OS GAULESES SE RENDEM AO FAST-FOOD

Que qualquer crise econômica altera padrões e hábitos de consumo, isso é ponto pacífico. Agora, que a crise financeira global iniciada no segundo semestre de 2008 foi uma verdadeira tsunami no mundo desenvolvido, isso também é indiscutível! Basta ver as recentes pesquisas de mercado feitas na Europa e nos EUA que indicam alterações drásticas nos padrões de consumo e costumes por parte dos indivíduos e famílias dessas regiões…

A França é talvez um dos países mais resistentes do mundo (salvo alguns países islâmicos mais radicais) à cultura americana, a globalização e a padronização de comportamentos imposta pela Economia do Conhecimento e pelas Tecnologias da Informação e Comunicação. Pátria com uma história deveras contraditória, berço de heróis celtas como Vercingetórix que resistiram bravamente à conquista da Gália pelos romanos capitaneados por Júlio César, os gauleses são conhecidos, dentre outras inúmeras qualidades, pela extrema sofisticação e requinte quando o assunto envolve as artes gastronômicas.

Desde o maneirismo inovador e pedante da nouvelle cuisine française, passando pela deliciosa comida dos bistrôs e brasseries espalhados pelos arrondissements parisienses até chegar na excepcional culinária da Provence e da região do Midi – isso sem falar na patissêrie que enche os olhos de um “tarado por açúcar” como esse Escriba que vos fala – a França é a pátria da boa comida, dos bons perfumes, da moda, das excelentes sobremesas e dos excepcionais vinhos e destilados.
Só de pensar nos maravilhosos vinhos das regiões de Bordeaux e Bourgogne, nos excepcionais champagnes e nos revigorantes e digestivos cognacs, armagnacs e calvados, minha mente entabula devaneios enogastronômicos que, confesso, me deixam fora de órbita. Nessas horas, só mesmo a máxima do famoso abade Dom Pérignon que, conta a lenda, ao degustar o vinho espumante produzido na região de Champagne, afirmou estar “bebendo estrelas”!
Pois bem, esta mesma França, pátria da gastronomia de alto luxo e dos famosos restaurantes seis estrelas e do prestigiado Guia Michelin, finalmente está se redendo aos prazeres “menores” da alimentação rápida e do fast-food. Sacrilégio? Heresia? Final dos tempos? Fim da cultura “slow food”, tão decantada pelos gauleses?
O problema é que, assim como o restante da Europa, a França foi atingida em cheio pela crise econômica mundial. A funesta combinação entre desemprego elevado, desempenho econômico medíocre e estagnação econômica na União Européia levou aos gauleses a modificarem um dos hábitos mais arraigados de consumo, que é o do apuro gastronômico. O resultado disso é que cadeias de fast food como McDonald’s, Burger King e KFC vêm apresentando taxas de crescimento elevadas desde o início da crise no país do bleu, blanc, rouge…
Engana-se, porém, aqueles que acham que fast food necessariamente rima com comida de péssima qualidade, altamente calórica e prejudicial à saúde. Como os franceses são muito criativos e ciosos de sua identidade nacional, vários chefs de cuisine famosos estão lançando sofisticados estabelecimentos de “restauration rapide”. Dentre eles, destacam-se os dois restaurantes Ouest Express, que são administrados por Paul Bocuse. O menu (prato principal, bebida e sobremesa) varia de 6 a 10 euros, e o cardápio é composto por iguarias como ravioli de salmão e o hambúrguer “César Classic”.
Outro chef renomado, Alain Ducasse, abriu duas lojas de sanduíches na capital francesa (Be Boulangérpicier e Café Be), onde os preços variam entre 4 a 10 euros. A sanduícheria Miyou, do chef Guy Martin, serve saladas e sanduíches cujos preços também são em conta.
Além do preço mais em conta, os pesquisadores apontam outros dois fatores que levam à ascensão do fenômeno “alimentação rápida”: a aceleração da vida cotidiana, que leva à diminuição do tempo dedicado à refeição, e o nomadismo da geração mais jovem, o que justifica os chefs estarem mais atentos à oferta de produtos que possam ser degustados na mão, no balcão ou levados para casa.
Em contraposição às frituras e as porções “super-mega-extra-large” das cadeias norte-americanas, os chefs franceses servem essas refeições em porções menores elaboradas com ingredientes frescos, locais e preparados com o típico esmero e requinte francês.
Afinal, quem disse que comer rápido é não comer bem? Os franceses é que o digam…
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  1. Thaís Tostes
    dezembro 23, 2009 às 9:11 pm

    Para ilustrar, ainda mais o texto, não poderia deixar de lembrar de um tenista que admiro tanto e já deu várias voltas por cima, André Agassi. Ele Conquistou quase 60 títulos e é um dos quatro tenistas da história a vencer todos os torneios que integram o Grand Slam (Wimbledon, Roland Garros, US Open e Aberto da Austrália). Casou, em 1997 e logo depois da união vieram os desentendimentos, coincidindo com uma má fase nas quadras. No mesmo ano de 1997, Agassi caiu em depressão e acabou recorrendo às drogas. Mais precisamente, maconha e metanfetamina. Felizmente essa história terminou bem, Agassi retornou as quadras, a sua melhor forma, conquistou títulos e encerrou a carreria em 2006.

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