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SESSÃO DE CINEMA – "AMOR SEM ESCALAS"


“Amor sem Escalas” (Up In The Air, 2009), do diretor norte-americano Jason Reitman – o mesmo do inteligente “Obrigado por Fumar!” e do belíssimo “Juno” – é o típico caso de um título ridículo que esconde uma excelente história. Ou seja, muita gente entra no cinema achando que vai ver uma comédia romântica do tipo “água-com-açúcar”, e acaba se deparando com um filme denso, metafórico e profundamente existencial, porém sem ser chato ou demasiado filosófico.

O roteiro, baseado no livro homônimo de Walter Kim, é baseado na rotina de Ryan Bingham (George Clooney, numa excelente interpretação). Ele é um profissional das más-notícias, isto é, um “pau mandado” contratado para exercer o pior dos ofícios humanos: demitir pessoas da maneira mais profissional e cirúrgica possível evitando, assim, processos judiciais prolongados e onerosos à empresa contratante. Ou seja, trata-se de um típico anti-herói que desperta a antipatia de qualquer espectador que tenha um pouco de sangue correndo em suas veias…

No entanto, apesar do ofício cruel, Bingham é um personagem deliciosamente interessante. Seu estilo de vida baseia-se em uma filosofia existencial no mínimo exótica, ancorada no conceito de desapego afetivo à pessoas, objetos ou qualquer coisa que possa imobilizar ou comprometer a liberdade de movimentos. Além disso, nas horas vagas, é um palestrante motivacional de relativo sucesso, cuja apresentação intitula-se “esvaziando a mochila”, onde ele advoga sua filosofia da pura mobilidade existencial em troca do mínimo envolvimento possível. Como ele vive viajando de avião sem parar (qualquer semelhança com esse Escriba que vos fala não é mera coincidência!), seu objetivo de vida é um só: acumular o maior número de milhas possíveis nos inúmeros programas de fidelidade nos quais ele é cadastrado: hotéis, companhias aéreas, restaurantes, locadoras de automóveis and so on. Sua vida se resume a uma mera atividade de coleta de pontos sem qualquer objetivo mais concreto ou palpável, pelo menos em um exame inicial…

Sua vida é um eterno frêmito, o de pular de cidade em cidade, entrar e sair de aviões (daí o título da película), demitir pessoas sem dó nem piedade – sempre ouvindo os maiores desaforos e impropérios -, sem perder o sorriso debochado e auto-comiserativo de seu rosto. Seu grande barato é colecionar milhas, cartões de fidelidade, entrar em guichês preferenciais e usufruir dos “mimos” que tais empresas oferecem aos pobres-coitados que passam grande parte das suas vidas em trânsito – como diria o antropólogo francês Marc Augé, em não-lugares

Como numa das cenas do filme, o protagonista se vangloria de ter passado 342 dias viajando, e apenas 23 “miseráveis” dias no tédio de sua casa…

No entanto, a vida da personagem sofre uma reviravolta quando duas mulheres cruzam o seu destino: a jovem e ultra-competitiva executiva Natalie Keener (Anna Kendrick, numa interpretação hilariamente histriônica e afetada), que ameaça o seu emprego ao criar um novo método de demissão, e a independente e auto-suficiente Alex Goran (Vera Farmiga), uma versão de “saias” de Bingham, que assina embaixo da sua cartilha de mobilidade, desapego e descompromisso total.

A despeito dos diálogos geniais eivados de humor sardônico e altamente corrosivo – uma marca do diretor, diga-se de passagem -, “Amor sem Escalas” é um filme sério, um retrato extremamente grave e pesado dos impactos da crise financeira global do final de 2008 na vida corporativa norte-americana. A quantidade de demissões, via processos de reestruturaçao corporativa, provoca enormes impactos na vida dos demitidos – coisa pouco dita e explorada em um mundo onde se dá ênfase apenas ao sucesso, onde pessoas são comparadas à tubarões, e o fracasso sempre é visto como uma fraqueza de caráter, um indicativo de falha moral. As inúmeras falas das personagens na parte final do filme chamam a atenção do espectador para esse momento, um dos momentos mais graves da recente história econômica norte-americana.

Além disso, a película é uma bela reflexão acerca do estilo de vida difundido pelo capitalismo contemporâneo, baseado única e exclusivamente no sucesso material, da ode à ultracompetição que marca a vida corporativa, somada ao individualismo elevado à enésima potência que inviabiliza qualquer tipo de relacionamento – seja ele amoroso, afetivo ou pessoal – mais duradouro e consistente.

Em resumo, “Amor sem Escalas” é uma história de vidas em altíssima rotação, que quase nunca se tocam, onde não há espaço para remorsos, auto-comiseração ou qualquer outro tipo de amarras sentimentais. É uma história de sonhos desfeitos, de encontros inesperadamente amargos, onde indivíduos são demitidos por vídeoconferência, relacionamentos são desfeitos a partir de mensagens de texto de celular, pessoas são motivadas a não se apegarem à nada e à ninguém. Daí, a metáfora da mochila vazia que tanto encanta, envolve e atormenta o nosso protagonista…

Como eu falei no início desse post, trata-se de um filme belíssimo, denso, onde a imensidão dos quartos e lobbies de hotéis, os enormes vãos de concreto das salas de embarque dos aeroportos, os toques de celular, as poltronas de couro da classe executiva, os carrões destinados aos campeões dos programas de fidelidade, tudo isso pode ser entendido como um simples mecanismo de escape da solidão, representada por um solitário drinque bebido em um bar vazio, uma insônia em uma enorme cama vazia, em direção a uma vida sem viço onde a correria do cotidiano serve apenas para nos lembrar o quão a nossa vida se esvai pelos nossos dedos, como grãos de areia em uma praia isolada e distante.

