ROBERT McNAMARA (1916 – 2009)

Na semana que se inicia, todo o mundo parou hoje para ver o “showfuneral” do astro da música pop norte-americana Michael Jackson. Independentemente do gosto estético e da popularidade póstuma do artista (que, diga-se de passagem, nos últimos anos destacou-se mais pelas suas bizarrices do que propriamente pelo seu talento artístico), prestou-se pouca atenção a um outro passamento – este mais importante para aqueles que, como esse Escriba que vos fala, são ávidos estudiosos da história do mundo contemporâneo.

Nessa segunda-feira, morreu em Washington uma das figuras mais polêmicas e controvertidas da história mundial recente: o ex-Secretário de Defesa dos EUA, Robert Strange McNamara. Tendo servido à duas presidências norte-americanas – a de John F. Kennedy e a de Lyndon Johnson, entre 1961 a 1968 -, em plena efervescência da luta entre as duas grandes superpotências pela predominância no sistema de poder internacional, McNamara foi um dos principais artífices e idealizadores da política norte-americana dos anos 1960 durante o turbulento e tenebroso período da Guerra Fria.
McNamara destacou-se desde cedo em sua carreira na montadora de automóveis Ford, onde inclusive chegou a ocupar a Presidência, por sua capacidade de planejamento e sua incrível habilidade em raciocínio quantitativo – tendo inclusive recebido a alcunha de “whiz kid” (garoto-prodígio) -, o que o levou a ser convidado em 1960 a ocupar o cargo de Secretário de Defesa pelo presidente eleito John F. Kennedy.

Sua principal contribuição, no âmbito do cenário conturbado da Guerra Fria, foi a criação de uma nova filosofia estratégica baseada na contenção do conflito nuclear – a partir da constatação do cenário “M.A.D.” (Mutually Assured Destruction) e no desenvolvimento de um arsenal nuclear baseado em armamentos táticos – entendidos como elementos de disuassão e não de ataque efetivo. McNamara sabia que, dado o início de um ataque nuclear, as chances de aniquilamento da civilização humana eram bastante reais e concretas, o que o levou a incluir em seu cálculo estratégico de dissuasão a racionalidade dos atores políticos envolvidos – presidentes, estrategistas militares, membros da burocracia estatal e opinião pública. Daí, a rejeição à tese da “retaliação maciça” – defendida pelos estrategistas militares do governo Eisenhower – em direção à doutrina da “resposta flexível”, baseada na combinação de armas convencionais e nucleares em menor escala.
McNamara foi uma personagem importante em dois outros eventos cruciais da história norte-americana recente. O primeiro foi durante a Crise dos Mísseis de Cuba, ocorrida em 1962, e que foi magistralmente retratada no filme Treze Dias Que Abalaram o Mundo (Thirteen Days, 2000), com Kevin Costner. O segundo foi a famigerada Guerra do Vietnã, luta contra a insurgência comunista vietcong liderada por Ho Chi Min e o general Giap, que teve início no governo Kennedy – tendo sido justificada pela famosa Teoria do Dominó das revoluções comunistas, proposta pelo próprio McNamara. Aliás, o fracasso da administração Johnson em lidar com a questão do Vietnã não apenas jogou por terra com o sonho da reeleição do presidente, mas também custou o cargo do próprio McNamara.
Após a sua saída do governo, trabalhou de 1968 a 1981 no Banco Mundial, onde coordenou uma série de projetos de auxílio para os países em desenvolvimento. Além disso, escreveu uma série de artigos e um livro de memórias (In Retrospect, de 1995), onde reconsidera os eventos da Guerra do Vietnã a partir de uma análise histórica recente.
Em 2003, a personagem de McNamara fez sua reentrada no cenário atual com o documentário Sob a Névoa da Guerra – Onze Lições da Vida de Robert S. McNamara, do cineasta Errol Morris, e que foi agraciado com o Oscar de Melhor Documentário em 2003. Trata-se de uma belíssima película que, sob a forma de entrevista, leva McNamara a refletir sobre diversos aspectos da sua vida e obra, inclusive uma análise bastante crítica e reveladora sobre uma série de percalços que levaram ele e os EUA a se equivocarem quanto à Guerra do Vietnã – sem sombra de dúvida, uma das maiores feridas abertas no narcisismo americano até os dias de hoje.
Enfim, numa semana onde todos estão focados na crise do Senado Federal, nos passos do moonwalk e no eclipse lunar de hoje à noite (daqui há pouco), não poderia deixar passar em branco esse acontecimento. Robert McNamara é, sem dúvida alguma, uma das personagens mais fascinantes e enigmáticas da história mundial recente.
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