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A CRISE ECONÔMICA E OS CONSUMIDORES DE RENDA ELEVADA

Parece que realmente o mundo está prá lá de caótico. Já não bastasse a crise econômica, agora é a vez da pandemia global de gripe suína, o que reforça ainda mais o sentimento de que algo de muito estranho está acontecendo em nosso planeta. Sem dúvida alguma, a Terra está clamando por socorro! Além disso, será que isto é um indicador de que estaremos, dentro de pouco tempo, a dar um basta no nosso estilo de vida excessivamente consumista e predatório?

Não sou muito fã de catastrofismos e previsões escatológicas, mas que a coisa está esquisita, ah meus caros leitores, isso está…

Crises, a despeito da dor e do sofrimento de muitos, são momentos ideais para refletirmos criticamente sobre questões mais abrangentes, de âmbito global, e que acabam por impactar sobre as nossas vidas e das pessoas que nos são queridas. Sem dúvida alguma, desde o final do ano passado que a humanidade está em franco processo de revisão de suas crenças, valores, atitudes, comportamentos, isto é, de sua maneira de viver e de consumir os recursos do nosso meio ambiente. E o impacto destas reflexões sobre os nossos hábitos de consumo são mas do que evidentes…

Várias pesquisas estão sendo feitas no mundo inteiro a fim de detectar tais mudanças nos padrões de consumo. Sites de tendências globais como o WGSN já indicaram uma retração do consumo, com as pessoas buscando assumir atitudes mais frugais, conservadoras e retraídas – uma migração da opulência para a austeridade. Questões ecológicas também despontam nas preocupações dos consumidores, especialmente entre os europeus e os norte-americanos – além do mais agora, com o surto da gripe suína.

E no Brasil? Continuamos a sustentar padrões de compra e atitudes das décadas anteriores? Ou então, estamos embarcando nessa mesma onda global?

Primeiro, brasileiros por definição são “descolados” diante de situações de crise econômica, posto que vivemos durante décadas em contextos desse tipo, o que nos faz menos catastrofistas e mais adaptados a tais circunstâncias. Portanto, é de se esperar que as tendências observadas no Hemisfério Norte sejam difundidas com menor força entre a nossa população. Pode-se dizer que, de tanto viver na corda bamba, brasileiros são mais estóicos e menos desesperados diante de cenários mais cinzas e reservados…

Já postei anteriormente que a classe C vem refreando o seu ímpeto de compra, muito mais em função do aperto de crédito que as empresas que operam nesse segmento vem experimentando, do que uma mudança substancial de hábitos de compra. No entanto, na parte de cima da pirâmide, entre os consumidores mais afluentes, parece que a coisa está um pouco mais confusa.

A pesquisa “Consumo em Tempos de Crise”, realizada pelo Instituto Observatório de Sinais e publicada na edição da segunda-feira passada no jornal Valor Econômico, mostra o quão dissonantes se encontram os consumidores de maior poder aquisitivo em nosso país. Por dissonância, entenda-se aqui a presença de opiniões contraditórias e antagônicas, o que reflete o estado de tensão que se passa na cabeça destas pessoas…

Entrevistas feitas com 614 consumidores entre 18 e 64 anos, das classes A e B, todos com educação superior e moradores das regiões Sul e Sudeste, entre os meses de fevereiro e março desse ano, mostram algumas coisas interessantes. Em comum, uma certa decepção com o estilo de vida consumista, opulento e mais superficial. Para eles, ganhar dinheiro não deve ser confundido com ganância, apesar de que 84% dos entrevistados concordaram com a frase “não sendo contra a lei, todo esforço vale para ganhar dinheiro”. No mínimo, isso indica uma hesitação no que diz respeito aos padrões éticos de conduta, uma dificuldade em demarcar as fronteiras entre o que é certo e o que é errado…

Outro dado interessante é que 95% dos entrevistados relataram ter mudado os seus padrões de consumo em direção a hábitos mais ecologicamente responsáveis, elevando a sua preocupação com os impactos sociais e ambientais do consumo conspícuo. 71% disseram estar economizando mais água, 66% estão reciclando o lixo e 42% reduziram o seu consumo de energia elétrica.

Também, 93% dos entrevistados afirmaram que tendem a consumir produtos sustentáveis, desde que estes sejam mais descolados, inspiradores, com um design atraente e de acordo com as tendências da moda. Isto é outro paradoxo significativo do levantamento, dado que nem sempre produtos ecológicos e sustentáveis rimam com um design atraente e inspirador. Ou seja, abre-se um grande espaço tanto para produtos sustentáveis quanto bens de luxo de encontrar um meio termo entre estes dois extremos…

Muitos desses consumidores estão praticando o downshifting, isto é, estão migrando das marcas de luxo e aspiracionais para marcas mais básicas e de menor preço. Isso é especialmente notado no setor de vestuário, onde as lojas de grife estão sendo trocadas pelas lojas de departamento, que, além dos preços mais em conta, vem atualizando as suas coleções nos últimos anos. Portanto, no que toca as classes A e B, a infidelidade à marcas vem se tornando a tônica do momento. É a hora do “slow fashion” – roupas mais baratas, clássicas, mais austeras e duráveis – em detrimento do “fast fashion”, que dominou o setor nos últimos anos…

Tudo indica que esta crise levará a uma transformação de fundo dos padrões de consumo global. É como se a humanidade estivesse vivendo um momento de transição mais significativo, e não apenas uma adaptação a um interstício passageiro de um período de “vacas magras”. Tudo leva a crer que estamos na virada de uma sociedade opulenta e esbanjadora para uma sociedade pós-consumista. No entanto, só o tempo irá dizer se esse caminho irá se afirmar de fato…
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