômica atual, que é desesperadora. Com a crise de 2008, a bolha imobiliária do país explodiu – sim, ela não era uma exclusividade norte-americana! Cerca de 25% dos espanhóis pagam hipoteca, e a dívida em créditos hipotecários está acima de €678 bilhões. Ou seja, um em cada 3 espanhóis tem dificuldades para honrar as suas dívidas, e mais da metade deles possuem tres ou mais empréstimos bancários.

Segundo pesquisas do Instituto Nacional de Estatísticas, realizada entre 2007 e 2008, o número de famílias que tinham perdido as suas habitações superava a cifra de 1 milhão e meio! O país possui uma das maiores dívidas externas do mundo, que compromete cerca de 65,9% do seu PIB. Para piorar, a taxa de desemprego encontra-se no patamar de 20% (uma das maiores entre os países desenvolvidos), atingindo 44% só entre a população mais jovem, isto é, a mais apta e disposta a trabalhar.

O resultado disso tudo é muito dramático: famílias despejadas de suas casas, filas nos guiches dos programas governamentais de auxílio desemprego, um número cada vez maior de pessoas se alimentando em restaurantes populares ou até mesmo buscando ajuda em instituições de caridade, geralmente mantidas pela Igreja Católica – instituição que tem uma forte presença no país. O número de famílias inadimplentes é da ordem de 114 mil, e que sofrem uma perda progressiva de seu padrão de vida: primeiro, perdem o emprego; segundo, tornam-se inadimplentes; por fim, perdem as suas casas. Ou seja, uma funesta e destrutiva espiral!

Aliás, uma observação: quando se fala em Espanha, não existe meio-termo! Tudo nela é superlativo, dramático, hiperbólico…

A CRISE NA UNIÃO EUROPÉIA (2): PORTUGAL

Continuando a série sobre a crise econômica que assola a União Européia desde o segundo semestre de 2008, o país analisado hoje é o da terra dos meus avôs e avós, e que eu amo de paixão: Portugal. Junto com a Espanha, esse país situado na extremidade do continente europeu – e que os romanos denominavam de “finnisterrae”, ou seja, algo como “o fim do mundo” – é considerado o primo pobre da União Européia.

Portugal é um dos países mais “atrasados” do bloco europeu em termos econômicos, dada a baixa diversidade de sua atividade produtiva. Os vinhos, a azeitona, o azeite de oliva e a cortiça são conhecidos no mundo inteiro por serem produtos típicos de sua pauta de exportação. Além disso, o país é um grande importador e exportador de produtos para o bloco europeu – o que é, ao mesmo, sua virtude e sua principal fragilidade comercial, haja visto a crise econômica atual que assola o continente. Sua mentalidade “lusitana” e “ibérica” é um tanto o quanto exótica para os seus vizinhos franceses, alemães e ingleses, mas bastante conhecida por nós brasileiros. Afinal, nós fomos colônia de Portugal durante séculos…
A entrada do país na antiga Comunidade Econômica Européia (atual União Européia) – que ocorreu em 1986, durante o governo socialista de Mário Soares – representou um verdadeiro surto de euforia para os meus patrícios. De uma hora para outra, o dinheiro jorrou na economia portuguesa: shoppings e edifícios comerciais e residenciais foram construídos a “toque de caixa”, obras de infra-estruturam coalharam o seu diminuto território (rodovias e ferrovias), e os meus patrícios literalmente foram “às compras”. Gastaram horrores em eletroeletrônicos, automóveis, casas, livros e turismo, tornando Portugal “a menina dos olhos” do continente. No entanto, como tudo na vida é passageiro, a crise veio e hoje a minha querida terrinha está sofrendo bastante com os problemas da economia européia…
Evidentemente que, comparado à situação grega, não se pode dizer que a economia portuguesa está em estado crítico. No entato, a situação é bastante grave e uma simples caminhada pelas ruas de Lisboa atesta o fato de que a crise calou fundo na alma do lisboeta. O déficit público explodiu, passando de 2,8% em 2008 para 9,3% em 2009, muito em parte pela necessidade de aporte de recursos do estado para movimentar a combalida economia do país. O desemprego também assusta: a taxa está acima dos 10%.
Medidas drásticas estão sendo tomadas pelo governo português, tais como o corte dos gastos públicos, a redução do salário do funcionalismo público e até mesmo uma reforma do cálculo da aposentadoria. Ou seja, medidas prá lá de impopulares…
Nessas horas, além das explicações econômicas e políticas de praxe, apela-se até mesmo para justificativas de cunho psicosocial. Fala-se muito do baixo empreendedorismo do português em geral, e sua pouca disposição para trabalhar, comparando-se aos imigrantes de outros países – aqui cabe um parêntesis pois, quando fora do seu país, o português trabalha muito, algo bastante similar ao que acontece com o imigrante brasileiro.
Especialmente em setores de serviços e de atendimento ao público – que historicamente são bem menos remunerados – nota-se a presença maciça de imigrantes brasileiros nestes postos de trabalho. E, todas essas observações são fruto tanto da minha visita ao país no ano passado, quanto da série de conversas que mantive com professores, intelectuais, empreendedores e até mesmo pessoas comuns nos congressos, nos bares, nos restaurantes, no metrô, no comboio, no eléctrico, nos auto-carros…

