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O HÁBITO SALUTAR DE UMA TERCEIRA ALTERNATIVA

A política nacional vem enchendo o nosso saco, haja visto a podridrão na qual encontra-se imerso o nosso Legislativo. Muitos comparam o estado atual do Senado da República ao Canal do Cunha, aquela faixa assoreada e pantanosa situada entre a Ilha do Fundão e a Ilha do Governador, que é um dos mais “belos” cartões postais para aquele que visita a Cidade Maravilhosa – quem vem do Galeão para o centro da Cidade, em plena Linha Vermelha, “sente” a sua proximidade pelo cheiro nauseabundo e fétido que infesta as narinas dos incautos que lá se atrevem a passar…

A notícia boa do mundo da política – como se isso fosse possível nas atuais circunstâncias! – foi o surgimento da candidatura, à Presidência da República, da ex-Ministra do Meio Ambiente e atual Senadora pelo PT do Acre, Marina Silva. Desde que foi defenestrada do Ministério, em meio a fortes tertúlias com ruralistas e desenvolvimentistas, Marina vem tendo uma atuação política muito discreta – eu diria, silenciosa, quase monástica!

Marina Silva sai do ostracismo em função da sondagem feita pelo PV (Partido Verde), dada pesquisa quantitativa recente, que lhe colocava em um patamar de 10% de intenções de voto à Presidência da República, praticamente empatada com outra candidata, a atual Ministra da Casa Civil e “unigida” pelo Presidente Lula, Dilma Rousseff. A Senadora, que não vive os seus melhores dias na legenda governista, viu com bons olhos o aceno, e tudo indica que ela deverá filiar-se aos Verdes para concorrer às eleições presidenciais no ano que vem. E, de quebra, criar um gigantesco problema para Lula, e embolar de vez a corrida para o Palácio do Planalto…

No quadro sucessório, é inegável a sagacidade de Lula. Ele antecipou a sua sucessão, onde normalmente os presidentes tentam adiá-la ao máximo – vide FHC com José Serra. No entanto, apesar dessa antecipação, dois problemas acometem atualmente a candidatura de Dilma: a sua doença, e o grau de transferência de votos de Lula para a sua candidata.

Em primeiro lugar, o eleitorado brasileiro é traumatizado com candidatos que enfrentam problemas de saúde – o caso mais recente foi o de Tancredo Neves. Além disso, a doença da Ministra lhe impede de cumprir uma agenda política mais pesada, diminuindo a sua exposição na mídia e perante o eleitorado. Tudo isso, é óbvio, diminui o recall da candidata, o que acaba refletindo nas pesquisas de intenção de votos.

Em segundo lugar, os articulistas e cientistas políticos discutem o “potencial” de votos que Lula poderia transferir para a sua candidata. Por si só, a tese da transferência de votos é problemática, posto que cada eleitor interpreta e resignifica as mensagens eleitoriais a sua maneira e de acordo com o seu sistema de crenças e valores.

Além do mais, Lula foi o pior algoz do PT posto que, em nome da governabilidade, teve de se afastar de uma série de teses programáticas do partido. De vez em quando, vozes petistas mais radicais emergem em seu ministério – como no caso do assessor-quase-chanceler Marco Aurélio Garcia, o nosso “barbudinho” na política externa -, mas claramente Lula se mostra a cada dia um pragmático, um nome que transcendeu o seu partido para transformar-se em uma quase legenda própria…

Muito se fala no poder que Lula tem de eleger até um “poste”, dada a sua elevadíssima popularidade nas camadas menos favorecidas do nosso eleitorado. No entanto, ao apoiar Sarney e o PMDB em nome da governabilidade, Lula pode ter aí feito o seu maior erro. Afinal, todos os dias a TV Senado mostra aos olhos da nação a patuscada que tornou-se o Senado da República. Sarney, Collor, Renan, Paulo Duque e outras “figuraças” de plantão podem se transformar no maior pesadelo de Lula em sua demanda por fazer o seu sucessor…

Antes do “fenômeno Marina”, as perspectivas eletorais encontravam-se polarizadas entre PT e PSDB – os dois últimos partidos que governaram o país. A segmentação do eleitorado também: PSDB na classe média alta e classe alta da região Sudeste (em especial, São Paulo), e o PT entre os mais pobres no restante do país, e também em Minas Gerais e no Rio de Janeiro também. E é aí que entra o poder de sedução que uma possível candidatura Marina Silva pode despertar no adormecido e entediado eleitorado brasileiro…

Marina é uma política vigorosa, ética e honesta, que defende uma causa mais do que importante nos dias de hoje, a do desenvolvimento sustentável, e que conta com enorme simpatia entre as classes mais escolarizadas – dentre as quais, encontra-se esse Escriba que vos fala. Nesse sentido, tanto PT quanto PSDB não apontam em seus programas políticas ambientais de peso quanto as defendidas pelos Verdes.

Também conta o fato de que os Verdes não são mais os radicais de antigamente, e possuem em seus quadros pessoas altamente qualificadas e de envergadura intelectual insofismáveis. Ou seja, tudo isso aponta para o enorme potencial eleitoral dessa candidatura em relação às classes média e alta urbanas, intelectualizadas e modernas, comprometidas com uma agenda ambiental, de desenvolvimento econômico com responsabilidade, com um toque de ética e honestidade na política. Nesse sentido, Marina seria a reintrodução da utopia no mundo da política, em detrimento do pragmatismo assistencialista e do economicismo gerencial que representa a atual polaridade partidária que domina a política nacional.

Além do mais, como disse Ciro Gomes em entrevista ao Valor Econômico de segunda-feira, a candidatura Marina traz um problema sério para a candidatura Dilma, ao mostrar ao eleitorado que é possível uma alternativa política à esquerda sem estar comprometida com o lamaçal que é a crise do Senado. Vale lembrar que Marina não possui votos à direita, mas retira uma parcela considerável de votos no eleitorado à esquerda. No mais, Marina vem passando imune a toda crise do Legislativo, enquanto que Lula acumula desgastes após desgastes dada a sua necessidade – compreensível, diga-se de passagem, de sustentar a governabilidade. A bem da verdade, nada que coloque em risco a sua popularidade, mas que torna-se incômodo quando o assunto é a tal da transferência de votos para a candidatura Dilma…

Enfim, tudo isso é fruto de especulações e mais especulações. Afinal, estamos transitando no mundo do se, da pura hipótese: se Marina aceitar ir para o PT, se o PT deixá-la sair, se a candidatura dela se mostrar viável. Afinal, vale lembrar, Marina é oriunda de um estado com pouco peso político na Federação, e os Verdes ainda têm pouca expressão nacional – comparado aos atuais partidos majoritários. Mas, que a candidatura Marina Silva é uma brisa fresca no ar viciado e fétido da política brasileira, isso todos nós temos de concordar!

Inclusive esse Escriba que vos fala que, desde já, vê com muito bons olhos a sua candidatura à Presidência da República. Mesmo tendo verdadeiro horror à agenda política dos radicais de esquerda…
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  1. Anonymous
    agosto 15, 2009 às 12:39 pm

    Mestre! Como um declarado protesto, sugro que você não mais escreva o nome do Lula em "nosso" estimado blog!

    Lula é uma palavra proibida neste blog!!!

    Abraço!

    Rossi

  2. José Mauro Nunes
    agosto 17, 2009 às 11:07 am

    Meu caro Rossi,

    Como leitor e comentarista assíduo desse blog, peço desculpas em nome desse Escriba que vos fala. É que, às vezes, a gente é obrigado a falar um pouco sobre o "hómi"…

    Abraços!

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