FREECONOMICS OU FREAKONOMICS?

Nos últimos anos, toda uma literatura sobre os impactos das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) e da globalização na economia mundial vêm sendo desenvolvida por diversos autores, cada qual dissecando aspectos diferentes desse mesmo fenômeno. Apesar das diferenças, existem alguns pontos em comum: além dessa literatura ser best-seller na área de negócios, todos os autores são unânimes em afirmar que, depois do advento da internet, o mundo nunca será mais o mesmo…

Um dos expoentes dessa literatura é o editora da prestigiadíssima revista Wired (um ícone da cibercultura) e guru de negócios Chris Anderson, autor do mega-hiper-ultra-best-seller A Cauda Longa, um dos livros de negócios mais interessantes que li no último ano. Anderson vem sacudindo o mundo corporativo com o seu novo blockbuster, Free – O Futuro dos Preços (Rio de Janeiro: Editora Campus, 2009). Ainda não tive a oportunidade de lê-lo (pretendo fazê-lo assim que possível), mas não deixa de ser irônico o fato do autor defender a tese de uma economia gratuita, e a versão impressa de seu livro ser vendida no Brasil a módicos R$ 59 (!!!). Curioso, não?

Como diria o sábio Lord Keynes, there’s no free lunch – apesar de Anderson afirmar em sua recente obra que isso é possível…

Em linhas gerais, o argumento central de seu recente livro é o fato de que a emergência das TICs propiciou a criação e a difusão de novos produtos – e também de produtos já existentes – a custo zero. Isso é um fato consumado, haja visto o download de músicas, filmes, games e livros disponíveis em diversos sites na internet a custo zero. Tal argumento, inclusive, levantou críticas violentas de adversários da freeconomics como Andrew Kenn – cujo livro O Culto do Amador, também muito interessante, já foi resenhado aqui no PRAGMA em um passado recente.

Esse novo cenário de negócios repleto de prosumidores – um misto de consumidores e produtores de conteúdo – propicia o surgimento de um fenômeno de consumo onde esses indivíduos possuem uma disposição comportamental de não pagar por produtos e serviços adquiridos virtualmente – a famosa cultura do “download” ilimitado. Ou seja, a internet gera uma cultura do acesso gratuito a conteúdos que, dado ser um hábito arraigado nos internautas, dificilmente será alterada no curto prazo. Perguntem aos executivos de grandes conglomerados de mídia a dificuldade que é cobrar dos seus leitores o acesso ao conteúdo disponibilizado virtualmente…

E, como psicólogo, posso afirmar com bastante propriedade que a mudança de hábitos cristalizados é um processo longo, demorado e, na maioria das vezes, bastante custoso, e cujo resultado nem sempre é existoso…

O que fazer então? Essa é a pergunta angustiante que ronda a cabeça de executivos, gestores e empreendedores no mundo inteiro. A internet é um fato inexorável, e quem não levar em consideração A Grande Rede em suas estratégias de negócios estará literalmente perdido ou fora do jogo da competição. No entanto, como lucrar em um mundo onde as pessoas estão acostumadas a acessar produtos e serviços de maneira gratuita – salvo as empresas de telefonia e os provedores de acesso à internet?

Para muitos analistas, inclusive Anderson, o lucro não virá mais sobre a forma da venda direta de produtos, mas sim associado à comercialização de serviços e outros tipos de diferenciais atrelados aos produtos adquiridos gratuitamente. Em suma, é o modelo de negócios do Google, onde a receita está atrelado a serviços adicionados – nesse caso, a venda de publicidade atrelada às páginas de busca. Nem se precisa dizer que essa tese é polêmica – haja visto que os jornais tentaram utlizar o mesmo modelo do Google em suas versões virtuais, e se deram mal -, e ainda muita banda será gasta tentando provar a viabilidade econômica desse modelo…