Desculpem o pessimismo meus complacentes leitores, mas o envelhecimento traz, além de sabedoria, medo, tristeza e desesperança. Aliás, essa última sempre foi minha companheira, e sinto que ela vem se agigantando nos últimos tempos. Sign o’ the times…

“Amor sem Escalas” é um filme sobre encontros e desencontros, sobre o quanto a vida pode ser fútil, e o quanto é insustentável um projeto existencial baseado na insuportável leveza do ser. É ver para rir, para chorar, para se emocionar e, principalmente, para se refletir sobre a nossa atual condição existencial. Sobre como um sem número de indivíduos constrói as suas vidas a partir do mais puro e simples hiato, dos interstícios entre as inúmeras ausências que teimam em aparecer em nosso horizonte de expectativas. Aliás, existe coisa mais bela e reflexiva do que a beleza de um lago parado, inerte, imóvel?
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Categorias:Arte, Cinema, Entretenimento
  1. Tatiana Claro
    janeiro 29, 2010 às 8:26 am

    Li seu scrap no orkut sobre esvaziar a mochila e percebi que certamente haveria algum comentário bastante interessante sobre o filme…Há tempos que não assistia uma película que realmente me tirasse do lugar (lembro de alguns como 'A pequena Miss Sunshine' ou 'Invasões Bárbaras', mas são + antigos).A tradução do título para o português (Up in the air),como acontece em boa parte das vezes, faz com que se pense numa outra possibiliade de filme… What a shame!Achei o filme sensacional e sua crítica idem. Só faltou falar da trilha sonoro do filme que é um show à parte.Penso também que o filme fala de escolhas, opções de não se viver de forma pré-determinada. Bingham fez a dele, uma escolha diferente daquela que se espera em nossa sociedade(ainda que em algum momento do filme ele creia que tenha que mudar). Melhor, pior? Não sei. Talvez apenas diferente.Bjs e saudadesTati Claro

  2. José Mauro Nunes
    janeiro 29, 2010 às 9:57 am

    É por justamente o filme falar sobre escolhas, algo um tanto o quanto difícil para todos nós, que o o filme é belíssimo. E o mais legal é que o protagonista, mesmo pregando uma filosofia do desapego, se vê surpreendido quando ele também faz uma opção…A trilha sonora realmente é um barato. Ela me lembra muito a música de "Juno", outro filme do diretor. Afinal, estamos falando de uma trilha sonora quase toda acústica, e que privilegia a imensidão dos espaços percorridos, os vãos de concreto dos aeroportos, as recepções de hotéis. É muito lindo!E que bom que vc. comentou, pois assim diminui um pouco a saudade, e encurta as distâncias!Um beijo

  3. Rodrigo Alves de Oliveira
    fevereiro 18, 2010 às 4:38 am

    Ola…
    Hoje assisti o filme Amor sem Escalas sozinho, uma coisa nao muito normal no meu dia a dia, mas incrivelmente pertubadora, visto que se trata de um filme que retrata exatamente esse universo de escolhar no decorrer de nossas vidas. Li outras cirticas sobre o filme e algumas discutiam sobre o foco do desapego, do nao peso em mochilas, do nao se ter vinculos e por ai vai. Confesso que ao sair do cinema e conversar com minha namorada, da qual ja havia visto o filme e relatava ter adorado, fiquei um pouco intrigado sobre o porque uma mulher de 32 anos, separada, com um filhe de 7 anos e com um bom emprego gostara tanto de um filme que relata a vida de uma pessoa vazia de relacoes e e cheia de nao projetos fututros a nao ser o de nao ter porjetos… Falei ao telefonema com minha namorada, um afrase quase que sem pensar mas que no momento era mesmo o que queria dizer ” sou mais romantico do que o filme”, parei pra pensar no havia dito e resolvi deixar pra depois e agora lendo criticas, comentarios e relatos sobre o filme, percebi que no minimo o filme nos faz pensar e se eh esse o intuito do cinema, esse filme no meus caso correspondeu ao que veio…. Sobre a minha reflexao sobre o filme ser bom ou ruim juntamente com minha namorada, estou com medo de saber se eu sou um parenteses ou uma nova tentativa de dividir uma vida com outra pessoa…. Eu mais uma vez admito que entro no relacionamento pra encher mesmo a mochila e se ela ficar pesada nao eh por que eu enchi demais mas sim por quem esta dentro dela nao esta me ajudando mais… ou seja, se nos atermso ao prioma de que tudo que vivemos ou temso de historias cabe em uma mochila, estamos fados ao pensamento de que tudo eh pesado e da nos ajuda, viveriamso entao ou sobreviveriamos? Proponho uma mudanca de metafora….. minha historia nao cabe em uma mochila e sim em um barco, quem me ajudar a remar ficam quem for peso vai ser deixado no mar…

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