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SESSÃO DE CINEMA – "W."

Conforme já disse algumas vezes aqui no PRAGMA, sou fã do chamado cinema de diretores. Também pudera, minha cultura cinéfila remete aos anos 1980, onde surgiram espaços alternativos fora do “circuitão” blockbuster. Estes eram a Estação Botafogo, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e a Cinemateca do MAM, verdadeiros bastiões de resistência contra o pastiche cultural enlatado – nossa, parece discurso de esquerdista naif! -, nos permitindo sempre que possível acompanhar uma programação cult que alimentasse os nossos cérebros – e, porque não, as nossas angústias existenciais…

Minha geração – desculpem, meus queridos leitores, por esse papo de velho – foi fortemente banhada em livros e filmes. O meu treino intelectual se deveu, em grande parte, a um mix bastante interessante e profícuo entre letras e imagens, contrariamente à atual geração pontocom (ou net generation) que trafega com muito mais desenvoltura pelo mundo imagético-virtual-hipertextual (como diria Pierre Lévy) do que na unidimensionalidade do texto escrito – como dizem os meus alunos, livros são chatos, enfadonhos, pouco envolventes e nem um pouco divertidos, quanto mais interativos! Ou seja, um fenômeno típico de mudança de gerações…

Como não poderia deixar de ser, uma geração jovem, culta, intelectualmente arrogante e ensimesmadamente pretensiosa como a minha preferia filmes “difíceis”, de diretor, com atores cultuados, tramas densas e complexas, repletas de questões filosófico-existenciais. Para ajudar, o cardápio de diretores era generosamente variado e excepcionalmente bem dotado: figuras importantíssimas da história do cinema como Fellini, Godard, Bergman, Resnais, Wenders, Buñuel, Bertollucci, Greenaway, Cronemberg, Fassbinder, Kieslowski – em sua grande maioria esmagadora, eu diria, composta por diretores europeus. Afinal, quando o assunto é decadência e senso de vertigem, nada melhor do que um bom filme europeu para aguçar os nossos sentidos…

Diretores americanos, de antemão, eram sempre mal-vistos, dada a superficialidade e o etnocentrismo chauvinista da visão do “americano médio”. Afinal, tiros, resgastes suicidas, bombas, explosões e “brucutus” combatentes do crime organizado à la Charles Bronson e Chuck Norris não combinavam com uma geração preocupada com outros tipos de questões, menos pedestres e mais urgentes.

Evidentemente, haviam exceções a essa regra – poucas, mas haviam. Por exemplo, Woody Allen, o mais europeu dos cineastas norte-americanos, era figurinha fácil nas hostes cinéfilas. Suas personagens existencialmente atormentadas, suas tramas psicanalíticas e verborrágicas, eivadas de sutil ironia e auto-comiseração, eram um prato cheio nas rodas de chope do final de semana, nos grupos de estudo de Lacan, Deleuze, Guattari e Foucault, bem como nas (várias) xícaras de café no intervalo das aulas na universidade…

Outro darling da galera era Oliver Stone, o engajadíssimo diretor cuja crítica ferrenha ao establishment americano nos indicava que havia vida inteligente ao norte do Rio Grande. Filmes como Salvador – O Martírio de um Povo (1986), o memorável Platoon (1986), o corrosivo Wall Street (1987), o libelo carbonário Nascido em 4 de Julho (1989), o belo e psicodélico The Doors (1991), o denso JFK (também de 1991), o histriônico e frenético Assassinos por Natureza (1994), Nixon (1997), todos os seus filmes abordam de maneira extremamente ácida e corrosiva a história recente dos EUA, literalmente um império com pés de barro (ou, seria melhor, de sangue?). Stone filma como um insider, narra como um espião e age como um correspondente de guerra que, direto do front, relata os paradoxos e as inconsistências dessa sociedade tão complexa que é a norte-americana.

Movido por isto, e também por uma tremenda curiosidade, fui assistir a W. (2008), a cáustica e mordaz biografia romanceada sobre a presidência de George W. Bush, filho de George H. Bush, e considerado um dos piores, mais medíocres e intelectualmente limitados ocupantes da Casa Branca dos últimos tempos. Como Stone é um democrata de quatro costados, e W. um “jegue” (literalmente!), certamente não iria ficar pedra sobre pedra. Daí, seria uma oportunidade e tanta para dar boas e largas gargalhadas – coisa que eu estava precisando…

