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O HOMEM DO COLAR DE ÂMBAR: AS ESPIRAIS DESCENDENTES

Há muito que essa imagem lhe obsediava, seja em sonhos, em reminiscências ou então em imagens dispostas em livros, revistas e jornais. Até mesmo em um simples clique na internet, e a imagem dessas espirais de três pontas apareciam com destaque em suas ferramentas de busca. Essas espirais, símbolos tribais ligados a tempos bastante remotos e imemorais, eram suas íntimas no brocado entretecido de sua psiquê.

Diante de uma enigma, de uma charada desse porte, as reações eram contraditórias, paradoxais – em especial, diante de tais figuras espiraladas, tão íntimas e constantes em seu fluxo de pensamentos, suas parceiras em seus deliciosos devaneios. Nesse instante, era impossível não estabelecer um vínculo com a origem etimológica da palavra símbolo, proveniente do grego symbolón, que significa aquilo que é compartilhado, aquilo que é dividido e partilhado com outrem.

Tinha diante de si uma representação que lhe evocava sentimentos mistos – um desafio, uma gesta, uma evocação -, daquelas típicas que lhe interessavam muito, mas que as pessoas que o cercavam interpretavam como uma mera excentricidade, um exercício exaustivo de futilidade hiperbólica, fruto de uma subjetividade essencialmente enfadada e desencantada. “Danem-se os outros”, pensou, enquanto sua mente era invadida por de imagens que remetiam a outras imagens, outros conceitos, outros intertextos…

Nessas horas, corria freneticamente os olhos pelos volumes de sua biblioteca, seu maior e mais valioso bem. Sua relação com os livros era visceral, essencial, fundamental. Tinha sido assim desde criança, pois aprendeu com os seus pais o gosto pela leitura, pela pesquisa, pelo mergulho em textos dos mais variados tipos e temas: desde enciclopédias de civilizações antigas, passando por tratados de filosofia e de psicologia, até chegar à obras literárias de autores clássicos e contemporâneos. Ao longo do tempo, foi construindo a sua própria biblioteca – o seu santuário, como costumava dizer -, que posteriormente foi adensaada pelos volumes provenientes da biblioteca de seu pai.

Começar a leitura de um livro era algo da ordem do sagrado, uma espécie de ritual iniciático, uma abertura para uma nova dimensão. Era como se uma outra realidade acabasse sendo desvelada diante de seus próprios olhos, e o mundo real fosse reduzido a uma das diversas formas de manifestação do nosso entendimento, sempre múltiplo e parcial. Para ele, a verdadeira alquimia do universo encerrava-se na leitura, esse grande ritual mágico composto por letras, imagens e símbolos que nos guiavam tal como os antigos xamãs de civilizações antigas, a estabelecerem uma mediação, uma espécie de ponte, entre o eu e o mundo, os outros e o si-mesmo…

Ao adentrar em sua biblioteca, um olhar furtivo lhe revelou que as paredes e o teto estavam decorados pelas espirais de três pontas, dos mais variados tipos, tamanhos, formatos e cores. Uma verdadeira explosão onírica, fruto unicamente de suas reminiscências mais obscuras e ancestrais. Ato contínuo, um torvelinho de idéias tomou de assalto o seu pensamento, fazendo-o perceber todo o entorno que lhe cercava, onde as espirais elegantemente adornavam as paredes, testemunhando o seu júbilo e perplexidade diante de tão belo quadro. Estas, por causa da tímida luz que emanava dos abajures, assemelhavam-se ora à pinturas rupestres engastadas em cavernas ancestrais, ora à círculos concêntricos encrustrados na pedra – a bem da verdade, um tanto o quanto desgatados pela ação do tempo -, mas que desciam das paredes até o chão de madeira, ricamente desenhado, para onde acabavam por se fundir com outros símbolos, combinando-se de maneira lasciva e promíscua, numa verdadeira dança sensual de imagens interpoladas…

De repente, pensou ter visto um homem… ou melhor, um ancião vestido com uma túnica de tecido grosso e rústico, dotada de um capuz acastanhado. Algo brilhava em seu pescoço, uma espécie de colar de âmbar onde um grande medalhão se destacava, quase cegando os seus olhos. O chão de madeira impecavelmente lustrado, repleto de detalhes geométricos enigmáticos, funcionava como um espelho onde ele podia ver a sua imagem projetada no chão da biblioteca, que se confundia com as espirais descendentes que se combinavam e se reorganizavam sem parar, de maneira caótica, engendrando formas e contornos que rapidamente se estruturavam e se desfaziam, tal como um velho caleidoscópio que tinha ganhado de sua avó quando era bastante menino. Agora, tinha entendido o quão sério e mágico era algo tão despretendioso e sem-graça como um simples brinquedo feito de pequenas contas de vidro coloridas…

Seria o chão de sua biblioteca um portal, o fulcro para uma nova dimensão? A porta de entrada que levava à solução desses enigmas ancestrais que lhe acossavam desde tenra idade? Ou apenas mais um enigma dentre os vários que os deuses constantemente criam apenas por puro entretenimento para animar o espírito em suas vidas na imortalidade?

Impossível não lembrar de uma velha máxima judaica, que afirmava que Deus fechava uma porta e abria várias outras, de forma simultânea, apenas pelo puro prazer de confundir os seres humanos…

De repente, todas as figuras erráticas em seu estúdio rapidamente se associaram, formando uma única estrutura: uma elegante espiral de três pontas envolvida por um círculo ricamente desenhado, tal como uma mandala meticulosamente elaborada por monges budistas, e que funestamente a desfazem logo após de terem-na finalizado, uma simples e aterradora lembrança do caráter efêmero e fugaz da vida. Logo depois, ele desviou o olhar para um espelho embaçado a sua esquerda, e viu a sua imagem projetada na superfície de vidro com um detalhe intrigante: em seu pescoço, o mesmo colar de âmbar semelhante ao que tinha visto no ancião. Por seu turno, este o espreitava furtivamente ao fundo, olhar fixo em seus olhos, como se quisesse lhe dizer algo especial, uma espécie de segredo milenar que está prestes a ser revelado…

continua…
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Categorias:Meus contos, Pensamentos
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