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RELAÇÕES BRASIL – IRÃ GANHAM FÔLEGO

A atual política externa do Governo Lula vem sofrendo uma série de críticas dos mais variados tipos por parte de políticos da oposição, professores e especialistas em Relações Internacionais, jornalistas e think-thanks especializados em política externa na América Latina. As diretrizes da atual diplomacia brasileira são claras, e representam uma ruptura com a desenvolvida nos anos do Governo FHC, onde privilegiavam-se as relações Norte – Sul (em especial, entre os Estados Unidos e a União Européia), além do aprofundamento da integração no Cone Sul por intermédio do Mercosul. No entanto, com a ascensão de um novo grupo político ao poder, é óbvio que novas prioridades e instrumentos diplomáticos entram em jogo no exercício da diplomacia internacional.

Em primeiro lugar, o Brasil volta a reivindicar – de maneira um tanto o quanto veemente – um espaço maior nos fóruns decisórios internacionais. Isto vale para organismos multilaterais como o FMI e o Conselho de Segurança das Nações Unidas, além de uma maior participação em fóruns “infomais” como o G-8 e o G-20.

Em segundo lugar, o país adotou uma política comercial mais agressiva tanto em negociações bilaterais quanto nos fóruns multilaterais do comércio mundial, como no caso da mal-fadada Rodada Doha promovida pela OMC. Para isso, se manifesta uma das características mais significativas do Itamaraty no Governo Lula: um estreitamento das relações com os países integrantes do chamado BRIC (Brasil, Índia, Rússia e China), além de um esforço maior de promoção comercial no eixo Sul – Sul – em busca de parceiros em áreas anteriormente não tão exploradas, como na África e nos Países Árabes. Em decorrência disso, há um esfriamento das relações com os países desenvolvidos como os Estados Unidos – imerso em problemas de segurança nacional desde os atentados de 11 de setembro – e a União Européia – imersa em sua política agressiva de subsídios à produção agrícola européia, além de severas e cada vez mais humilhantes restrições aos imigrandes oriundos da América Latina.

Outro ponto importante a ser destacado é o viés “de baixa” em que atualmente se encontra o Mercosul. A Argentina, o principal parceiro comercial e sócio do Brasil nessa empreitada, há bastante tempo imersa em sérios problemas econômicos e políticos, vem adotando uma série de medidas protecionistas que colocam em risco o futuro do projeto de integração do Cone Sul. Além disso, os parceiros menores do bloco – Paraguai e Uruguai – reinvindicam uma série de ressalvas que também tornam cada vez mais o Mercosul um “zumbi”, um “cadáver insepulto”.

Outro complicador na esfera regional é a emergência de regimes políticos à esquerda no continente – leia-se a Bolívia, o Equador e o Paraguai -, além da diplomacia estridente e histriônica do presidente venezuelano Hugo Chavez, que envolvem o Brasil em contenciosos políticos e comerciais cada vez mais frequentes e perigosos com os seus vizinhos – e que tendem a aumentar conforme o Brasil afirme cada vez mais a sua liderança econômica e política na região…

No entanto, vários fatores levaram a uma correção atual de rumos na política externa brasileira – um setor governamental fundamentalmente influenciado pelas alterações no cenário internacional. O primeiro deles foi a eleição de Barack Obama para a presidência norte-americana, um verdadeiro avanço para um país até pouco tempo governado de maneira paranóica, tacanha e short-sighted por um dos mais limitados governantes que o país já teve. Obama recebeu no fim do mês passado o Presidente Lula na Casa Branca, e demonstrou a sua disposição em desenvolver uma política para a América Latina baseada em um conjunto de novas atitudes e um olhar renovado – leia-se, diálogo e cooperação -, para uma região negligenciada por oito anos de governo republicano.
O segundo elemento, deveras complicador, é a grave crise do sistema financeiro internacional ocorrida no final do ano passado, e que levou a uma severa redução do comércio internacional e do PIB mundial. Para nós brasileiras, tal retração é de extrema importância dado que vários setores altamente competitivos da nossa atividade produtiva foram seriamente afetados – leia-se companhias como Vale, Embraer, Gerdau, CSN, além do segmento automobilístico – dada a sua elevada dependência da demanda do mercado externo.

Tudo isso tem levado o Itamaraty a prospectar novos oportunidades comerciais em regiões do globo, que outrora eram pouco importantes e negligenciadas na ótica da política externa brasileira. Esse é o caso dos países do Oriente Médio e da África. No caso africano, além dos laços étnicos e linguísticos com países como Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, também despontam as iniciativas comerciais com potências regionais como África do Sul e Nigéria. Tudo isso sem falar nos países do Magreb (Norte da África) – como Líbia, Argélia, Marrocos, Tunísia e Egito – que, tecnicamente são africanos, mas ligados étnico e linguisticamente ao mundo árabe…

No caso dos países árabes, o Brasil desenvolve uma política pendular na região desde o final do século XIX, com a visita do Imperador Pedro II ao Líbano e a Terra Santa. Nos anos 1970 e 1980, com a crise do petróleo e a diplomacia do governo militar, foram notórios os contratos de exportação de armamentos e de infra-estratura para países como o Irã, o Iraque e a Arábia Saudita. No entanto, desde as duas Guerras do Golfo, a política externa brasileira tem sido bastante tímida para com a região do Levante e do Golfo Pérsico – em grande parte, tal leniência se deve às enormes pressões exercidas por Estados Unidos e Israel. A retomada das relações com os países árabes foi dada pelo Governo Lula com a organização de duas Cúpulas América do Sul – Países Árabes – a primeira, realizada nos dias 10 e 11 de maio de 2005 em Brasília, e a segunda realizada no último final de semana em Doha, capital do Catar.

