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SESSÃO DE CINEMA – "FADOS"











As peripécias desse Escriba que vos fala em terras celtíberas-suevas-lusitanas não se esgotou quando do meu retorno ao Brasil, há cerca de três semanas atrás, após uma semana memorável. Portugal, locus de minhas raízes, não é fácil de se afastar. Pelo contrário, trago o país, o seu povo, a sua gente e os seus costumes em meu sangue, em meu pensamento, em meu coração. Apesar de brasileiro, e amar a terra onde vivo, não é nada simples esquecer que, no distante outro lado do Atlântico, é que repousam as minhas origens. Tenho essa sensação todos os dias, a todo o instante, a todo o momento. Talvez seja por isso que o suave olor da maresia está sempre a me acompanhar, assim como o gosto da água salgada que permeia os meus lábios, todas as vezes que sinto uma profunda nostalgia de ter deixado a minha terra natal…

Para mim, luso que teimo em não ser, um porto é um lugar feérico por excelência; afinal, há algo mais continental, mais denso, mais íntimo do que o porto que nos tornamos? Ou será que inventamos viagens apenas pelo puro prazer de, ao final, retornar ao ancoradouro de nossas almas? O nosso eu, penso cá com os meus botões, é apenas uma baía calma e protegida, cujas águas cálidas e plácidas nos abrigam desse imenso e majestoso oceano que cabe no pequeno espaço dos nossos corpos…

Todas as vezes que sinto um gosto salgado na boca, é porque tenho uma tremenda saudade de mim mesmo – e de tudo aquilo que amo, prezo e venero. A lembrança de um tempo antigo onde o mundo era mais simples, as emoções eram à flor da pele e não precisávamos tanto de posar como super-homens me é extremamente fascinante. Daí, talvez, cidades com grande peso histórico e com um certo teor de decadência me atraiam tanto – dentre elas, Lisboa e Buenos Aires, as que mais conheço e admiro…

Portugal me assedia, e eu não consigo me livrar de Portugal, tenho de humildemente confessar! Nesta semana que se finda, impossível não acorrer ao cinema e assistir a última película do consagrado cineasta espanhol Carlos Saura. Apesar de ter sido lançado em 2007, e só agora ser exibido no circuito comercial brasileiro, uma obra de arte nunca se esgota, nunca envelhece, pois sempre rejuvenesce. Especialmente os filmes de Saura, onde o lirismo das imagens e a beleza da fotografia é superlativa por si só…

Fados (2007), é uma continuação da série de documentários “viso-musicais-coreográficos” que o diretor vem empreendendo com maestria tendo como tema a música da latino-luso-ibérica. Foi assim com as películas anteriores, os magistrais Bodas de Sangue (1981), Carmen (1983), Flamenco (1985), Tango (1998) e Iberia (2005).

Assim como os seus “irmãos” samba e o tango, o fado é um ritmo tipicamente urbano, nascido nas classes mais pobres, em meio à cafetões, prostitutas e “inferninhos”, com músicas que tocam à fundo na alma, a cantar as desesperanças, as desilusões, os amores desfeitos, a melancolia sem fim, a dureza da vida. Afinal, como diria o maestro Tom Jobim, o samba nasce da tristeza, e a felicidade tem fim…

Fados é de uma beleza indescritível, apesar de ser capaz de gerar enfado no espectador que porventura não seja um apreciador da musicalidade e da riqueza poética de uma dessas maravilhas que Portugal produziu para o mundo. Nesta película, Saura casa com extrema felicidade, beleza e poesia os instrumentos típicos, o canto saudoso e doído com a dança e a expressão corporal dos bailarinos-atores que se sucedem ao longo do filme. Não me surpreende em nada afirmar que Fados é uma obra-prima das artes plásticas, dada a beleza dos closes nos rostos de cada intérprete, a riqueza das vestes e o jogo multifacetado dos espelhos que o diretor já tinha explorado com maestria em suas películas anteriores.

Tradição e novo, antigo e contemporâneo, metrópole e colônia, Portugal e seus vizinhos, todos se irmanam e se entrecruzam no filme. A saudosa Alfama das casas de fado e a belíssima Mouraria com seu quê de Santa Teresa, miradoiros bucólicos e eléctricos a quase triscar as paredes do casario estão lá, presentes nas vozes de intérpretes consagrados do quilate de uma Amália Rodrigues, de um Carlos do Carmo e de um Alfredo Marceneiro. A juventude lusa repousa nos “duelos” travados nas cenas gravadas na famosa Casa dos Fados, na Alfama (envolvendo Vicente da Câmara, Ana Sofia Varela e Pedro Moutinho). A africanidade das colônias está no rap (SP & WIlson e NBC), na world music (Lila Downs) e nos folguedos típicos das ilhas, reminiscências de um passado que nos lembra até onde os portugueses chegaram com suas naus no passado. A herança entre metrópole e colônias está na belíssima voz da moçambicana Mariza, e na emocionante interpretação de Chico Buarque do seu “Fado Tropical” (escrito em parceria com Ruy Guerra), tendo ao fundo cenas projetadas da Revolução dos Carvos. Tocante, pungente, inesquecível …

Também há outras cenas memoráveis no filme. Como, por exemplo, Carlos do Carmo entoando o fado Lisboa enquanto cenas do cotidiano da capital portuguesa são projetadas nos telões. Ou então, o dueto entre a moçambicana Mariza e o espanhol Miguel Poveda na canção Meu Fado, mostrando o quão próximos são estes dois países, seus povos, sua cultura, sua culinária e sua música. Ou então nas cenas de arquivo com imagens de Amália Rodrigues, a fadista-mor. Ou então, na dança pagã das mulheres ao redor da fogueira, ou da fadista cantando a história da fadista morta ao som de um realejo irlandês. Típicas lembranças de um passado pagão na Península Ibérica, e que a cristandade tentou apagar mas não conseguiu…

A se lamentar, a participação inexpressiva do brasileiro Tony Garrido, com uma vozinha mixuruca e uma interpretação prá lá de afetada. Absolutamente desnecessária. E também não gostei nem um pouco da participação do Caetano Veloso…

Tudo isso são pequenos deslizes frente à beleza que é o fado, visto pelas lentes de Carlos Saura. Quem puder, veja! Quem não puder ir ao cinema, depois compre ou alugue o DVD. Mas não percam a oportunidade de assistí-lo, pois ajuda a compreender o tamanho da herança lusa em nossa identidade, corpos e mentes.

Agora, silêncio! Pois, como diria Amália Rodrigues, agora se vai cantar o fado…
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