SAIA-JUSTA

Há pouco tempo atrás comentei aqui no PRAGMA sobre o estreitamento das relações entre o Brasil e o Irã, a reboque da aproximação empreendida pelo governo Obama em direção ao regime dos aiatolás xiitas. Além dos interesses econômicos complementares em jogo (serviços vs. petróleo), tal movimento se justifica pela necessidade premente de abertura de novos mercados para os produtos brasileiros, empreendida pelo Itamaraty durante o governo Lula.

O ápice desse processo irá ocorrer no próximo dia 6 de maio, onde o presidente da república persa, Mahmoud Ahmadinejad virá ao Brasil em visita oficial acompanhado de uma significativa comitiva de políticos, membros do executivo e empresários iranianos. Pelo menos, seria o ápice desse processo…

No entanto, o lamentável discurso de Ahmadinejad proferido na última segunda-feira, por ocasião da abertura da conferência da ONU sobre o racismo, negando o Holocausto e afirmando com todas as letras a sua posição discricionária e anti-semita contra o povo judeu, pôs tudo a perder. E, a reboque, colocou o presidente Lula em uma saia justíssima perante a opinião pública mundial…

Para quem não conhece o presidente iraniano por essas bandas, trata-se de uma versão oriental do presidente venezuelano, o nosso campeoníssimo boquirroto “sem noção” Hugo Chávez. O que, na América do Sul, pode parecer histrionismo e galhofismo discursivo, torna-se dramaticamente explosivo no conflituoso cenário do Oriente Médio, dado o Irã ser peça importante tanto na normalização das relações entre os países árabes quanto no contencioso árabe-israelenese.

A despeito de todas as críticas – muitas delas bastante razoáveis – que porventura possam recair sobre a postura do estado judeu nos últimos sessenta anos, a racionalidade política deve prevalecer contra a politicagem de baixíssima qualidade, o populismo de péssimo gosto e atitudes irresponsavelmente carbonárias. Destruir é facílimo, mas construir é uma tarefa para poucos – normalmente, para estadistas…

Ahmadinejad, um presidente impopular em fim de mandato (e com remotas chances de ser reeleito), contrariamente aos aiatolás que detêem o poder de fato no Irã, faz parte do time do “quanto pior melhor”. Um político elementar, ferrabrás, populista e raso em termos de relações internacionais, só não “entornou o caldo” de vez graças à realpolitik dos clérigos xiitas que comandam o país, uma das maiores potências no Oriente Médio e na Região do Caúcaso, abençoada por seus enormes recursos energéticos e amaldiçoada por seus sangrentos e irresolutos conflitos étnicos e nacionalistas…

E é para eles, e não para Ahmadinejad, que Obama estende a sua mão em diálogo, procurando distender as relações bilaterais que encontram-se congeladas há décadas, desde a eclosão da Revolução Islâmica e a crise dos reféns americanos na década de 1980. Para qualquer especialista em Oriente Médio, o Irã é importante demais para ser deixado de fora em qualquer processo de paz na região. E, graças a Bush filho, o único país que fazia um contraponto à influência iraniana – o Iraque – foi devidamente destruído, muito em função de um arrivismo infantil que pontuava as relações de W. com Saddam Husseim, além dos interesses das grandes corporações americanas nas reservas de petróleo do país.

Com o Iraque fora de combate, o Irã – junto com a Síria – resolveram flexionar os músculos com maior desenvoltura, disputando a hegemonia da região frente à Arábia Saudita, cujo regime wahabbista gerou a Al-Qaeda. Por causa desta tensão é que países menores, como o Líbano e os próprios territórios palestinos, se vêem arrastados para o olho do furacão uma vez que são os verdadeiros tabuleiros nos quais são travados os conflitos desta verdadeira “Guerra Fria” pela hegemonia no mundo árabe. Barack Obama, mais smart e sofisticado intelectualmente, compreendeu rapidamente esta nuance da política regional, e tratou já de tentar trazer os regimes iraniano e sírio para a mesa de negociação – leia-se, acalmar o Hezbollah libanês e o Hamas palestino, a despeito deste último ser sunita. Claro que, entre as boas intenções e os resultados efetivos, há um largo abismo que os separa. No entanto, até o presente momento, ninguém pode recriminar Obama por não tentar aproximar atores que até pouco tempo atrás eram totalmente alijados do processo…

Voltando a Lula, Ahmadinejad colocou-o em uma tremenda fria! Fontes do Itamaraty informaram que Lula pontuará ao presidente iraniano a sua posição de repúdio ao discurso do colega, recriminando veementemente qualquer tipo de defesa do racismo e do anti-semitismo. Se ele vai fazer isso a contento, nós teremos a oportunidade de conferir daqui há duas semanas…

Ao fim e ao cabo, tudo isso pode ser creditado às “dores de crescimento”, isto é, vinculado aos problemas de translação de poder de um país que, além de ser uma potência regional, afirma-se cada vez mais no cenário mundial como um ator de peso nos mais diferentes fóruns internacionais – leia-se, G-20, OMC e a ONU. Portanto, a solução deste constrangimento passa por Lula condenar fortemente a posição de Ahmadinejad, além de afirmar a tradição brasileira de tolerância frente às diferentes etnias, credos religiosos e povos que convivem há séculos pacificamente em nosso território.

É também a hora do Itamaraty mostrar para o mundo a sua tão propalada fama de eficiência na gestão de conflitos entre interesses divergentes. E, mais ainda, de afirmar a nossa capacidade de liderança como um dos mediadores de conflitos mais importantes do sistema internacional. Ou seja, um verdadeiro teste de fogo para um país que quer projetar-se no cenário internacional em pleno início do terceiro milênio…

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