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IRÃ, LÍBANO, ISRAEL, EUA: O TABULEIRO DE VÁRIAS FACES DO ORIENTE MÉDIO

Desculpem pelo certo grau de liberalismo e incorreção geográfica que dá título ao post de hoje. A bem da verdade, o Irã pertence a região do Cáucaso, e o Líbano e Israel pertencem à bacia do Mediterrâneo, região esta que a geografia britânica do século XIX denominava de Levante. No entanto, a mídia global ocidental – por reducionismo, preguiça e uma dose generosa de etnocentrismo – refere-se à região entre a Europa e o subcontinente indiano como sendo o “Oriente Médio”, a despeito de estarem aí sendo inclusas realidades econômicas, políticas, étnicas, linguísticas, culturais e religiosas absolutamente diferentes – leia-se, judeus, persas, árabes, cristãos, azeris, pashtuns, muçulmanos, drusos, tudo no mesmo caldeirão. Como, às vezes, o hábito é mais forte do que o uso correto do termo, tomo a liberdade de circunscrever o comentário de hoje à invenção européia – conforme afirma o intelectual palestino Edward Said – denominada de Oriente Médio.

É inegável o recente turmoil da região, muito menos pelos seus conflitos assimétricos e ataques de extremistas, mais pelas recentes eleições legislativas no Líbano e presidencial no Irã. Além da possibilidade de uma real chance de reconfiguração das forças políticas na região, os últimos gestos – assertivos, diga-se de passagem – da diplomacia de Barack Obama introduziram novas variáveis no tabuleiro de interesses estratégicos da região.

Porém, parodiando as nossas excelências em plenário: Sr. Relator, pela ordem

No Líbano, a coalizão 14 de Março – liderada pelo sunita Saad Hariri, filho do ex-PM Rafik Hariri – ganhou as eleições legislativas, o que representou um tento a favor dos interesses americanos no País do Cedro. A coalizão governista – que conta com o apoio de partidos cristãos tradicionais como o Falange (da família Gemayel) e as Forças Libanesas (de Samir Gagea), além dos drusos de Walid Jumblatt e do atual PM Fouad Siniora – derrotou a coalizão 8 de Março – composta pelos xiitas do Hezbollah (de Hassan Nasrallah) e da Amal (de Nabi Berri) – e a Frente Patriótica – a grande novidade dessa eleição, liderada pelo cristão Michel Aoun, ex-detrator da Síria.

A vitória do 14 de Março é, em tese, uma solução de continuidade uma vez que se trata da vitória do atual grupo governista. No entanto, as tensões políticas internas não diminuem dado que os xiitas – e seus partidos – são parte importante no jogo político libanês. É impossível governar o país sem seu o apoio, haja visto os acontecimentos recentes envolvendo o Hezbollah e as milícias sunitas e que literalmente paralisaram o país durante o ano passado até a eleição do atual Presidente Michel Suleiman.

A princípio, os sinais são positivos, dado que Nasrallah deu uma entrevista aceitando com tranquilidade o resultado das eleições libanesas. A agenda nacional é pesada, e tudo leva a crer que os esforços serão no sentido da constituição de um governo de unidade nacional. No entanto, tudo pode acontecer, especialmente se o governo do premiê Siniora resolver enfrentar de frente a questão do arsenal do Hezbollah – um exército mais poderoso, inclusive, que o exército libanês -, e os xiitas resolvam “emperrar” o processo de constituição de um governo nacional de coalizão exercendo o seu legítimo poder de veto.

Outra questão, pouco falada nas eleições libanesas mas levantada pelo cientista político Melhelm Chaoul no número 3 da Líbano em Revista, diz respeito ao status da força cristã no jogo político do país. Os cristãos, profundamente cindidos nesta eleição, certamente são os maiores perdedores no atual processo eleitoral dada a impossibilidade da construção de uma agenda unificada em defesa dos seus interesses. Certamente, será muito interessante acompanhar as tentativas de reconstrução do campo cristão neste cenário pós-eleitoral, especialmente com a inusitada aliança Nasrallah-Aoun.

Já no Irã, a coisa está pegando fogo! A notícia da reeleição do atual presidente Mahmoud Adhmadinejad com mais de 60% dos votos incendiou a capital iraniana, tomada de assalto por estudantes universitários, mulheres, liberais, moderados e demais integrantes da classe média urbana, que alegam a ocorrência de fraudes nas eleições do último domingo. Algo comum em eleições no ocidente, mas potencialmente explosivo em um país onde há uma costura política delicada como o Irã.

Vale lembrar que o candidato da oposição, o reformista e ex-PM Mir Hossein Mousavi, encontra apoio majoritário na classe média urbana e liberal das grandes cidades, bem como entre os jovens mais escolarizados – a grande maioria anglófila, ocidentalizada e heavy user de redes sociais digitais como o Facebook e o Twitter. Já Ahmadinejad (o Lula deles!), um homem extremamente religioso, rude, naive e de origem humilde, fala para os mais pobres e os menos favorecidos, situados no meio rural e em cidades menos dinâmicas no interior do país. Diga-se de passagem, Ahmadinejad foi o primeiro presidente a visitar os rincões mais distantes do país, distribuindo dinheiro, afagos e empatia (alô Bolsa Família!!!)…

O resultado é que o país está profundamente dividido entre reformistas “liberais” e conservadores religiosos, o que transformou Teerã em uma praça de guerra, colocando a Revolução dos Aiatolás em risco. A prova da atual instabilidade política iraniana foi a abertura de um inquérito para apurar as acusações de fraude no processo eleitoral, pedido pela autoridade máxima do país, o aiatolá Ali Khamenei, um eleitor confesso de Ahmadinejad. Tal como no Brasil, a suspeita é que isto tudo acabará resultando em uma gigantesca pizza, mas tudo é possível em um país à beira de um conflito civil de maiores proporções…

Enquanto isso, do outro lado do Muro, o governo israelense do Likud continua coerente com o seu programa de governo. Em descompasso com o processo de “descompressão” promovido pela adminstração Obama, Benjamin Netanyahu anunciou o seu próprio programa de “normalização” com os palestinos – que bem poderia receber a alcunha de programa “Faca no
Pescoço”: desmilitarização da Autoridade Palestina, Jersualém como capital indivisível do estado judeu e uma nuvem de dúvidas quanto aos assentamentos israelenses em território palestino. Ou seja, estaca zero. Tudo como antes no quartel de abrantes…

Inegavelmente, os sinais dos movimentos políticos emitidos na região são bastante interessantes, apesar de contraditórios, tornando o cenário na região altamente complexo (desculpem o pleonasmo, meus caros leitores). Os EUA e os sunitas ganharam no Líbano, mas não levam sem os xiitas de Nasrallah. No Irã, provavelmente Ahmadinejad terá a sua vitória confirmada, mas terá claramente de reorientar o seu programa de governo a fim de atender as demandas urgentes da classe média urbana e intelectualizada por maior liberdade. O presidente Obama parece firme em sua disposição de negociar com os extremistas da região, e recentemente um alto membro de sua administração encontrou-se com o presidente sírio Bashar al-Assad. Por seu turno, Israel sem os EUA é um “rato que ruge”, e dificilmente Bibi irá atacar as instalações nucleares iranianas sem o apoio dos norte-americanos.

E, para temperar a mistura, o caos impera no Iraque, no Afeganistão e no Paquistão – que, diga-se de passagem, possui um arsenal nuclear! Isso sem falar no “maluco” do King-Jong Ill…

Ou seja: aguardemos as cenas dos próximos capítulos…
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