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SESSÃO DE CINEMA – "VALSA COM BAHIR"

Valsa com Bashir (Vals im Bashir, 2008) é um filme impactante, perturbador, recomendado apenas para os espíritos mais ousados dotados de estômago forte. Assisti-o em plena segunda-feira à noite, em um cinema vazio, com alguns casais conversando animadamente, comendo pipoca sofregamente e se beijando em plena projeção. Me perguntei o que leva as pessoas a assumirem uma atitude deste tipo em um filme tão tétrico como este. Cinismo? Atitude blasé? Justificativa para um encontro amoroso? Talvez a resposta seja outra. Para mim, ocorre nestes casos algo semelhante ao relatado pelo protagonista da película: um avassalador mecanismo de defesa contra o cenário de horrores que desfila ao longo de 1 hora e 30 minutos de imagens do mais puro surrealismo…

O filme do diretor israelense Ari Folman é uma inusitada e criativa mistura de animação e documentário, cujo mote é a invasão de Israel ao Líbano em 1982 – denominada de “Operação Paz na Galiléia” -, no auge da tensão do conflito israelo-palestino durante a década de 1980. Durante essa época, Israel considerava o Líbano um “santuário” dos militantes palestinos – um raciocínio semelhante ao estabelecido pelos estrategistas norte-americanos quanto ao Cambodja, também considerado um “santuário” dos vietcongs em plena Guerra do Vietnã. O diretor, que participou como soldado na invasão com apenas 19 anos, procura neste filme exorcizar os seus fantasmas e angústias. O resultado, e eu não temo em traçar essa aproximação, assemelha-se ao genial, cultuado e também tétrico Apocalipsye Now, de Francis Ford Coppola. Afinal de contas, muitos analistas afirmam que o Líbano é o grande Vietnã de Israel, e o filme não deixa dúvidas quanto a isto…
Valsa com Bashir é uma espécie de Em Busca do Tempo Perdido em versão infernal-psicodélica posto que o protagonista, anos após o encerramento do conflito, sai em busca de suas recordações motivado pela angustiada confissão de um colega, atormentado por sonhos recorrentes de morte, ruína e destruição alusivos ao evento. Em sua viagem pelos recônditos da mente, Folman – que empresta sua vida ao personagem – paulatinamente resgata as suas impressões sobre tais acontecimentos após falar com colegas e superiores de batalha, além de jornalistas e outros amigos. Sua angústia se justifica pelo fato de ter “apagado” de sua mente toda e qualquer lembrança referente a sua estadia no Líbano – exceto por uma lembrança onírica e distorcida, fruto do trabalho psíquico do inconsciente -, em um caso típico de síndrome traumática proveniente do estresse da guerra. Por se tratar de um filme israelense, impossível deixar de lado questões psicanalíticas referenciadas à vida inconsciente, ao papel alusivo dos sonhos, à função econômica do recalcamento, etc e tal…
O filme seria mezzo sessão de terapia psicanalítica mezzo viagem pop-lisérgica – vale lembrar que a estética da animação ajuda em muito nesse sentido -, se o filme não abordasse um dos episódios mais indecentes da demencial Terceira Guerra Civil do Líbano, que ceifou o País do Cedro durante o longo período de 1975 a 1992. Essa gigantesca esxcrescência atende pelo nome de massacre aos campos palestinos de Sabra e Chatila, uma série de assassinatos em massa perpetrados pelos falangistas cristãos libaneses em 17 de setembro de 1982, em represália ao assassinato do recém eleito Presidente Bashir Gemayel – filho do lendário líder falangista Pierre Gemayel, e irmão de Amin Gemayel, posteriormente alçado à Presidência em sucessão ao irmão tombado – ocorrido em 14 de setembro de 1982.

Mais indecente ainda – como se isso pudesse acontecer – foi o fato de que os massacres ocorreram sob as “barbas” do exército israelense, na época ocupando uma Beirute sitiada e destruída pelos conflitos entre cristãos e muçulmanos, palestinos e nacionalistas, que assistiram à tudo de longe sem, em nenhum momento sequer, intervir no rumo dos acontecimentos, impedindo à consecução de tamanha barbárie. E é essa atitude ambígua e cínica dos comandos israelenses – em especial, do comandante-em-chefe das Forças Armadas, Ariel Sharon – que o filme de Folman explora, um tanto o quanto pontual e tangencialmente. Impossível assistir sem ficar chocado. A cena final do filme, diga-se de passagem, dá cores vivas ao sofrimento oriundo da onipresença de Tânatos, a divindade grega da morte e da destrutividade – que, na linguagem psicanalítica, é o nome com o qual Freud alcunha a famosa Pulsão de Morte
Ao final, o filme funciona como uma espécie de catarse tanto para o diretor quanto para o espectador, só que em diferentes direções, além de nos lembrar do nonsense que é a guerra. No entanto, e este é um ponto decepcionante da película, uma série de questões levantadas pelo filme ficam totalmente em aberto – como, por exemplo, o retorno problemático dos soldados à Israel após o conflito, a atmosfera punk-lisérgica de “no future” que embala a juventude israelense, a hipocrisia dos políticos e os “senhores da guerra”. Porém, o mérito do diretor é inquestionável, uma vez que é uma oportunidade de abordar um dos conflitos mais importantes da história recente do Oriente Médio pela ótica israelense – no caso, a dos “vencedores”.
Diferentemente de outra animação que recentemente comentei aqui no blogPersépolis, de Marjane Satrapi, dotado de um lirismo e uma delicadeza inquestionáveis -, Valsa com Bashir é um soco na boca do estômago. Ele ilustra de maneira nua, crua, sem sutilezas – e até mesmo beirando às raias da pornografia – a ação da Pulsão de Morte personificada na insanidade da guerra – a despeito de momentos oníricos e de rara beleza, além de belas metáforas que beiram à psicodelia. Definitivamente, o “documentário” de Folman é perturbador, terrivelmente desestabilizador. Apesar de ser um fenômeno da civilização humana, acho a guerra bestial, demoníaca, alucinante e terrível – tantos para vencedores quanto para vencidos. E o filme é um lembrete sobre o quão devastador para a subjetividade humana pode ser um circo de horrores como esse…
Confesso que terei dificuldades para dormir esta noite. Talvez seja por isso que eu estou a escrever até a essa hora, tentando esconjurar os demônios que teimam em emergir das frestas mais recônditas e engimáticas da mente humana. A obscuridade, o mal radical em si, a negatividade em seu estado mais puro é demasiadamente perturbadora, insuportavelmente virulenta, terrivelmente devastadora. Talvez, só a poesia possa servir de antídoto para esse horror que é inerente à natureza humana: o seu caráter animalesco e destrutivo…
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