A CRISE NA UNIÃO EUROPÉIA (1): A GRÉCIA

Está feia a coisa pros lados do Hemisfério Norte desde o segundo semestre de 2008, e parece que tão cedo a coisa irá voltar para o seu patamar anterior. E, parece que no caso da União Européia, a bola da vez é a Grécia

País com milênios de história, um dos berços da civilização ocidental e muito bonito de se ver – é um dos sonhos de consumo turísticos desse Escriba que vos fala -, a coisa está bastante esquisita pro lado dos gregos. A Grécia tem um déficit público monumental da ordem de 12,7% – quatro vezes mais que o teto máximo permitido pelas autoridades da União Européia (!!!!). Em termos numéricos, o drama se desenha com os seguintes números: o país tem reservas de €7 bilhões para uma dívida de €300 bilhões(!!!). Ou seja, qualquer inepto em finanças como eu sabe que essa conta não fecha nunca. A pergunta que não quer calar, dessa maneira, é a seguinte: quem vai pagar as contas do rombo das finanças gregas? Ou melhor, qual autoridade européia que vai colocar a “corda no pescoço” para auxiliar as combalidas contas gregas?
Eis o “remédio amargo” que as autoridades européias querem passar para os gregos: que a Grécia reduza o seu déficit público de 12,7% para 3% em 2012(!!!). Ou seja, o país vai passar fome, enquanto nenhum responsável deve ser responsabilizado por isto – não é só aqui no Brasil que ninguém vai para a cadeia…
O roteiro que levou a esse estado de coisas terrível é típico de uma “tragédia grega” – e, desde já, peço desculpas os meus leitores helenistas pelo trocadilho infame: inchaço dos gastos públicos, aumento da folha de pagamento do funcionalismo estatal, financiamentos obtidos com planos de negócios deslavadamente mentirosos além, é claro, de muita, mas muita corrupção! O resultado, como sempre, irá penalizar a população do país que, diga-se de passagem, ganhou muito pouco com a “farra do boi” criada após a entrada da Grécia na União Européia, em 2001…
Para piorar, França e Alemanha – que também estao mal das pernas – estão cobrando a adoção dessas medidas amargas por parte das autoridades gregas para resolver a questão do déficit público no país. O resultado disso tudo é que os gregos estão desgostosos de pertencer à União Européia, desencantados com a política e com tudo que os cerca. Ou seja, algo que nos é muito familar quando, todos os dias, abrimos os jornais para ler, ou então prestamos atenção nas manchetes dos noticiários televisivos…
Como desgraça pouca é bobagem, toda essa tempestade ocorre em um contexto onde a previsão de crescimento da economia grega para 2010 é da ordem de 0,5%.
Daqui há pouco, os gregos terão de vender a Acrópole para saldar as suas dívidas. Lamentável que isso esteja acontecendo em um país tão importante, belo e acolhedor como esse…