OS "SUPERVINHOS" BRASILEIROS

A despeito do nosso clima – excetuando-se a região Sul do país – e os nossos hábitos culturais, a vitivinicultura brasileira é, sem sombra de dúvida, um case de sucesso no mercado brasileiro. Apesar do elevado consumo de vinhos de garrafões e elaborados com uvas não viníferas – quem nunca tomou um porre de Sangue de Boi, Canção ou Chapinha? -, além do condenável passado dos horrorosos vinhos da “garrafa azul”, cada vez mais o brasileiro se interessa pela enocultura.

Com isso, todo o mercado procura acompanhar essa saudável tendência: os restaurantes ampliam suas cartas de vinhos, contratam sommeliers e oferecem treinamento aos seus garçons com relação ao serviço do vinho, os supermercados e as importadoras procuram melhorar cada vez mais a oferta de produtos aos consumidores… Enfim, ganha todo mundo – e, em especial, o consumidor que aprecia uma bela taça de vinho, seja ele um espumante, um branco, rosé, tinto ou de sobremesa…

No entanto, ainda existe em grande parte dos nossos consumidores um preconceito com relação aos vinhos nacionais. Culpa de um passado não tão longínquo onde as prateleiras de supermercados eram inundadas com produtos de qualidade (e gosto) duvidoso. Visando superar essa resistência ao produto nacional, os atores do setor vêm se organizando em associações, melhorando as técnicas de produção, investindo em novas castas e cortes, além de um esforço concentrado no sentido de ampliar o mercado de exportação para o vinho brasileiro. Hoje, os nossos vinhos são premiados em vários concursos no exterior, e há uma procura bastante grande pelo nosso produto tanto na América quanto na Europa, conforme venho discutindo algumas vezes aqui no PRAGMA.

Além disso, em termos de mercado interno, outro grande problema é o preço. Vinhos argentinos e chilenos de qualidade nem sempre superior têm invadido as nossas lojas sempre com preços mais em conta do que os similares nacionais. Somado ao preconceito para com o nosso vinho e preços pouco competitivos, essa é uma mistura explosiva que torna o cenário bastante difícil para as empresas brasileiras do setor.

Em busca do consumidor mais abastado, consequentemente de paladar mais sofisticado e exigente, e também do mercado externo, algumas vinícolas nacionais estão apostando em produtos premium direcionados para o mercado de luxo. São vinhos elaborados de maneira consistente, segundo as últimas técnicas de vinificação, normalmente com o auxílio de enólogos consagrados do exterior, gerando produtos espetaculares, de guarda, e com preços às vezes exorbitantes…

Pequenas vinícolas como a gaúcha Lídio Carraro e a catarinense Villa Francioni já nasceram com essa proposta, e os seus vinhos são realmente espetaculares – especialmente os da última, cujas uvas são cultivadas numa das regiões mais frias do país, a Serra Catarinense. A novidade é que vinícolas maiores, como a também gaúcha Miolo, resolveram entrar nesse mercado de vinhos diferenciados, acirrando a competição e aumentando a oferta de produtos requintados para paladares exigentes.

Recebi essa semana em meu e-mail uma chamada para a compra da primeira safra do Sesmarias, o novo premium tinto da Miolo, elaborado com seis uvas diferentes produzidas na região de Candiota, no sul do Rio Grande do Sul. As garrafas serão comercializadas apenas na internet e na loja da Miolo em Bento Gonçalves, ao preço módico de R$ 250 cada unidade (!!!). Ou seja, haja disposição – e bolso…

Os vinhos premium ocupam a faixa de preço acima dos R$ 60 a garrafa, e atualmente representam apenas 3% da produção vinícola nacional. Apesar desta participação reduzida, o nicho é atraente dada a elevada margem de lucro, o que vem atraindo outras empresas a elaborar produtos desse tipo. Esse é o caso das gaúchas Salton e Don Laurindo, e da catarinense Quinta Santa Maria.

Só para o Sesmarias, a Miolo investiu cerca de R$ 40 milhões desde 2001. As uvas, prensadas manualmente, repousam por cerca de 18 meses em barris de carvalho francês. A produtividade do vinhedo do Sesmarias é a metade da média dos demais vinhedos da companhia, o que por si só é garantia de qualidade elevada e da alta concentração de elementos como pigmentos e aroma.

Já a Lídio Carraro – uma pequena vinícola que possui vinhedos em Bento Gonçalves e em Encruzilhada do Sul, cuja produção é em torno de 50 mil garrafas por ano – produz exclusivamente vinhos superpremium, como o Tannat 2005 e o Nebbiolo 2006, que podem chegar até R$ 190 a garrafa! O marketing da empresa é calcado no “boca a boca”, baseado nos formadores de opnião e nas revistas especializadas do segmento.

A catarinense Villa Francioni é uma newcommer que vem revolucionando o setor, elevando a qualidade – e o preço – setor a patamares de excelência. Surgida em 2005, o top de linha da vinícola é o Villa Francioni Tinto 2005, um corte de uvas Cabernet Sauvignon, Malbec, Cabernet Franc e Merlot, que é comercializado a módicos R$ 120 a garrafa(!!!)…

Como os meus enófilos leitores podem notar, a vitinicultura nacional está de vento em popa. Resta saber se, para nobres mortais como esse Escriba que vos fala, haverá uma oportunidade para que um dia possamos degustar uma gema preciosa como as descritas acima…
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  1. Maria
    julho 30, 2009 às 3:29 am

    Adorei seu site!
    Trabalho com a Villa Francioni, contate comigo para que possa provar os vinhos!
    Um abraço

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