A despeito da polêmica, é necessário uma reversão radical da mentalidade atual que domina a mentalidade dos gestores, de que os preços cobrados por produtos podem ser absurdamente altos. Em tempo de crise econômica global, então, isso é uma verdadeira heresia! As pessoas querem o bom e o barato – e, de preferência, o gratuito! Utilizando uma metáfora do próprio Anderson, em uma economia onde o atrito é reduzido a quase zero, sempre haverá alguém que postará um conteúdo usualmente cobrado de maneira gratuita em algum site localizado em um provedor longínquo na internet…

Outro pensador, Kevin Kelly, fundador da revista Wired e trailblazer da ciberculura, endossa a tese consensual de que as empresas irão lucrar na economia digital oferecendo serviços atrelados a produtos gratuitos que dificilmente os piratas poderão oferecer com qualidade e eficiência. Eis as sugestões de Kelly para se transformar essa verdadeira freakonomics em uma freeconomics viável:

a) @Imediatismo: clientes podem pagar para ter acesso, em primeira mão, a novos produtos como livros, músicas, filmes, games ou outros tipos de conteúdo disponibilizados em formato digital. Paga-se um preço por ter algo inédito e ser adotante inicial.

b) @Personalização: clientes também poderiam pagar para ter cópias personalizadas desses mesmos produtos, ou então ter um atendimento customizado. Aliás, isso é o que mais desejam hoje todos os usuários de serviços: um atendimento diferenciado que leve em consideração as idiossincrasias e as demandas individuais de cada cliente.

c) @Interpretação: é algo corrente na indústria de software, onde muitos usuários de programas gratuitos pagam pelo suporte ou por soluções customizadas e acordo com suas próprias demandas.

d) @Autenticidade: a pirataria vai, na maioria esmagadora das vezes, em direção contrária à qualidade e à confiabilidade dos produtos oferecidos. Uma grande parcela de clientes estaria disposta a pagar para ter acesso à produtos e serviços confiáveis, de qualidade e com garantia de origem.

e) @Acessibilidade: em tempos de “computação em nuvem”, as pessoas e empresas pagariam para armazenar seus dados em serviços que possibilitariam acesso remoto aos mesmos. O desenvolvimento de plataformas móveis como os smartphones indicariam o crescimento da tendência da mobilidade como a próxima fonteira do mundo dos negócios.

f) @Presença física: a virtualidade não implica a supressão do mundo físico, ao contrário do que muitos gurus da cibercultura pensam. Na contramão dessa tendência, consumidores estarão dispostos a pagar por versões físicas, personalizadas e de qualidade de produtos disponíveis inicialmente em formato digital. Afinal, não vivemos em um mundo de hiperrealidade total, e ainda não lidamos bem com a idéia de que bits substituem os átomos – afinal, os primeiros são feitos dos segundos…

g) @Preço Justo: com o fim dos intermediários no mundo virtual, a tendência é que consumidores e produtores de conteúdo negociem diretamente o preço de seus produtos. O preço justo estaria a meio caminho da gratuidade e do preço extorsivo praticado, até então, por determinadas empresas. Artistas como David Bowie e bandas como Radiohead vislumbraram esta tendência e foram pioneiros, ao oferecer músicas e álbuns em seus respectivos sites diretamente aos seus fãs, deixando-os livres a pagar pelo que acham justo.

h) @Valor: esse é o grande paradoxo da freeconomics. Contraditoriamente, a gratuidade é um forte vetor de commoditização dos produtos, leia-se, de geração de percepção indiferenciada. Dessa maneira, ao cobrar por um determinado produto ou serviço, poderia se tornar uma estratégia de diferenciação.

Em suma, a poderosa tese de uma economia gratuita é uma enorme armadilha para os incautos que acreditam na possibilidade de haver um almoço de graça. Afinal, tudo na vida tem um custo, e tudo visa ao final alguma espécie de lucro. A prova disso são aqueles que, como esse Escriba que vos fala, se dirigirem à livraria mais próxima para comprar o novo livro do Anderson por módicos R$ 59…
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