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MÚSICA CLÁSSICA REINVENTA-SE PARA SOBREVIVER

Um dos setores que mais drasticamente sofreu os impactos da internet e das TICs foi a indústria fonográfica. Para os artistas, a internet representou a libertação do jugo draconiano das gravadoras, enclausuradas em seus dispendiosos modelos de negócios calcados em critérios que nem sempre valorizavam a qualidade e a criatividade dos músicos, compositores e demais profissionais da área. Para os executivos do setor, no entanto, a internet foi uma hecatombe, tamanho o efeito desestruturador de suas estratégias de produção, comercialização, distribuição e promoção de seus produtos. Definitivamante, depois da internet, todos os envolvidos no segmento de música não são mais os mesmos…

Até há pouco tempo, o segmento de música clássica parecia imune ao avanço da internet – mais afeita aos consumidores de estilos musicais como o rock, o rap e o hip-hop, posto serem mais jovens, urbanos e íntimos do meio digital -, dado que seus apreciadores são mais velhos, de maior poder aquisitivo e escolaridade, além de apresentarem um comportamento que pode ser definido como sendo o de “colecionador”. Melômanos apreciam CDs – antes, discos de vinil -, seus encartes explicativos e informações adicionais, a despeito de toda a discussão em torno da perda de qualidade de determinados timbres sonoros quanto da passagem do vinil para o CD. Enfim, enquanto o restante da indústria musical parecia estar afundado no atoleiro, o nicho de música clássica parecia estar imune a isto, nadando a largas braçadas…

No entanto, como diria o velho cancioneiro popular, nem tudo são flores. O principal problema desse nicho de mercado é o envelhecimento de seu público, e a consequente falta de renovação dos seus apreciadores. Não irei aqui fazer uma análise sociológica da evolução do conceito de música na sociedade ocidental, bem como as respectivas transformações que a audiência sofreu ao longo dos séculos. No entanto, uma coisa é certa: a música clássica perde cada vez mais apreciadores, e corre o risco de se tornar uma coisa de iniciados, restrita a um círculo de pequenos – e eruditos – entendedores. Quem conhece um pouco a história de compositores como Haendel, Bach, Vivaldi, Mozart e Beethoven, acostumados a tocar e compor para grandes públicos, sabe que a lógica do exclusivismo é um contra-senso para qualquer artista, uma vez que ele deseja que a sua obra seja apreciada pelo maior número de pessoas possível.

Talvez, essa lógica seja apenas contrariada pela música contemporânea, cada vez mais hermética, fechada, encriptada e racionalmente encapsulada. Edgard Varèse, Pierre Boulez, John Cage, Steve Reich, Karlheinz Stockhausen e outros tantos fazem parte desse seleto time. Mas, convenhamos, a proposta desses músicos é outra…

Esse panorama acendeu a luz vermelha para compositores, maestros, melômanos e a indústria como um todo. Novas estratégias estão sendo utilizadas para criar novos públicos, adequando os espetáculos para essa nova geração de consumidores, tornando-os mais didáticos, atraentes e interativos. Enfim, a indústria musical está tentando resgatar o conceito de experiência atrelado à fruição estética e ao prazer de apreciação da música clássica.

Tais estratégias são, geralmente, de dois tipos: a primeira, passa pela reinvenção da experiência do concerto; a segunda, a ampliação da platéia com a utilização de novos recursos tecnológicos, provenientes da internet e das TICs. No domingo passado, o Caderno 2 do Estado de S. Paulo apresentou uma longa e bastante esclarecedora reportagem sobre esse assunto. E, segundo a mesma, pelo menos até agora os resultados parecem ser bastante promissores…

Já estão se tornando cada vez mais frequentes no mundo inteiro, inclusive no Brasil, concertos onde o próprio compositor é “interpretado” por atores famosos, que explicam ao público o contexto de cada obra, bem como outras informações que ajudam a audiência a aproveitar de maneira mais prazeirosa a peça musical que é apresentada na sequência. Além disso, um produto derivado desses concertos-didáticos é a gravação de DVDs que, adicionados a outros recursos ausentes na apresentação ao vivo, ajudam o espectador a entender as diferentes nuances e aspectos da obra de cada compositor. Uma espécie de intertexto – ou melhor, um hipertexto – que aproximaria cada vez mais o público da obra, rompendo com a aura de formalidade, sofisticação, erudição e até mesmo pedantismo que cerca o universo da música clássica.

Além disso, um outro movimento de reinvenção passa pela ampliação da audiência, buscando-se extravasar o universo do público contido nos teatros e salas de concerto. Essa experiência tem dado belos frutos no âmbito específico da ópera – uma composição tida como complexa, altamente elaborada, e que implica que o apreciador domine diferentes recursos simbólicos como o canto, a música, a poesia e a orquestração. O maior exemplo desta tendência são as iniciativas do Metropolitan Opera de Nova Iorque, que tiveram início há cerca de dois anos na Europa e nos EUA, e que procuram levar para a telona dos cinemas multiplex produções do porte de uma Aida, um Parsifal, uma Flauta Mágica.

Essa experiência de ampliação da audiência é fantástica em meu entendimento, uma vez que os ingressos para um espetáculo desse tipo são caríssimos – dada a complexidade da produção e de todos os envolvidos – e disputadíssimos, sendo esgotados em poucas horas, invariavelmente nas mãos do mesmo público de aficcionados – que, diga-se de passagem, são endinheirados. Além disso, a transmissão destes eventos nas salas de cinema oferece a oportunidade para que públicos diferentes possam ter acesso à apresentações de obras pouco frequentes em seus países – especificamente no Brasil, temos o caso das óperas de Wagner que, por sua monumentalidade e complexidade de produção (leia-se, o magnífico conjunto das óperas que compõem o ciclo O Anel dos Nibelungos), são raras por aqui.

Para termos idéia do sucesso dessa iniciativa, desde 2007 cerca de 1,25 milhão de pessoas assistiram aos espetáculos promovidos pelo Metropolitan Opera em vários cinemas ao redor do mundo. No Brasil, onde esse projeto existe desde janeiro desse ano, já foram contabilizadas aproximadamente 33 mil espectadores. A última ópera, exibida no mês de março passado, foi transmitida para 33 salas de cinema em todo o país.

Parece também que os internautas descobriram a música clássica. Cerca de 15% dos downloads de música em todo o mundo são de faixas de artistas clássicos, e aproximadamente 1,4 milhão de internautas baixaram gratuitamente as nove sinfonias de Beethoven, disponibilizadas no site da BBC Radio 3 em 2007, num espaço de duas semanas. Ou seja, a internet vem a passos largos se tornando uma mídia de comercialização e distribuição importante para o segmento da música erudita.

De tudo isso, pode-se deduzir que algo extremamente salutar vem acontecendo: os clássicos vem saindo de seu “casulo” de erudição e pernosticismo, tornando-se apreciados por (novas) audiências cada vez maiores, graças a inovadoras performances ao vivo que contam com recursos tecnológicos cada vez mais sofisticados. Mais uma vez, o mantra de marketing ecoa solenemente: o que é ameaça para alguns, se transforma em oportunidade para outros…

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