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O HOMEM DO COLAR DE ÂMBAR: ATRAVÉS DO ESPELHO

Ao ver o ancião projetado no espelho, pensou estar imerso em um estado de alucinação onírica semelhante ao experimentado por xamãs, videntes ou oráculos, e que tanto adornavam os seus livros de história antiga. Estes eram fervorosamente lidos desde tenra idade, e as anotações eram minuciosamente feitas e refeitas em letra de forma, verdadeiros arabescos superpostos, tal como em camadas sedimentares semelhantes a um palimpsesto – e que algum geólogo mais indiscreto poderia identificar com uma certa facilidade os diferentes períodos da história de sua vida, suas conquistas, suas angústias, suas virtudes e seus erros.

De repente, como num clarão de luz, todas as imagens projetadas do chão ao teto de sua biblioteca sumiram de sua vista, assim como o sábio ancião, deixando-o órfão em seus pensamentos. “Menos mal”, pensou ele, “pois tenho as minhas digressões a me acompanhar”. “Antes só do que mal acompanhado”, frisou de maneira categórica, acostumado que estava em passar grandes intervalos de tempo sozinho, absorto em digressões, a meditar sobre a essência da natureza, sobre as coisas, as pessoas, as órbitas dos planetas, a sucessão das estações, o universo, a vida…

Correu então para abrir os livros de civilizações outrora desaparecidas, que costumava deixar em uma prataleira remota ao longe dos olhos de visitantes incautos e mal intencionados, ávidos em perscrutar os seus segredos. “A vida de uma pessoa costuma ser ilustrada pelas lombadas dos livros que ela lê”, filosofava, buscando estabelecer uma conexão entre o prazer estético da leitura e a circunvolução dos movimentos da alma. O conhecimento, para ele, era o fim, o começo e o recomeço do ciclo de todas as coisas da vida. “Costumamos colocar um pouco do nosso ser em cada letra, em cada espaço, em cada página, em cada volume que dispomos em nossas mãos”, afirmava de maneira displicente, enquanto folheva avidamente os surrados volumes em busca de uma explicação, um sinal, um presságio a respeito da experiência transformadora que acabara de ter vivenciado.

Deparou-se com um livro que seu pai tinha-lhe dado em tenra idade, e imediatamente veio-lhe a mente a frase por ele proferida naquela ocasião. “Meu querido filho”, disse-lhe, “um dia você irá compreender todos esses símbolos, todas essas imagens, todo esse conhecimento que generosamente lhe oferto como uma oferenda aos deuses”. “Tudo a seu tempo, tudo a seu tempo…”, essa frase ecoava em seu pensamento tal como o hálito fresco de um aforisma mágico que está prestes a ser decifrado. Era difícil, mas tinha de controlar a sua impaciência, uma presença constante e incômoda em seu jeito de ser e de agir. “Talvez tenha chegado a hora de atender a este chamado”, animou-se, enquanto abriu o volume empoeirado em um página reveladora.

Atônito, identificou a presença impressa dos mesmos símbolos há pouco projetados em sua biblioteca, ao olhar com detalhes a arquitetura grandiloquente dos grandes monolitos de pedra da Bretanha, mais especificamente em sítios arqueológicos como os de Stonehenge, Newgrange e Avebury. Nos monumentais pedaços de pedra encontravam-se engastados as onipresentes espirais, misteriosos sinais encrustrados na mais dura e espessa rocha, que eram elegantemente decoradas por essas inscrições crípticas que adornavam a entrada e os pilares de sustentação desses sítios, verdadeiros fósseis vivos ao ar livre, e que sofriam o efeito das forças da natureza.

Eram os triskelions (ou triskeles), as enigmáticas três espirais entrelaçadas, símbolo mágico da civilização celta, cujos seus ancestrais já as encrustavam na mais dura rocha em sítios remotos, verdadeiras fontes de inspiração e recordação para povos futuros da inalienável relação entre o humano, a natureza e o místico.

O triskelion era também interpretado como representando a natureza tríplice do universo e do homem – a natureza tripartite da alma, do corpo e do intelecto. Todos integrados, irmanados, entrelaçados, entretecidos em uma delicada tessitura, inevitavelmente apontando para a necessária harmonia e equilíbrio entre esses três elementos.

Seria isto um lembrete do quão era desequilibrada a sua vida, dada a prevalência do intelecto e da cognição em detrimento dos sentimentos e do afeto? Era conhecido como um homem cuja desenvoltura de pensamentos era inegável – fonte de admiração dos amigos e de inveja dos inimigos. No entanto, era também sabido o diminuto papel que as emoções exerciam em sua vida, bem como a supressão da espiritualidade em sua maneira de ser e de agir. A espiritualidade era um capítulo à parte em sua vida, resultado de uma vivência infeliz em sua tenra infância, repleta de medos, repressões e maus augúrios. Nunca conseguiu entender, muito menos absorver, a idéia de entrelaçar-se a um símbolo religioso cujo mote era o sofrimento e a tristeza – sua onipresença era uma sinistra lembrança de que somos eternamente culpados por tudo de errado desde os tempos imemoriais. Tinha arduamente tentado se identificar a isso ao longo de sua vida, e agora de culpava por essa vacuidade, esse esvaziamento existencial…

Por estar absorto em pensamentos, imagens e símbolos que invadiam e transbordavam em seu ser, mal teve a chance de notar a presença de um inusitado espectador em seus devaneios. Ao olhar de repente para o espelho, deparou-se novamente com uma outra figura; não mais o enigmático ancião com o colar de âmbar, mas agora uma criança, adornada com uma túnica alva, imaculadamente branca, que lhe cobria todo o corpo. Assombrado, voltou-se para trás e percebeu que não se tratava de mais uma de suas (recentes) alucinações, mas um enigmático e inocente companheiro de jornada…

Ao virar-se, a criança levantou-se e estendeu o braço em sua direção, entrelaçando a sua mão delicadamente, e levando-lhe em frente ao mesmo espelho. Ato contínuo, a criança abriu os lábios e entoou em sua ingênua e sábia voz: “Fique calmo, você deve estar muito assustado com tudo isso. Relaxe, pois a sua jornada está apenas começando. Não apenas a sua jornada pessoal, mas a de toda a humanidade, que é milagrosamente reencenada a partir da vida de cada indivíduo”. Assustado, retrucou: “Do que se trata tudo isso? Os símbolos na parede, o chão adornado, as espirais em minha mente?”. A criança, cada vez mais sábia, lhe disse: “Uma coisa de cada vez. Não seja ávido em buscar respostas prontas, pois a justa pode exaurir-lhe as forças e turvar a sua mente. Tudo isso, repito, é apenas o início de uma nova jornada em sua vida, onde o equilíbrio haverá de reinar por entre as sombras do medo e da angústia”.

Ao olhar no espelho, se viu vestido com a mesma túnica branca, alva como a inocência infantil, e imaculada como a clareza de pensamentos. Em seus dedos, pendia o mesmo colar de âmbar do ancião. A criança tinha se transformado no ancião, que virou uma conta de âmbar, que tornou-se espiral entrelaçada, que transmutou-se em uma galáxia, com planetas e seus satélites gravitando ao seu redor. “Seja bravo e reto em seu espírito, e tenha perseverança”, uma voz lhe disse em alto e bom som. “Sua ordália está apenas começando”…

continua…
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Categorias:Meus contos, Pensamentos
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