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DOLCE FAR NIENTE

Sei que ando em dívida com os meus leitores – poucos, eu diria, porém fiéis e muito preciosos. Sei que vocês esperaram o feriado na expectativa de que esse Escriba que vos fala postasse aqueles típicos comentários que tanto caem no gosto dos leitores do PRAGMA – ácidos, inusitados, surpreendentes. No entanto, confesso que, neste final de semana prolongado, não fui capaz de satisfazê-los. E, desde já, as minhas sinceras escusas…

Tenho trabalhado muito – assustadoramente, diria eu – nos últimos meses. São viagens, aulas, palestras, reuniões, conferências, preparações de apresentações, networking, correções de prova e de trabalhos. Sobra pouco tempo para escrever e estudar – duas das atividades que me são as mais queridas e empolgantes de toda a minha vida. A atual sensação que tenho é que vivo em um tempo de urgência, onde tudo é para antes e para já, onde as experiências presentes se liquefazem em um piscar de olhos – ou melhor, em um passar de segundos -, sem que tenhamos a possibilidade de aproveitá-las em toda a sua plenitude. Males da modernidade líquida, diria o cientista social e filósofo Zygmunt Bauman, onde a armadilha do tempo presente e da recompensa imediata nos faz perder a perspectiva de futuro, de longo prazo.
Nunca as pessoas tiveram tanta vontade de saber o que eu penso, o que eu acho, qual a minha opinião sobre as coisas, sobre o mundo, sobre o país, sobre a política, sobre o Marketing. Nunca eu tive tão pouco tempo para mim mesmo…
Veio o feriado, e prometi a mim mesmo que sorveria doses generosas das lições de Epicuro – mais fruição, menos frenesi (more fruition, less frantic). A despeito de ser um assumido workhaholic, às vezes preciso de um tempo mais espaçado, menos compresso, mais prolongado, a fim de que eu possa realimentar o meu espírito e o meu intelecto. Afinal, apesar de alguns anos mais tarde, continuo no fundo sendo o mesmo camarada que, nos tempos de universidade, absorvia com deleite as aulas de filosofia grega, os clássicos da literatura, o cinema europeu de avant-garde, os grupos de estudo regados a doses cavalares de coffee & cigarettes – apesar de ter deixado de fumar há muitos anos atrás…
Preciso de calma para absorver o que freneticamente leio, posto que devoro vários livros ao mesmo tempo; de isolamento para escrever as linhas que teimosamente se postam em branco na tela do meu notebook; de tempo para sorver uma xícara de ristretto fumegante, e que inunda de cores e cheiros a tela impressionista da minha mente; de contrição para ver uma película que me emociona, me contagia e me toca a ponto de produzir uma lágrima, um sorriso, um encantamento; de meditação, para ouvir o som do trompete de um Miles Davis, que exala dos fones do meu iPod – o meu mais novo e querido gadget eletrônico. Enfim, apesar de tudo e da minha hiperatividade, sou um ser humano que, como qualquer outro, às vezes precisa de um stop and go.
Tenho horror ao automatismo existencial: viver a vida no automático não é comigo! Preciso urgentemente do calor que me aconchegue, do conhecimento que me diga que preciso saber mais e mais, de pessoas que me desafiem sem serem excessivas ou invasivas, de sons que inundem a minha alma de prazer, de gostos que tomem de assalto as minhas papilas gustativas, de cheiros que me inebriem e acariciem! Preciso de nada, de tudo e de coisa alguma! Tudo simultaneamente…
Portanto, meus amigos leitores, sejam indulgentes com esse Escriba que vos fala. Nesse feriado que termina hoje, comportei-me tal como um epicurista ortodoxo, imerso no simples prazer do dolce far niente. Claro que o frio outonal-invernal que arrebata a Cidade Maravilhosa neste mês me ajudou nesta empreitada. Assim como o espresso fumegante que sai da minha cafeteira, e o jazz que inunda a minha sala…
O meu notebook, impávido e enigmático tal como a Esfinge que desafortunadamente Édipo enfrentou em Tebas, sempre me impõe uma desconfortável pergunta: “O que irás escrever hoje?”. Confesso que a minha mente “deu um branco”, encolheu-se com o frio, entorpeceu-se pelo excesso. Amanhã, eu prometo, volto com mais histórias para contar, coisas para falar e escrever.
Enquanto isso, aceitam uma xícara de espresso?
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Categorias:Meus contos, Pensamentos
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