A CRISE E O BRIC

Apesar de nós, brasileiros, sermos experts em crises econômicas – afinal, vivemos nelas durante a década “perdida” de 1980 e o início dos anos 1990 -, é sempre um frisson quando tais oscilações da economia mundial acontecem. Apesar de toda a retórica governamental em contrário, os indicadores mostram que a crise atingiu em cheio o país, comprometendo as metas de crescimento econômico para esse ano. A retração da produção industrial, a escassez do crédito e a consequente forte diminuição do consumo das famílias são dados de realidade, maiores do que qualquer tentativa de maquiagem de dados, fanfarronices ou histrionices que os nossos governantes costumam ter nessas horas…

A globalização, ocorrida a partir da segunda metade da década de 1990, colocou os chamados países “emergentes” no centro do debate da economia mundial, como nações que teriam um melhor posicionamento diante das novas oportunidades dispostas nesse novo ambiente de negócios, marcado pela liberalização da comércio mundial e a livre circulação de capital. Daí, surge o termo Bric – cunhado por Jim O’Neill, diretor de análise econômica global do Goldman Sachs.

Gestado em meio ao trauma dos atentados de 11 de setembro de 2001, o termo abrange as cinco economias emergentes mais dinâmicas, que seriam dominantes até o ano de 2050. O conceito, marca do neoliberalismo econômico destes anos, é o acrônimo de países como o Brasil, a Índia, a China e a Rússia que, juntos, teriam 25% do território da Terra, 40% da população mundial, um gigantesco mercado consumidor interno e um PIB total de US$ 15,5 trilhões – cerca de 3% do PIB total mundial . Em um espaço de meio século, tais países tornar-se-iam grandes players da economia mundial, dividindo o espaço com os Estados Unidos, a União Européia e o Japão.

No entanto, a pergunta que não quer calar é se a atual crise arrefeceria o ímpeto de crescimento do Bric. Uma entrevista bastante interessante com o autor do conceito foi feita em fevereiro desse ano pelo The Wall Street Journal, e publicada na semana passada pelo jornal Valor Econômico. A seguir, destaco o que mais chamou a minha atenção nesta conversa.

Em primeiro lugar, destacou-se a possibilidade de ampliação do conceito visando o ingresso de outros países, por compartilharem das mesmas características do grupo do Bric. Segundo O’Neill, países como México e Indonésia atualmente já possuem uma certa robustez econômica que justificaria o seu ingresso nesse clube. Inclusive, o entrevistado defende a mudança da sigla para o acrônimo Bricm, o que já incluiria o país latino-americano fronteiriço com os EUA. Coréia do Sul e Turquia também seria países candidatos a ingressar no círculo, apesar de apresentarem território e população em menor escala.

Em segundo lugar, aborda-se a questão do impacto da atual crise no países integrantes do Bric, bem como a possível “exclusão” de algum membro do clube. Apesar de todas as péssimas notícias, o entrevistado não acredita que haja motivo para alarme, uma vez que a previsão do crescimento do PIB desses países feita pelo Goldman Sachs para os próximos 50 anos é prá lá de exuberante – a previsão de expansão é, em média, de 6,3% para a Índia, 5,2% para a China, 4,3% para o Brasil e 2,8% para a Rússia.

Como em uma gangorra, a queda do preço das commodities cria dificuldades tanto para o Brasil quanto para a Rússia – grandes exportadores mundiais de commodities -, ao mesmo tempo que alavanca a expansão das economias indiana e chinesa – por seu turno, grandes compradores de commodities. Em termos de posicionamento competitivo, o Brasil destaca-se como grande produtor de commodities agrícolassoja e cana de açúcar, principalmente – e minerais – ferro, aço e, tudo leva a crer, gás e petróleo -, enquanto a Rússia é um dos principais exportadores de petróleo e gás do mundo. A dependência das commodities energéticas russas ficou em evidência no final do ano passado, dado o “apagão” do gás em pleno inverno europeu, tudo gerado pelo contencioso entre a Rússia e a Ucrânia a respeito do gasoduto que abastece a Europa Ocidental e o Leste Europeu.

Já a China e a Índia, por seu turno, se destacam pela produção de produtos manufaturados e de prestação de serviçosoutsourcing, por exemplo -, responsáveis pela onda de barateamento dos bens de consumo e de serviços no mundo inteiro – basta lembrar os produtos chineses e taiwaneses vendidos a “balde” na 25 de Março, em São Paulo, e no Saara, no Rio de Janeiro. Tudo leva a crer que, com esta queda, o grande beneficiado será a Índia, dada a sua dependência das commodities agríclas, minerais e energéticas

Além do mais, o crescimento econômico dos países do Bric é de fundamental importância no processo de recuperação da economia norte-americana, dado os primeiros serem o destino mais provável – e preferencial – das suas exportações.

Face ao exposto, todo esse cenário adverso coloca em risco a permanência, tanto do Brasil quanto da Rússia, no clube das economias emergentes. Mais especificamente, O’Neill aposta que o Brasil passará com louvor neste teste, o mesmo não podendo ser dito no caso da Rússia. No caso brasileiro, diferentemente de outras crises de anos passados, não houve a necessidade de aumentar a taxa de juros para evitar a fuga do capital estrangeiro, o que por si só é uma prova de confiança na solidez da nossa economia. O mesmo não pode ser dito sobre a economia russa, altamente dependente da exportação de commodities – especialmente petróleo e gás. Além disso, o cenário adverso na região do Cáucaso (os conflitos envolvendo as ex-repúblicas soviéticas como a Geórgia e a Ucrânia), o “grande jogo” geopolítico e energético na Ásia Central e a falta de institucionalização das instâncias democráticas na Rússia, tornam a perspectiva muito mais sombria para a outrora URSS…
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