TALK ABOUT THE iGENERATION

Uma das características da Sociedade do Conhecimento é o excesso de informação, produzido e disponibiizado a partir do uso intensivo das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs). Esse acúmulo de informação não apenas desperta nos individuos um sentimento de obsolescência genrealizada, mas também proporciona uma profunda experiência de descartabilidade de informação, aumentada pela aceleração e liquefação do cotidiano. Utilizando um jargão que é muito comum nas hostes do marketing, o ciclo de vida de qualquer informação está se tornando ridiculamente mais curto. E a saída para a commoditização de qualquer produto, inclusive a informação, é apenas uma: inovação, inovação e inovação!

No que toca a essa questão, muitas empresas estão investindo pesado na criação de novos aparelhos e plataformas que possibilitem a produção, consumo e difusão dessa informação cada vez mais commoditizada. Por exemplo, os netbooks – minicomputadores que se situam a meio caminho dos notebooks, tablets e smartphones – se tornaram a sensação para quem almeja mobilidade sem limites. Nesse mesmo caminho, muitas empresas apostam no conceito de mobilidade atrelado aos smartphones – o iPhone da Apple, o BlackBerry da RIM e o recém-lançado Nexus, do Google, são alguns exemplos -, e o futuro aponta para o crescimento exponencial do tráfego de dados pela internet a partir de telefones celulares e os seus gadgets inteligentes. O que importa agora não é apenas uma design atraente e elegante, uma tela touch screen e uma câmera com zilhões de megapixels, mas também um aparelho que possibilite ao usuário estar conectados a mais diferentes redes sociais virtuais e às ferramentas de comunicação instantânea.

Na outra ponta do espectro de inovação, os e-readers ganham força com o lançamento da nova versão do Kindle (Amazon), e de seus rivais como o Nook (Barnes & Nobles), o Reader (Sony) e o Cool-er (comercializado no Brasil pela livraria virtual Gato Sabido). Apostando na convergência entre notebooks, netbooks, smartphones e e-readers, a Apple (sempre ela!) estará lançando amanhã o seu tablet, e promete criar mais um novo “oceano azul” de mercado – assim como o fez com o iPod e o iPhone. Enfim, a quantidade de inovações para possibilitar o maior acesso dos consumidores à grande rede deve crescer em muito nos próximos anos, e certamente as nossas formas futuras de acesso ao conteúdo digital deverão ser completamente diferentes das que atualmente dispomos.

Mas, qual o impacto dessa avalanche de inovações nos indivíduos? Além dos sentimentos de obsolescência e descartabilidade, podemos mapear outros tipos de impactos que as inovações tecnológicas proporcionam nos seus usuários?

Em artigo publicado na edição do domingo passado no Estado de S. Paulo, o articulista Brad Stone (do The New York Times) discute que uma das implicações mais significativas dessa avalanche de informações não é apenas o de acelerar a ruptura generacional, mas também o de proporcionar “fraturas” ou “microrupturas” dentro de uma mesma geração – isto é, o de criar uma série de hiatos entre microgerações.

Por geração, entendemos ciclos civilizacionais maiores, cuja duração varia de 10 a 20 anos. O conceito de geração foi criado por demógrafos, cientistas sociais e profissionais de marketing, cujo objetivo era o de descrever clusters de consumidores que compartilhavam determinadas características atitudinais e comportamentais peculiares, e que facilitassem tanto a segmentação de mercado quanto a mensuração do potencial de consumo desses mercados específicos. O conceito de geração facilita em muito o trabalho de segmentação de mercado, bem como o trabalho de criação e desenvolvimento de um produto específico, além de seu respectivo posicionamento. Daí, a nomenclatura que até hoje seduz e encanta esses profissionais, e que estão presentes em suas apresentações em Power Point. Afinal, estamos diante dos Boomers, dos Xers, da geração Y, da Net Generation

Em seu artigo, Stone afirma que a ruptura entre as microgerações dar-se-ia a partir da criação e difusão dessas novas tecnologias. Por exemplo, a minha geração – identificada como Migrante Digital, composta por indivíduos que só tomaram contato com os computadores e a internet durante o início de sua vida adulta – teria uma dificuldade muito maior de lidar com a telefonia móvel e as redes sociais, por exemplo, algo que seria absolutamente corriqueiro para a Geração Net. No entanto, continua Stone, a criação ininterrupta de novos gadgets tecnológicos proporcionaria a aceleração dessas ruptura dentro de uma única geração – nesse caso específico, dentro do grupo dos Nativos Digitais ou Geração Y, composta por indivíduos que tomaram contato com as TICs e a internet durante o final da infância e o início da adolescência.

