A GERAÇÃO Y E O MUNDO DO TRABALHO

Um dos temas prediletos de Cientistas Sociais e Psicólogos são as diferenças entre as gerações. Em especial, tal questão entrou em minha tela de pesquisas pela primeira vez durante o final dos anos 1990, enquanto lecionava na graduação de Psicologia e concluía o meu Doutorado na PUC-Rio. Naquela ocasião, discutia com os meus alunos as reorganizações subjetivas e identitáras com relação ao mundo do trabalho e do emprego frente as alterações oriundas da revolução das Tecnologias da Informação e da Comunicação.

Naquele momento, eu estava absolutamente encantado pela obra – e, após alguns anos de sua publicação, ainda continuo achando a sua argumentação irresistível -, recém-lançada no Brasil, do sociólogo norte-americano Richard Sennett, intitulada A Corrosão do Caráter (Rio de Janeiro: Editora Record, 2004). Uma das coisas mais interessantes, dentre várias abordadas pelo autor, era a distinção que ele traçava entre os conceitos de emprego e trabalho, o primeiro relacionado ao imaginário da geração bay-boomer – os nascidos após a Segunda Guerra Mundial – e o segundo relacionado ao universo subjetivo da chamada geração Y – no Brasil, os nascidos durante os anos 1980 e 1990.

Enquanto os boomers tinham dificuldade de lidar com a precariedade do mundo corporativo atual, os Ys sentiam-se absolutamente à vontade nesse universo marcado pelas noções de precariedade, instabilidade e de curto prazo. Lembro-me claramente de um aluno meu, aluno da graduação em Comunicação Social, que dizia sentir-se angustiado se ele ficasse mais de 6 meses em um estágio sem ter sido sondado por outra empresa…

O resultado disso todos nós sabemos: jovens altamente empreendedores, totalmente contrários à vida corporativa tradicional, muito mais preocupados em tocar os seus projetos pessoais do que dedicarem-se “de cabeça” a uma determinada empresa. É o que Sennett genialmente denominou de “força dos laços fracos”. E até hoje, tanto nas minhas aulas de graduação quanto de pós, continuo a ver o mesmo fenômeno – jovens cada vez menos siderados pela perspectiva de uma vida totalmente dedicada a uma grande empresa, ávidos por uma carreira de longo prazo. Para essa nova geração, a palavra da moda é empregabilidade, isto é, a capacidade de mostrar-se competitivo no mundo transitório e efêmero das grandes corporações – que, ora sucumbem às grandes crises financeiras globais, ora são adquiridas em processos predatórios de fusões e aquisições.

A maioria esmagadora deles, de uma certa maneira, foram bons aprendizes e entenderam que a única certeza a se ter na vida é que a incerteza é onipresente…

Para adensar essa linha de pensamento, hoje saiu uma entrevista bastante interessante no periódico Valor Econômico com DeAnne Aguirre, sócia sênior da consultoria Booz & Co. Nesta, ela justamente aborda algumas diferenças cruciais entre os boomers e a geração Y – também conhecidos como Millenials ou geração da Internet – no que tange à dimensão do trabalho. E, de quebra, lança um belo desafio aos gestores de RH posto que, segundo estudo comandado por ela, cerca de 73% da força de trabalho no Brasil em 2025 será composta pelos representantes dessa vindoura geração Y

Tanto para os boomers quanto para a geração X – os nascidos entre os anos 1960 e 1970, dentre os quais eu humildemente me incluo -, a vida ideal seria marcada por um respeitável emprego em tempo integral, em uma grande empresa, com uma jornada presencial de várias horas no escritório – de preferência de maneira que o chefe pudesse testemunhá-lo. O modelo de ascensão corporativa assemelhava-se a uma escada, riscos e fracassos eram palavras riscadas do caderno corporativo, e a separação entre a vida pessoal e o trabalho era bastante marcada – família e comunidade de um lado, empresa do outro. Tudo isso regado a uma régia remuneração pois, para essas gerações, o dinheiro era o principal motivador. Afinal, só relógio trabalha de graça – e ainda assim, há controvérsias…

Em contraposição, para a geração Y, o mais importante é trabalhar em projetos que os satisfaçam como indivíduos, e de preferência com colegas onde haja pertença, cumplicidade e sentimentos positivos. A ascensão funcional não tem a ver com galgar patamares na hierarquia corporativa, mas sim com a capacidade de adquirir novos conhecimentos, a enfrentar novos desafios, a aprender novas coisas. É uma geração extremamente exigente e crítica quanto ao mundo corporativo, e que deseja uma jornada de trabalho mais flexível para que possa desenvolver novos projetos – pessoais, diga-se de passagem – fora do ambiente de sua empresa.

São workhaholics, viciados em tecnologia (mobilidade, wireless e redes sociais) e adeptos ao home-office e trabalho remoto, com day-offs e períodos sabáticos – vide o modelo corporativo do Google, o ícone dos Ys. Além disso, há uma interposição entre trabalho e vida pessoal, posto que eles trabalham o tempo todo – e, longe de uma relação sofrida e calvinista com este, encaram isto como pure fun!

Lidam bem com o risco e com a transitoriedade, e estão muito preocupados com os impactos sociais, ambientais e comunitários dos seus projetos de trabalho. Se entediam com facilidade – alguns especialistas dizem que são portadores de Transtorno de Atenção – e a remuneração não é o principal motivador – pelo contrário, são movidos primordialmente por novos desafios e novas oportunidades. São nômades, independentes e extremamente cientes de suas necessidades e desejos – afinal, são o produto mais bem-acabado do ideário individualista que tomou de assalto a Sociedade Ocidental de Consumo do pós-guerra..

Nem preciso dizer que os desafios são inúmeros quando o target é a geração Y. Isso vale não apenas para CEOs, superintendentes, gestores de RH e gerentes, mas também para profissionais de marketing e estudiosos de tendências e do comportamento do consumidor.

Como diria o nosso velho bardo inglês Shakespeare, há muito mais coisas entre o céu e a terra do que a nossa vã filosofia supõe. Isso é que torna angustiante e, ao mesmo tempo fascinante, a bela tarefa de se conhecer em profundidade a mente e os desejos humanos…
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