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SESSÃO DE CINEMA – "GRAND TORINO"

Ando ultimamente muito preocupado com determinadas questões de cunho existencial. Não sei se é a crise dos 40 chegando, onde somos quase que “obrigados” a fazer um balanço de nossas vidas e operar correções para o futuro que se descortina. De fato, por esses dias constatei o fato de que cheguei à metade de minha vida, e daqui para a frente estarei “descendo a ladeira” (literalmente). Confesso que, por causa disso, ando bastante angustiado e introspectivo…

Questões que outrora nem faziam parte dos meus pensamentos, agora “martelam” sem parar na minha cabeça. Futuro, envelhecimento, decadência física e mental, longevidade, existência e, principalmente, a morte, estão se tornando questões urgenciais, quase metafísicas para mim. Desculpem o clichê, meus caros leitores, mas o velho trinômio “de onde vim, por que vim e para onde vou?” me acompanham desde a xícara de café preto no desjejum matutino, até a taça de vinho à noite, que me deixa levemente entorpecido, ajudando-me a cair no sono. Por essas e por outras questões, me identifiquei profundamente com o último filme do diretor norte-americano Clint Eastwood, Gran Torino (2008)…

Nunca gostei de filmes de “porrada”, onde a ação violenta gratuita assusta mais do que entretêm. Também, quando penso em Clint Eastwood, a primeira imagem que me vem a cabeça é a do famoso detetive brucutu, politicamente incorreto e misógino, “Dirty” Harry Callaghan, que inspirou mais tarde vários outros avatares do cinema tais como Conan, o Bárbaro, Rambo, Cobra, além dos “inesquecíves” personagens encarnados por canastrões como Charles Bronson e Chuck Norris. Apesar de todo o nazismo subliminar e a tese tosca e superficial da “limpeza social” da criminalidade com base no assassinato, no fundo sempre achei estes filmes um tanto o quanto engraçados – confesso, uma espécie de humor negro, que sempre me acompanhou – e me acompanha até hoje – ao longo da minha vida…

No entanto, o tempo foi amainando os instintos agressivos de Eastwood, e ele passou a atuar e dirigir grandes – e belíssimos – filmes. Eastwood esteve presente em filmaços como Bird (de 1988, a belíssima biografia do genial saxofonista de jazz Charlie Parker), o genial western Os Imperdoáveis (de 1992, com sua marcante interpretação do anti-herói William “Bill” Munny), o tocante As Pontes de Madison (de 1995), o tétrico e forte Sobre Meninos e Lobos (de 2003, com uma inesquecível atuação de Sean Penn), Menina de Ouro (de 2004) e o denso e metafórico díptico sobre a Segunda Guerra Mundial, Cartas de Iwo Jima e A Conquista da Honra (ambos de 2006). Aliás, Gran Torino pode ser entendido como uma espécie de continuação destes dois últimos filmes, por abordar temáticas comuns tais como a violência, o compromisso ético e a decadência da sociedade norte-americana…

No entanto, dois temas dominam o roteiro de Gran Torino: o envelhecimento – com uma sensação de amarga nostalgia – e as profundas alterações do tecido social americano, especialmente ocorridas após o final da Segunda Guerra Mundial, e aceleradas pelas Guerras da Coréia e do Vietnã…

O ator/diretor encarna Walt Kowalski, um ex-combatente da Guerra da Coréia e metalúrgico aposentado da Ford, que vive a sua velhice em uma Detroit absolutamente modificada, onde os jardins impecavelmente cuidados das casas de famílias W.A.S.Ps deram lugar a um subúrbio decadente e violento, repleto de emigrantes que mal falam o inglês e de gangues de adolescentes negros, latinos e asiáticos, que vivem às turras. O início do filme se dá a partir da morte de sua mulher, e seu distanciamento dos filhos e netos. Tudo bem, Kowalski é um velho rabugento e com um péssimo mal-humor, um idoso misantropo, que vive a resmungar e despejar impropérios e piadas as mais obscenas e políticamente incorretas possíveis sobre negros, irlandeses, homossexuais, italianos,latinos, judeus e asiáticos. Kowalksi é um anti-herói no sentido mais estrito do termo, e nada mais natural do que a antipatia que a personagem desperta nos espectadores…

