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SESSÃO DE CINEMA – "O VISITANTE"

América. Land of the freedom, home of the brave. Terra da liberdade, da livre iniciativa, do empreendedorismo, da cidadania e da Emenda Constitucional Número 1. Terra da paranóia exacerbada, do etnocentrismo, da mentalidade estreita, do fundamentalismo cristão, do racismo, da discricionariedade e da intolerância ao próximo. Nunca tantas virtudes e defeitos foram concentrados em um só país, em um só povo, em uma só nação. Definitivamente, a América desperta amores e ódios, revolta e paixão, amplitude de pensamento eivada por uma atitude short-sighted, onde ser americano é sinônimo de ser civilizado. Por exclusão, outside America, everything is uncivilized, everybody is irrational and f@#+%ing barbarian…

Após o 11 de setembro, tudo na América – que já era grande – tornou-se hiperbólico. Os atentados terroristas despertaram nas pessoas o que há de pior nelas, isto é, uma verdadeira “cultura do medo” instalou-se na mente dos americanos graças à máquina propagandística – uma verdadeira “arma de destruição em massa” – de George W. Bush que, a partir de um raciocínio reducionista e maniqueísta, dividiu o mundo entre aliados incontestes e inimigos ferozes dos EUA. Nestes últimos, foram colocados dentro do mesmo saco, críticos mordazes, opositores eventuais e pontuais, analistas de esquerda além, é claro, dos fundamentalistas religiosos islâmicos – desde os wahabitas sauditas até os extremistas xiitas iranianos e libaneses.

Como resultado, W. Bush conseguiu atingir a quase unanimidade: o mundo, hoje, teme a América, despreza o pensamento do americano médio, auto-centrado, racista, etnocêntrico, derrogatório e discricionário. Trata-se de um típico exemplo contra-factual da famosa lei de Nelson Rodrigues, a de que toda a unanimidade é burra…

Todos esses elementos são abordados de maneira dramática e pungente no filme O Visitante (The Visitor, 2007), dirigido pelo norte-americano Thomas McCarthy. É o típico filme pelo qual o espectador não dá nada por ele. Apesar do início modorrento, logo nas primeiras cenas chama muito a atenção a atuação espetacular de Richard Jenkins como o anti-social, “chato de galocha” e entediado Walter Vale, um professor universitário frustrado que nunca termina os seus projetos de vida (aprender piano, escrever um livro, superar o luto da perda de sua mulher), e que vive lecionando o mesmo curso há mais de vinte anos. Haja ataraxia…

Não é à toa que, por esse papel, Jenkins recebeu a indicação do Oscar de Melhor Ator desse ano. Aliás, muitíssimo merecida…

No entanto, um acontecimento inusitado provoca uma gradual mudança em sua personalidade. Ao chegar em seu apartamento em Nova York, Vale depara-se com dois “invasores”: o músico sírio Tarek Khalil e sua namorada Zainab, uma artesã senegalesa. Ambos vivem irregularmente nos EUA e, a partir desse encontro fortuito, Vale encontra uma janela aberta para o mundo a partir do ritmo contagiante do djembe de Tarek, um instrumento africano-magrebino de percussão. Ambos, um W.A.S.P. pernóstico enfadado, e um árabe afável e extremamente sensível, entabulam um diálogo inesperado, e uma amizade cada vez maior graças ao poder sinérgico e transformador da música – uma das coisas mais poéticas do mundo, além, é claro, da dança, do texto e das imagens…

Em uma cena no Central Park, exemplifica-se o poder mágico da música. Músicos de diferentes idades, etnias e credos religiosos tocam em conjunto os seus instrumentos de percussão, em uma fusão frenética de sons, ritmos, gestos e movimentos, tornando colorido um mundo opressivo, estreito, demasiadamente plúmbeo e sem saída…

No entanto, trata-se de um drama, e o resultado nem sempre é feliz para todos…

Por um azar, Tarek é preso pela polícia americana, e ingressa no kafkaniano sistema de imigração norte-americano. Isolado de todos, pesadamente punido por algo que não fez diretamente, o músico sente na pele o sentimento anti-estrangeiro – e, principalmente, anti-árabe e anti-muçulmano – que impera atualmente nos EUA. De um simples drama, o filme se transforma em uma forte denúncia contra a atual política de imigração americana, cujas leis xenofóbicas e draconianas contrastam com a generosa história do país para com os imigrantes, construído em grande parte por levas e levas de estrangeiros desterrados de seus países nos séculos XVIII, XIX e início do século XX.

Vale é apresentado ao lado mais obscuro do seu país, até então reservado apenas aos párias, aos excluídos, aos imigrantes africanos, árabes e latino-americanos. Apesar da ingenuidade e da superficialidade da abordagem da questão, algumas imagens são extremamente elucidativas, tais como a Estátua da Liberdade, os cartazes paradoxais da imigração além, é claro, da onipresente bandeira dos EUA – a famosa Stars & Stripes.

Outra presença marcante é a da mãe de Tarek, Mouna Khalil, vivida pela belíssima atriz israelense de origem palestina Hiam Abbas (que atuou em películas como Munique, Paradise Now, A Noiva Síria, Free Zone e Lemon Tree). Uma interpretação pungente e sofrida (como não poderia deixar de ser, como a mãe que protege o seu rebento a qualquer preço), porém que nos comove pela sua abertura para com a vida, mesmo diante das adversidades e das iniquidades de um país que ela acabou adotando como pátria – e que, como um ingrato inquilino, a rejeita e a expele. Uma bela mulher, no auge de sua meia-idade, cuja beleza está no olhar firme e nos lindos cabelos negros, sem precisar de plásticas, lipoaspirações, botoxes e outras bizarrices do tipo. Assim como Jenkins, a sua presença ao longo do filme é hipnótica, marcante, comovente…

Para quem acha que os filmes norte-americanos são apenas de dois tipos – comédias românticas e humanos lutando contra alienígenas sanguinários -, eis a prova de que há vida inteligente em seu cinema. De vez em quando, somos surpreendidos por estas pequenas produções, bastante baratas (para os padrões hollywoodianos) e do tipo independentes, que tocam em temas sensíveis, colocando o dedo na ferida de questões espinhosas como a intolerância ao outro, o lidar com a alteridade, o medo do estranho e do diferente. Abaixo, segue o link para o trailer do filme:

Saí do cinema extremamente comovido e mobilizado, e recomendo a todos os meus leitores que não deixem de assistí-lo. Gosto destas coisas pequenas, simples e despretensiosas, mas que acabam contando uma história que toca o nosso coração e estimula o intelecto. Afinal, uma das maiores graças da vida – aquilo que a torna comovente e válida de ser vivida – é a surpresa que as pessoas, os eventos, as experiências e os acontecimentos nos proporcionam. E, certamente, O Visitante cumpre com maestria esse papel…

E, para finalizar, uma dica: não percam a cena final do filme. É de chorar de tão poética…
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