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DICA DE CD – MILES DAVIS: "Kind of Blue"

Aqueles que acompanham o PRAGMA com regularidade sabem do gosto desse Escriba pelo rock – e, em especial, pela música pesada. Em verdade, a “culpa” desse meu gosto deve-se em grande parte aos meus irmãos – um tanto o quanto mais velhos do que eu -, que me criaram envolvido pelos sons de guitarras distorcidas e baterias pesadas. Enquanto a minha irmã curtia um som mais folk-psicodélico – de grupos como Beatles, Bob Dylan, John Lennon, Yes, Rick Wakeman -, o meu irmão pegava mais pesado – o primeiro disco tecnicamente de rock que escutei foi o Made In Japan do Deep Purple (um clássico!). Daí, a porteira foi aberta, e foi assim que bandas como Black Sabbath, Iron Maiden, Nazareth, Led Zeppelin e outros tantos entraram na minha vida. O resto é história…

No entanto, o que poucos sabem – somente as pessoas que me são mais íntimas – é o meu enorme gosto pelo jazz e pela música clássica. Essa vertente eu herdei dos meus pais, em especial o jazz, que embalava os sonhos e anseios do meu velho e querido pai. Às vezes, eu chegava em casa e o flagrava absorto, perdido em meio a pensamentos, ao som de big-bands orquestrais dos anos 1940 e 1950, além de crooners que ele sempre admirava. Faziam parte da constelação sonora do meu pai as famosas big bands de maestros como Benny Goodman, Cab Calloway, Duke Ellington, Harry James e Tommy Dorsey, além de cantores e cantoras do quilate de Ella Fritzgerald, Bilie Holliday, Sarah Vaughan, Frank Sinatra, dentre outros. Para além do meu gosto pessoal, assistir a qualquer filme de Woody Allen é uma experiência profundamente emocionante para mim, posto que a trilha sonora de seus filmes sempre me remete à figura de meu pai…
Meu pai, bem entendido, era um cara das antigas, um fã de standards e de canções que fizeram a “cabeça” da geração pós-guerra. Eu, como todo o filho que se preza, procurei buscar outras formas de jazz, a despeito de compartilhar com ele o gosto pelos standards. Enveredei por outros caminhos, mais tortuosos e dissonantes, do be bop, do hard bop, do cool jazz, do free jazz, do jazz modal, do fusion, e de outras tantas maluqices – “barulhos”, como ele dizia – que também fazem parte do meu caótico e eclético panteão sonoro…
Em particular, tenho os meus músicos prediletos. Todos, é claro, expoentes de uma clara tendência a romper com os cânones estabelecidos, a buscar novas direções musicais, experimentando novas formas de composição, novas linguagens, novos caminhos. Alguns deles: Dizzy Gillespie, Charlie Parker, Bill Evans, Chet Baker, John Coltrane, Wayne Shorter, Ornette Coleman, Jaco Pastorius, John McLaughlin, dentre outros tantos…
Um deles, porém, é o meu predileto por esses motivos: sua atitude, a sonoridade do seu trompete, a ousadia de suas composições, ao assumir riscos sempre, ao estar sempre na frente, na vanguarda, adiante, buscando dialogar com outros estilos musicais, miles ahead… Sim, estou falando do único, genial e imortal Miles Davis.
Falar de Miles Davis é sempre um problema – delicioso, sem sombra de dúvida! -, dada a multiplicidade de sua obra. Quando os músicos de jazz estavam fazendo be bop da “pesada” nos anos 1940 e 1950, o camarada estava na direção oposta, fazendo parte do movimento do cool jazz (Birth of The Cool, 1949-1950); com os primeiros quinteto e sexteto, com os quatro discos gravados de “tacada” em 1956 com os singelos títulos de Relaxin’, Cookin’, Steamin’ e Workin’; com a parceria com o maestro e arranjador Gil Evans, produzindo verdadeiras “obras de arte” como Miles Ahead (1957), Porgy and Bess (1958) e Sketches of Spain (1959-60); com o virtuosístico segundo grande quinteto, dando origem a pérolas como E.S.P. (1956), Miles Smiles (1966), Sorcerer (1967), Nefertiti (1967) e Miles In The Sky (1968); com a transição para a polêmica fase do fusion e do electric jazz, primeiro com In a Silent Way (1969), depois com o seminal Bitches Brew (1970), seguido de On The Corner (1972) e Tutu (1989). Ou seja, o cara esteve preente em quase todos os momentos criativos do gênero…
No entanto, um deles se destaca como um de seus discos mais importantes, o ápice de sua obra, o verdadeiro divisor de águas do gênero, que reinventou o estilo rebatizando-o com a alcunha de jazz modal. Trata-se do magistral álbum Kind Of Blue (1959), gravado por um time de músicos do sonho: além de Miles Davis no trompete, figuram os pianistas Bill Evans e Wynton Kelly, os “monstros” do saxofone John Coltrane e Julian “Cannonball” Adderley, o baixista Paul Chambers e o baterista Jimmy Cobb – o único remanescente ainda vivo da formação clássica, e que encontra-se em plena atividade.
Kind of Blue é a opus magna de Miles Davis, o auge do seu poder criativo e da sua capacidade de extrair o melhor de músicos tão díspares e com temperamentos tão diferentes entre si. O introspeccionismo e a melancolia dos acordes de Bill Evans contrastam com o vigor dos solos de Coltrane, tudo isso emoldurado pela firme liderança e poder criativo do bandleader, inspiradíssimo em seus solos. Desde os famosíssimos acordes iniciais de So What, passando pelo vigor de Freddie Freeloader, a belíssima balada Blue In Green, a magistral All Blues (desculpem os puristas, para mim a melhor música do disco!) até chegar em seu epílogo com a inspiradora Flamenco Sketches, todas as composições são ímpares, verdadeiras pedras preciosas belamente lapidadas e buriladas. Não há palavras par descrevê-las, e somente a audição do disco consegue expressar o impacto que essa obra exerceu em inúmeros músicos e compositores no mundo inteiro…
Para quem quiser saber como foi o processo de composição e gravação da obra, recomendo fortemente a leitura do livro do jornalista especializado em jazz Ashley Kahn, intitulado Kind of Blue: a história da obra-prima de Miles Davis (Editora Barracuda). É também uma leitura deliciosa…
Escutar um disco como Kind of Blue, assim como alguns álbuns de John Coltrane – tais como Giant Steps (1960), A Love Supreme (1965) e Ascension (1965) – acaba por tornar-se uma experiência mística, transcedental, religiosa, que beira ao êxtase tamanho o sentimento de fruição estética experimentado pelo ouvinte. É daqueles discos imortais, obrigatórios para qualquer amante da boa música, item indispensável na discografia da música mundial. A prova disso é que, mesmo após meio século de seu lançamento, o álbum continua vendendo em média 5 mil cópias por semana no mundo inteiro !!!…
Em um mundo tão efêmero, descartável e fugaz, precisamos de algumas amarras para que não fiquemos à deriva de seu frenesi. Kind of Blue é uma dessas amarras. Miles Davis é seu artífice; os seus músicos seus cúmplices; e os seus ouvintes agradecem, extasiados, encantados. Tal como uma prece, uma relação direta com a luz e a eternidade…
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Categorias:CD, Jazz, Música
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