No entanto, ele é muito mais do que isso. Kowalski é o ícone da Velha América, da televisão e da sociedade de massas, onde a vida era severamente regulada pelas regras da vida comunitária – os famosos subúrbios das grandes cidades, suas igrejas, seus bares, pistas de boliche e drive-thrus, loci do sonhado american way of life. Habituado a uma vida espartana, onde o trabalho árduo convive com o sentimento “machão”, regiamente cultivado em bares, quilos de piadas indecentes e misóginas, galões de cerveja e uísque, além de conversas truncadas repletas de ofensas e um profundo senso de união e companheirismo, ele se sente – e é – um verdadeiro “peixe fora d’água” nos dias de hoje. A decadência da juventude, representada pelos seus filhos, netos e jovens da vizinhança, consolidam ainda mais a sua misantropia e olhar distópico sobre o mundo.

Pai de filhos que ele mesmo mal se relaciona – um deles, inclusive, é vendedor de carros japoneses, um anátema para um nacionalista inveterado como ele -, e avô de netos consumistas e interesseiros que não lhe dão a mínima, Kowalski cultiva um duro sentimento de auto-suficiência em um bairro cada vez mais hostil. Sentado em sua varanda pela manhã, acompanhado de sua cadela (o único ser vivo que ele demonstra nutrir algum tipo de afeto) e um cooler repleto de cervejas, ele se cerca de ícones americanos – a bandeira americana que tremula em sua casa, as latas geladas de Budweiser e o esmero em cortar a grama do jardim – que funcionam como uma espécie de envoltório protetor, um refúgio contra uma vizinhança estrangeira que mal fala o inglês, e que demonstra nítidas dificuldades de adaptação ao entorno em que vivem…

No entanto, algumas personagens quebram o isolamento monástico do old man: a esperta e descolada adolescente Sue e seu irmão Thao, além do jovem padre católico Janovich, conseguem penetrar na bolha insondável de pensamentos torturados pelos horrores da guerra, pela sensação de finitude da vida e pelo envelhecimento. Paulatinamente, Kowalski emerge das sombras sem perder as suas características, e até o seu final ele busca cumprir com retidão irrepreensivelmente ética o seu final – aliás, surpreendente, diga-se de passagem…

Gran Torino – o carro que dá nome ao filme, um esportivo “clássico” dos anos 1970 – é o reflexo da passagem do tempo, de um momento histórico que não irá voltar, uma ode aos tempos em que a tenacidade, o esforço pessoal e o trabalho árduo eram os ingredientes necessários para lidar com as agruras da vida. O senso de família, de comunidade e de nação se vêem destroçados por esses tempos pós-modernos, regulados pela “força de laços fracos”, termo cunhado pelo cientista social Richard Sennett. Kowalski, contrariamente ao seu automóvel que é conservado de maneira impecável, é um velho homem que rapidamente enferruja à mercê das intempéries de uma sociedade corroída, moralmente decaída e desiludida consigo mesmo, com tudo e com os outros…

Para além disso, há na película uma reflexão de cunho metafísico acerca da vida e da morte, da longevidade e da finitude, e do non-sense da existência, representada pela relação de Kowalski com os filhos, os netos e o jovem padre. Impossível não se emocionar com isso, e o filme gera um tremendo desconforto em quem, como eu, anda preocupado com estas questões…

Por fim, Eastwood afirmou em várias entrevistas que este seria o seu último filme como ator. Velho de guerra, quase oitentão, testemunha dos altos e baixos da América e com uma carreira cinematográfica invejável, ele é um dos grandes nomes do cinema mundial nos dias de hoje. Daí, vale a pena correr ao cinema e emocionar-se com a despedida deste velho durão, praguejador e resmungante que, nos interstícios de seus impropérios, nos faz pensar, rir e se emocionar. Impossível não olhar para ele e não se reconhecer, tal como um espelho invertido de nossas vidas…
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