Nesse contexto, ganha destaque o anúncio da vista oficial ao Brasil do presidente iraniano Mahmoud Ahmdinejad, que deverá ocorrer até o próximo mês de junho desse ano. O polêmico presidente – responsável por lamentáveis declarações como a de que o Holocausto é uma peça de ficção da propaganda sionista – já tinha anunciado a sua intenção de visitar o país no âmbito de uma turnê à América do Sul realizada no final de 2007, que passou em países parceiros como Venezuela e Bolívia. Numa ótima saída diplomática, o Itamaraty agradeceu a intenção, mas sugeriu que a visita oficial se desse em outro contexto – a fim de desvinculá-la do espectro chavista, o que certamente iria colocaria o Brasil numa tremenda “saia-justa” com o governo norte-americano.

Em 2008, o assunto foi retomado com a visita do chanceler Celso Amorim à Teerã, e que foi retribuída na semana passada pela visita de uma delegação de vários ministros iranianos à Brasília, chefiados por Manouchehr Moutakki, ministro das Relações Exteriores do Irã. Nessa ocasião, a delegação iraniana reuniu-se com cerca de 60 executivos brasileiros ávidos para entabular relações comerciais com esse país que foi uma das grandes potências do mundo antigo. O adensamento das relações Brasil – Irã é nítida, porém discreta: em média, a cada ano, três ministros iranianos vêm em visita oficial ao Brasil.

Evidentemente que tal aproximação vem sendo impulsionada pelo “degelo” das relações EUA – Irã, promovida pelo recente Governo Obama. O Irã, como todos sabem, é um país-chave – junto com a Síria – no xadrez estratégico de regiões turbulentas do globo como Oriente Médio, a região do Cáucaso e a Ásia Central. País de maioria xiita cercado por um mundo de sunitas, o Irã rivaliza com a Arábia Saudita e o Egito pela hegemonia da região, financiando movimentos regionais de contestação nacional como o Hezbollah (no Líbano) e o Hamas (na Faixa de Gaza). Há um certo consenso entre os especialistas em Relações Internacionais de que a normalização da questão palestina passa pela inclusão do Irã nas negociações com Israel – o que, no contexto da ascensão do Likud no atual governo israelense, torna-se complicado, mas não impossível.
Como diz um grande amigo meu judeu, muitas pessoas se esquecem que a direita israelense foi a única capaz de fazer a “paz” com países árabes como o Egito e a Jordânia. Lembrem-se, disse-me em um lauto e maravilhoso almoço, de Menachem Begin

Conforme artigo do jornalista Sergio Leo na edição dessa segunda-feira no Valor Econômico, o Irã é um dos maiores produtores mundiais de petróleo, mas importa 40% do seu consumo de gasolina e óleo diesel, e é o único país da região que possui uma produção significativa de cana-de-açúcar – o que o torna um possível parceiro do Brasil nessa área. Em 2007, foi o maior importador de milho brasileiro, o segundo de açúcares e produtos de confeitaria, o terceiro de óleo de soja, o quarto de carne e miúdos e o sexto de soja. Além disso, o Irã foi o principal mercado para o Brasil no Oriente Médio nos anos de 2006 e 2007, e o maior superávit comercial – cerca de US$ 1,1 bilhão em 2008. No entanto, as vendas brasileiras para o Irã caíram do patamar de US$ 1,8 bilhão em 2007 para US$ 1,1 bilhão em 2008, em parte pela valorização do real frente ao dólar, pela resistência dos bancos brasileiros a aceitar cartas de crédito dos bancos iranianos, além da preferência do país em negociar com parceiros alinhados politicamente – casos de Cuba e Venezuela.

Recentemente, o país persa iniciou um tímido processo de privatização em função da retração da atividade econômica e do elevado desemprego, que vem contribuindo para a queda de popularidade do presidente Ahmadinejad – muito analistas inclusive duvidam que ele possa se reeleger nas eleições majoritárias no meio do ano. Para isso, o Irã vem buscando investidores para setores econômicos estratégicos como siderurgia, indústria petrolífera e petroquímica. Vale lembrar que a Petrobrás possui algumas áreas de exploração naquele país.

Vale lembrar que, além da aproximação com o Irã, Lula também visitou países chamados de “problemáticos” – no linguajar da diplomacia norte-americana – como a Líbia e a Síria. Tal aproximação deve ser vista no contexto das relações Sul-Sul, e da busca obsessiva por novos parceiros comerciais. Nesse sentido, a diplomacia brasileira faz agora um gol de placa, e essa é a grande janela de oportunidade para ampliação de nossos mercados internacionais…
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