A visão de mundo das crianças mais novas, certamente, será plasmada por essas novas tecnologias como os smartphones, o Skype, os tablets e e-readers, assim como as redes sociais como FaceBook e Orkut – além, é claro, dos joguinhos virtuais como Colheita Feliz e Farm, que são o atual vício da criançada, da molecada e até mesmo de adultos jovens. Coisa que, por exemplo, para a minha geração não faz o menor sentido!

Diferenças de três a quatro anos entre irmãos estão se agigantando em função da difusão dessas novas tecnologias. Em minhas turmas, é muito comum o relato dos meus alunos, recém-saídos da adolescência, de não entenderem o comportamento de seus irmãos mais novos. Por exemplo, uma das alunas que integra o meu grupo de pesquisa não consegue entender como o seu irmão adolescente passa horas a fio na frente do computador, jogando RPGs on-line do tipo multiple players

Isso fica claro quando pais e filhos, ou então irmãos mais velhos, estabelecem interfaces com os mais jovens. Para uma criança, uma tela de toque do tipo touch screen é algo absolutamente natural aos seus olhos, e não raro estas são pegas passando o dedo nas telas dos notebooks dos seus pais, esperando algum uma reação que se assemelhe a obtida quando navegam na rede em seus iPhones

A título de ilustração, segundo estudo da Pew Research, adolescentes não apenas enviam mais mensagens de texto do que os jovens adultos (68% contra 59%), como também têm uma maior predisposição a jogar jogos online em comparação a estes últimos (78% contra 50%).

Tal ruptura levou os pesquisadores a estabelecer uma diferença entre a Geração Net (nascida nos anos 1980), e a iGeneration (os nascidos entre as décadas de 1990 e 2000). E as rupturas entre eles são consideráveis. Neters são usuários intensivos de e-mails e de telefones celulares, enquanto os integrantes da iGeners preferem programas de comunicação instantânea (MSN, Google Talk, e o recém-nascido das cinzas ICQ) e as redes sociais, do que escrever e enviar e-mails (algo absolutamente em desuso, e que o próprio Google está tentando suplantar com o lançamento de sua plataforma Wave). Além disso, esses últimos possuem um senso de urgência e instantaneidade agravado pelo ritmo frenético da inovação tecnológica. Não é à toa que um dos maiores ícones do iGeners é o Twitter: seus tweets são curtos, rápidos, breves, econômicos e instantâneos…

As características marcantes da iGeneration, além dos sensos de urgência e instantaneidade, são: a impaciência frente a qualquer tipo de obstáculo, demora ou atraso; a incrível capacidade multitarefa (a que permite ao iGener realizar várias coisas ao mesmo tempo como, por exemplo, navegar no Google, twittar, bater-papo no MSN, baixar uma música e jogar Warcraft online, tudo ao mesmo tempo); e a necessidade premente de socialização e de exposição de sua privacidade no meio digital.

Essa geração, certamente, utiliza as TICs – e principalmente, as redes sociais – como veículos de expressão de seus pontos de vista e opiniões, customizando a sua experiência no uso dessas ferramentas. Se as gerações mais velhas utilizavam as cartas e os livros como veículos de expressividade de suas crenças, valores, gostos e opiniões, os iGeners preferem outras ferramentas de expressão e de veiculação como o Twitter, o FaceBook, o MySpace, o MSN, o Orkut, os blogs, os fotoblogs e os podcasts. São as TICs a serviço dos vetores subjetivos de expressividade e de individualização. E quem diria que a tecnologia poderia ser expressiva, e não homogeneizante e misantrópica?

Enfim, estamos diante de uma geração que está cada vez mais conectada o tempo todo, e que também é extremamente versátil, criativa, expressiva, porém impaciente, irritável, dispersa e com una noção absolutamente fluida e permeável de privacidade.

Quem analisa tecnologia e seus efeitos, como esse escriba que vos fala, sabe que ela traz coisas boas e ruins ao mesmo tempo, implica em ameaças e oportunidades. E, mais do que isso, quem foi que falou que nós podemos escolher apenas a parte boa do pacote? Infelizmente, ou se leva o pacote inteiro, com o que há de bom e ruim inclusive, ou então não se leva nada… ou pior, se joga fora a água de banho com o bebê junto!

Um conselho para quem quer se aventurar na seara desse tipo de questão: No pain, no gain!
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  1. agosto 19, 2010 às 6:34 pm

    Boa Professor.
    Adaptação é a palavra.

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