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… E O REVERSO

Um dos exemplos de políticas públicas criativas e inovadoras voltadas para o ensino médio é o Conexão Educação, uma iniciativa da Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro, que terá início a partir do dia 1 de setembro próximo.
Com um custo inicial de R$ 200 milhões, o programa visa conectar online toda a rede estadual de ensino, isto é, integrar em rede todas as cerca de 19.380 salas de aula das escolas estaduais presentes em 92 municípios do estado. Todas elas terão, em cada sala, um computador conectado a internet banda larga com um leitor ótico acoplado. Os alunos, por seu turno, receberão um cartão eletrônico com chip e foto, e todas as informações escolares serão carregadas em seus identificadores – desde notas em provas e presenças em sala de aula, até observações sobre o seu comportamento e indicadores disciplinares.
Ao entrar em sala de aula, o aluno deverá passar o seu cartão no leitor ótico, tornando disponível para o docente as informações escolares de cada um presente na sala de aula. Como se isso não bastasse, os professores estão sendo estimulados a alimentar essas informações semanalmente no banco de dados, a fim de que se crie um verdadeiro histórico dos alunos da rede estadual de ensino – na linguagem tecnológica, um grande repositório de dados sobre os alunos da rede estadual. Nesse sentido, pode-se dizer que a tecnologia, finalmente, está chegando à sala de aula…
O problema, como acontece com a introdução de qualquer tecnologia, envolve os usos – bons, nefastos e desnecessários – destes recursos para o aprimoramento do trabalho dos professores, gestores educacionais, planejadores, pais e alunos. A exposição excessiva de informação pessoais e a falta de privacidade levantam dilemas éticos urgentes, e certamente medidas nesse sentido devem ser tomadas a fim de coibir o excesso ou o uso espúrio dessas informações. Por outro lado, a produção e atualização de informações online sobre indicadores acadêmicos, de desempenho, disciplinares e comportamentais dará um upgrade de nível nas iniciativas educacionais – o que é importantíssimo -, além de um incremento no processo de planejamento, acompanhamento e intervenção educacionais.
Certamente, os “barbudinhos”, xiitas e críticos à esquerda irão ver nesta iniciativa mais um capítulo do ataque neoliberalista no âmbito educacional. Afinal, e nisto eu concordo, há um significativo perigo de se criar em sala de aula um verdadeiro Big Brother. Inclusive, quando o aluno ultrapassar um determinado número de faltas, será enviado um tropedo para o celular dos pais ou responsáveis informando o fato. Ou seja, acabou a moleza para os gazeteiros e loroteiros de plantão…
É preciso dizer que esta iniciativa high-tech teve início com a distribuição de 53 mil notebooks com conexão banda larga para os professores da rede estadual de educação. Além disso, toda a gestão educacional do estado é atualmente feita online. Por fim, todas as escolas da rede foram equipadas com laboratórios de informática e acesso à Grande Rede, instalando tanto uma base física quanto uma cultura de uso que possibilita otimizar a utilização dessas novas ferramentas.
Tudo isso é muito interessante mas, como eu falei acima, os usos devem ser definidos de maneira clara a fim de coibir excessos e abusos de todos os tipos. Entretanto, não deixa de ser irônico o fato de que, definida como espaço de libertação e crítica, a escola torne-se cada vez mais parecida com um panóptico virtual – a diabólica máquina de controle engendrada pelo filósofo utilitarista do século XVII Jeremy Bentham, e que foi imortalizada pela magistral análise dos instrumentos sociais de controle, disciplina e poder feita por Michel Foucault, em sua grande obra Vigiar e Punir.
Será que, finalmente, a escola tornar-se-á uma engrenagem no processo de criação de corpos dóceis e disciplinados? Só o futuro irá dizer, e estaremos acompanhando aqui no PRAGMA o desenvolvimento desse programa. Mas, afirmo, tudo que venha a sacudir o atual marasmo em que se encontra a educação brasileira é visto com bom grado por esse Escriba que vos fala. Especialmente quando essas medidas fazem uso das Tecnologias da Informação e da Comunicação…
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