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O HOMEM DO COLAR DE ÂMBAR: À SOMBRA DO DÓLMEN

Em um frêmito, acordou assustado no meio da noite! Suava em bicas, mas teve o cuidado de levantar cuidadosamente da cama para não acordar a sua mulher, que estava imersa em um daqueles sonos mais profundos, típicos de serem experimentados nos fins de semana.

“Queria eu ter esse sono”, pensou furtivamente, lembrando-se muito vagamente da última vez que tinha dormido de verdade. 2,3,4 horas no máximo de sono, e lá estava ele de novo: acordado, de pé, pronto para a labuta diária! “Sempre alerta!”, repetia sempre ao acertar a gravata em frente ao espelho da sala, obsessivamente arrumada, um contraponto a sua vida caótica, desorganizada, errante. Adorava enigmas, paradoxos, antinomias, figuras complexas de pensamento, pois estes o lembravam sempre da necessidade de uma reflexão rigorosa, do movimento de extrair ao máximo a permanência da imanência imiscuída no devir interminável da vida. Dormir, em realidade, é uma perda de tempo dado que o tempo corre de maneira irresoluta, tal como um rio caudaloso, que leva, transforma e altera a paisagem lunar do vazio de nossa estéril existência…

Sempre alerta, sempre alerta… Era uma espécie de coda irresistível repetida ad infinitum, tal como um mantra, um encantamento, uma alegoria com poderes mágicos de transformar a irrealidade feérica em um instante categórico e auto-explicativo. Tal como um bordado de ouro em estandartes de antigas legiões romanas onde, sempre em formação de diamante, ele e suas falanges mentais defendiam-se dos ataques lábeis dos humores fúteis, venais e pontuais de tudo e de todos que o cercavam. Nessas horas, a temperança era a sua melhor conselheira e o tempo, suave areia a passar delicadamente por uma ampulheta vetustamente ancestral, a desenrolar-se de maneira implacável, impávida, inexorável…

Era uma racionalista convicto, um cético ensimesmado, que temia a tudo e a todos – em especial, a idolatria, o submetimento irrefletido a alguém, a alguma crença ferozmente irreal. Lembrava-se de seus tempos de criança onde era levado a contar até dez para afastar de sua mente a tentação de ser seduzido por outrem, de ter a sua consciência abduzida de seu próprio controle por algum estranho a lhe conduzir por tortuosas vias, desventurosas alamedas do destino, que lhe confundiam e lhe enganavam. Jardins cujos caminhos se bifurcam, lembrava-se do velho escritor argentino que, desde cedo, encantava-o pelas belas charadas, dispostas elegantemente em folhas de papel que aludiam a mortal disposição de um tabuleiro de xadrez. “Jogos, livros, músicas, sonhos”, animava-se espirtualmente, enquanto se preparava para mais um dia de exercício de seu esporte predileto: decifrar expressões, enigmas, rostos, pessoas…

Ao retornar a casa, tentou em vão adormecer; mas, viu a sua tela mental em pleno funcionamento, com seus assepticos ícones em compasso de espera, na vaga expectativa de serem clicados e acionados. Pois é na madrugada que mais temos contato conosco: os sentidos estão mais aguçados, e a escuridão da noite apenas aumenta ainda mais a acuidade visual quando o assunto é iluminar os recônditos mais obscuros de nossa alma…

“Estranho paradoxo esse em minha vida”, divagou solitariamente em meio às suspensão cortante da noite, enquanto uma xícara de espresso fumegante teimosamente desenhava de fronte a seus olhos uma suave e delicada coreografia, repleta de sensuais arabescos grávidos de aromas, cores e espectros de fumaça. “Sempre neguei a intuição em prol do raciocínio lógico, analítico, dedutivo”, asseverou de maneira assertiva, “porém, quando menos espero, eis que a minha intuição aparece, tal como um parente distante no tempo, que insiste em me dar sábios conselhos sobre questões ancestrais”. De repente, olhou a fumaça que se desenhava no espaço adjacente e se deu conta que suas tênues formas lembravam figuras rupestres, afrescos toscos elaborados em tempos remotíssimos, desenhados por um artista pré-histórico que provavelmente mal sabia que estava encrustrando na pedra uma marca arquetípica, daquelas que de tempos em tempos ressurgem para lembrar-nos de que somos apenas um elo na cadeia dos acontecimentos, velada por nossos acentrais, mantida por nós mesmos, cujo futuro pretérito é um eterno (re)conhecer de algum típico evento mágico. Afinal, somos os únicos seres que tentam subverter a ordem coerente das coisas e da natureza e que, a cada fracasso e a cada insucesso, retornamos ao mesmo ponto sem saber nem mais nem menos – apenas o suficiente: a riqueza de ser sábio…

Andou pela sala, em círculos, repetidamente, tentando decifrar uma imagem que vinha insitentemente em seu sonho: uma estrela de três pontas, curvada, singularmente retorcida. O que mais lhe intrigava era que esta imagem parecia gravada em pedra, tal como em um dólmen, um monolito antiquíssimo, testemunho pétreo do movimento do mundo, da sucessão das estações, da órbita dos planetas, da ascensão e queda das civilizações outrora poderosas, mas que agora jazem mudas nas prateleiras empoeiradas onde estão dispostos os livros de história. Ancestralidade, permanência, insistência, júblio, jactância. Antigo símbolo ancestral que teimava em ser decifrado, digerido, e desvelado, para depois ser evocado em suas silenciosas preces e recitações mágicas…

continua…

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Categorias:Meus contos, Pensamentos
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