VINHO?!?!?! NO JAPÃO?!?!?!


Os estudiosos da problemática da globalização e cultura já gastaram muitos bits discutindo o quanto o Japão, nos últimos anos, foi acometido por um processo significativo de “ocidentalização” dos hábitos e costumes de sua sociedade. No entanto, um olhar mais detido sobre esta revela que tal processo não se reduz a uma mera substituição de práticas sociais tradicionais de origem xintoísta e feudal, mas sim muito mais um processo dinâmico e complexo de absorção, transformação e coexistência destas com formas e estilos de vida provenientes das sociedades ocidentais. Basta ver os jovens japoneses e suas formas um tanto o quanto exóticas de ser vestir, de se comportar e de agir para se ter uma idéia do quão complexificado é esse processo.

O País do Sol Nascente é considerado um grande mercado consumidor quanto o assunto é vestuário, produtos tecnológicos e artigos de luxo. Cadeias de vestuário norte-americanas e grifes de luxo européias constituem o universo de aspiração de marcas por parte dos japoneses, o que por si só justifica o fato dos grandes conglomerados empresariais desses segmentos manterem operações sólidas no país, a despeito da severa crise que atingiu em cheio a economia dos países do Hemisfério Norte e da região. Definitivamente, apesar da “capa” de coesão social e de uma cultura baseada no ideal coletivista, a sociedade japonesa é uma colcha de retalhos deveras complexa, não permitindo reducionismos de qualquer espécie.

Em termos gastronômicos, a culinária japonesa é admirada no mundo inteiro por suas pequenas, porém fartas e coloridas porções, a base de peixes e outros frutos do mar (lulas, polvos, camarões e outros), e utilizando ingredientes um tanto o quanto exóticos para o paladar ocidental (mas nem tanto como no caso das culinárias chinesa e coreana). Particularmente, sou um fã da cozinha do sol nascente – um apreciador inveterado de sushis e sashimis – a despeito da minha total inabilidade no manejo dos hashis (os famosos “pauzinhos”). Nem sempre se pode acertar tudo…

Isso sem falar no tradicionalíssimo chá, elixir gastronômico que vem despertando a atenção de gourmets do mundo inteiro dadas as suas propriedades antioxidantes e benéficas à saúde. Diferentemente do chá inglês, que é mais escuro, encorpado e feito com folhas fermentadas, os chás japoneses – brancos e verdes – são mais leves, delicados, suaves e com sutilezas marcantes de sabor. Nesse sentido, o chá japonês assemelha-se a delicadeza de um ikebana ou de um bonsai, minimalista porém sem perder sua complexidade representada pelo denso e introspectivo ritual japonês do serviço do chá…

Pois bem, essa mesma terra também produz spirits de alta qualidade como saquês e uísques de malte. Agora, os produtores japoneses resolveram investir em um novo mercado: o da vitivinicultura, com a produção de vinhos finos e secos, cuja qualidade vem crescendo a olhos vistos a cada ano que passa.

A principal região produtora dessa nova safra de vinhos japoneses situa-se em Yamanashi, aos pés do Monte Fuji, onde se concentra cerca de 90% da produção do país. Lá são cultivadas castas européias como a Chardonnay. Mas, a grande aposta dos produtores japoneses é a casta autóctone Koshu, uma uva grande, de coloração branco-rosada, que produz vinhos frutados, com pouco corpo e de baixo teor alcóolico (por volta de 10%, enquanto que um Cabernet Sauvignon chileno pode chegar até 13,5% de concentração alcóolica).

Assim como a sociedade, a culinária japonesa é uma mescla de texturas delicadas e sabores sutis dos pescados com o vigor e a força de temperos como o shoyu e a raiz forte – uma síntese do princípio ying-yang. Assim como ocorre no caso de molhos à base de pimenta e de mostarda, tais temperos são um enorme desafio para quem se arrisca a dura tarefa de harmonizar os pratos com o vinhos, uma vez que os primeiros tendem a anular o segundo – o sabor no palato é por eles completamente alterado. Apesar de ser um verdadeiro quebra-cabeças, muitos sommeliers sugerem que vinhos ácidos e frutados como os elaborados com as uvas Riesling, Sauvignon Blanc, Chardonnay e Torrontés são bons acompanhamentos para as delicadas lâminas de sashimi e o colorido exuberante dos sushis.

Os produtores japoneses estão apostando na harmonização dos pratos de sua saudável e atrente com os vinhos elaborados com a uva Koshu. Eu, particularmente, nunca degustei nenhum vinho japonês (espero um dia podê-lo), mas garanto que da próxima vez que eu me dirigir a um “japa” desses da vida, vou experimentar uma harmonização com um vinho branco da casta Riesling, por exemplo. Afinal, só petisca quem arrisca…

Arigatô! Sayonara!
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