O SURPREENDENTE OBAMA

Sinceramente falando, deve ser um fardo e tanto ser Presidente dos Estados Unidos. Única superpotência mundial, fulcro do crescimento econômico mundial após a Segunda Guerra Mundial, a América é fonte de inspiração e ódio para toda a humanidade. Como qualquer ser ou entidade polêmica, as pessoas ou amam ou odeiam os EUA. Não há meio termo…

Os atentados de 11 de setembro, a catastrófica presidência de George W. Bush e a arrogância mesclada com um certo grau de ignorância e etnocentrismo ajudaram a impulsionar um sentimento anti-americano nas últimas décadas – espalhado, diga-se de passagem, nos quatro cantos do mundo. Ele é encontrado na América Latina, onde governos populistas de esquerda vociferam contra o colonialismo ianque. É visto no mundo árabe, todos os dias, na Faixa de Gaza, no sul do Líbano, em atentados suicidas no Iraque e nas montanhas entre o Afeganistão e o Paquistão. Encontra-se, em doses mais discretas, no desafio chinês e nas críticas européias contra o american way of life, impulsionadas pela crise financeira global.

No entanto, quando menos se espera, a democracia norte-americana consagra à presidência um afro-americano, filho de uma família de muçulmanos, cujo nome é exótico para alguns – Barack Hussein Obama – e muito familiar para outros tantos. A sua presidência ocorre em um mundo cada vez mais hostil: a ameaça nuclear oriunda do Irã e da Coréia do Norte, a crise econômica mundial e a grave crise do emprego nos EUA, a ameaça terrorista da Al-Qaeda, o conflito isrealo-palestino… Ufa, que agenda!

Nesta quinta-feira, Obama proferiu o seu mais aguradado discurso – desde a sua posse – na tradicional e antiquíssima Universidade do Cairo, no Egito. Foi o seu mais contundente statement sobre o as relações entre a América e o Islã até então proferido. Numa simples palavra, o discurso é surpreendente…

Surpreendente pela franqueza como foram abordados temas notadamente espinhosos e sensíveis. Pela primeira vez em muitas décadas, nunca um presidente norte-americano foi tão respeitoso com a tradição do Islã, citando várias vezes em seu speech trechos do Alcorão, preocupado em denunciar a armadilha midiática ocidental que tenta identificar a religião muçulamana à intolerância e ao ódio. Ambos os males existem em todos os contextos, inclusive nas três religiões monoteístas, não sendo uma exclusividade dos falantes da língua árabe. Abordando a sua história familiar, Obama exortou os líderes islâmicos a dialogarem de maneira construtiva e profícua com o mundo ocidental, numa relação que não é de rivalidade mas sim de mútuo respeito, consonância e coexistência pacífica.

Obama também abordou outras questões tais como a refutação do extremismo religioso, a importância da estabilização do Afeganistão, o direito ao auto-governo no Iraque, o fechamento da prisão de Guantánamo, a defesa da democracia e dos direitos humanos. Enfim, uma ruptura total e completa da política norte-americana para com a região nas últimas décadas, que foi dominada pela cartilha dos neocons e “falcões” de plantão.

O que mais impressiona em Obama é a sinceridade expressa em seu rosto. É um presidente trustable, suas intenções parecem ser sérias e esta atitude é extramente importante em um processo de confidence building – no momento em que extremos opostos sentam ao redor de uma mesa para negociar. O grande desafio de Obama, no entanto, são os seus interlocutores na região – leia-se Ahmadinejad, Netaniahu, Hamas, Hezbollah, Bashir al-Assad, Hosni Mubarack…

Me desculpem os petistas de plantão, mas Obama é o cara!

Para quem quiser, abaixo segue o link para ter acesso ao full speech de Obama no Cairo:

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  1. Rodrigo Queiroz
    junho 4, 2009 às 7:36 pm

    Belo post!

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