W., como o esperado, é nitroglicerina pura, uma detonação sem dó nem piedade, uma grande piada do início ao fim – e bota piada nisso! Seria uma bela e divertida soap opera, caso as implicações funestas da presidência de Bush Jr. não fossem tão nefastas para a ordem mundial atual, cujas rebarbas estamos até hoje atolados. O filme, assim como a sua personagem principal, é um croquis, um rascunho, um pastiche, uma cópia mal-acabada, com tons kitschs que chegam às raias do grotesco, dada a própria personalidade de Bush Jr. – retratado no filme como um playboy problemático e imaturo, um filhinho rico bêbado e fanfarrão, a pular de emprego em emprego, de fracasso em fracasso. É um mulherengo contumaz, piadista politicamente incorreto, uma alma atormentada até encontrar a sua futura mulher Laura e ser tocado pela palavra de Deus – Bush Jr. é um reborn christian, nascido no seio de uma família protestante de missão, que é renascido no seio do cristianismo pentecostal, cuja conversão o faz renascer das cinzas e da lama em direção a uma fé ardorosa porém naif, tornando-o uma personagem assaz perigosa – como nos mostrou a história recente – apesar de sua suposta ingenuidade…

O foco do filme gira em torno da invasão do Iraque, na chamada Segunda Guerra do Golfo, ocorrida após os atentados de 11 de setembro. Nela, Stone nos mostra o quão Bush Jr. cometeu o pecado capital de misturar problemas pessoais com questões políticas – contrariando, inclusive, um conselho de seu pai quando presidente. Aliás, o filme inteiro desnuda a luta do filho enjeitado que almeja o amor e o respeito parentais, numa hercúlea tentativa de desvencilhar-se tanto da imagem do pai aristocrático e perfeito quanto da sombra do irmão capaz e predileto (e que, mais tarde, tornou-se governador da Flórida). Utilizando uma terminologia jungiana, Bush Jr. luta o tempo todo para individualizar-se, isto é, afirmar-se enquanto indivíduo com uma identidade separada da imago paterna.

No entanto, os seus conflitos internos e sua superficialidade psíquica – nossa, que pleonasmo! – o tornam uma caricatura abrutalhada, patética e “tonta” de seu pai – esse sim, um velho representante da aristocracia norte-americana, e que teima em não abrir mão de suas arraigadas convicções pessoais e morais, mesmo que isto lhe traga funestas consequências políticas (o que realmente houve, por não ter se reelegido mesmo com a vitória na Guerra do Golfo, tragado por uma crise econômica sem precedentes, e que ironicamente acometeu o final de mandato da presidência de seu rebento…).

Bush Jr. é um fundamentalista religioso naive, um cowboy mentalmente limitado, que lida com o mundo de maneira superficial e com óculos maniqueístas, reduzindo os conflitos a uma questão de preto vs. branco, nós vs. eles, aliados vs. opositores. Mostra também o quão distorcido é um sistema político capaz de tornar presidente da única superpotência mundial um indivíduo com tais características – e com todas as implicações que todos nós estamos cansados de saber…

Especificamente, Josh Brolin está fantástico no papel de W., em uma interpretação caricatural que beira o grotesco – diga-se de passagem, bem a contento da personagem central da película. James Cromwell empresta um ar severo, grave e aristocrático a Bush pai, estabelecendo um contraponto ideal entre criador e criatura. No entanto, as interpretações mais marcantes estão nas personagens de Karl Dove – o estrategista e arquiteto político dos Bush, interpretado por Toby Jones, que mais parece um misto de Gandalf e Sméagol do Senhor dos Anéis – e do vice Dick Cheney, interpretado por Richard Dreyfus, o grande manipulador de Bush Jr., uma eminência parda e detentor dos segredos do poder, e também um neocon e um plutocrata de primeiríssima qualidade, apesar das humilhações que sofre do próprio presidente. Outra coisa digna de nota é o caráter também caricatural e ácido que Stone dá na trama as personagens de Colin Powell, Donald Rumsfeld e Condolezza Rice, denotando a atmosfera de mediocridade e simplismo que assolava o gabinete de Bush Jr.

Apesar de não ser um dos melhores filmes de Oliver Stone (longe disso!), W. é uma peça irônica e histriônica sobre uma das personagens mais importantes da história mundial recente. A cena recorrente do protagonista em um estádio de beisebol vazio é por demais eloquente, e retrata o ar lastimável e retrógrado que foi a sua presidência. Seu caráter short-sighted, histriônico e mentally retarded revela um dos capítulos mais patéticos do ocidente contemporâneo – o que nos garante, em comepnsação, ótimas gargalhadas, nos ajudando a entender um pouco mais a erosão do poder norte-americano no cenário internacional.
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