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SESSÃO DE CINEMA – "ENTRE OS MUROS DA ESCOLA"

Depois de uma semana bastante produtiva na bela cidade de Florianópolis – que, diga-se de passagem, me lembra bastante o balneário de Búzios, aqui na Região dos Lagos do Estado do Rio de Janeiro -, eis que este Escriba que vos fala volta ao batente da escrita no PRAGMA.

Fui ver o filme ganhador da Palma de Ouro de 2008 do Festival de Internacional de Cinema de Cannes, o badalado Entre os Muros da Escola (Entre les Murs, 2008), do cineasta francês Laurent Cantet. Apesar dos tempos sombrios de crise econômica, onde as pessoas tendem a procurar formas de entretenimento mais leves e escapistas, eu continuo com a minha velha e teimosa mania de ver filmes perturbadores, incômodos e geradores de desconforto. Especialmente para mim, que sou um educador e adoro o que faço, que é ser professor…

Entre os Muros é o típico caso de um filme anti-clímax, cujo desfecho é lúgubre, tétrico e desesperador. É uma espécie de versão às avessas de Ao Mestre, Com Carinho – um dos clássicos “filmes de escola”, filmado em 1967, com uma atuação marcante de Sidney Poitier -, uma vez que não existem vencedores e vencidos ao final da película. Todos saem perdendo: alunos, professores, pais, escola e, principalmente, a sociedade – que entende a escola como um estágio necessário para que o indivíduo possa viver em comunidade e, por consequência, vivenciar o exercício pleno da cidadania. No entanto, ao final do filme, a sensação que fica no espectador é a pior possível – do tipo, there’s no way out…

O filme é rodado quase em sua totalidade na sala de aula, o que o torna um tanto o quanto claustrofóbico – especialmente dado o nível de tensão das relações entre alunos e professor dentro da sala. O protagonista, um jovem e rígido professor de francês, “luta” para lecionar a sua disciplina em uma turma de adolescentes prá lá de “problemática” – desculpem o pleonasmo, meus caros leitores. Até aí tudo bem, posto que espera-se que ao final acabe por reinar o bom senso, e todos saiam vivos – “dentre mortose feridos”. No entanto, se eu tivesse de dar um nome a esse filme, certamente seria “TROUBLE”. Ou melhor, “BIG F+$@!% TROUBLE“.

Não irei aqui ter o desprazer de contar o filme mas, dada a gravidade e a importância da problemática, acredito que todos os que encontram-se envolvidos em algum nível com a escola ou a questão educacional deveriam assistir a esse filme. Vale lembrar que trata-se de um filme francês, que retrata toda a complexidade da realidade educacional no país de Asterix. Agora, imaginem se ele fosse filmado no Brasil? Há um belíssimo documentário do João Jardim, aqui resenhado no PRAGMA, intitulado Pro Dia Nascer Feliz, que tangencia estas questões, abordadas de maneira nua e crua pela película de Carnet.

Mesmo assim, dada as especificidades do caso, os Negritoparalelos com a realidade brasileira são evidentes, cristalinos e fáceis de serem estabelecidos por todos. Daí, a cara de deja vu de todos os espectadores, ao final da sessão…

Cantet faz um filme frenético, estafante e eletrizante, a despeito da problemática árida e o tema nem um pouco emocionante para a grande maioria das pessoas – especialmente para quem não é professor ou(e) aluno. No entanto, a tese bastante popular entre os educadores do mundo inteiro de que todos os problemas emocionais, sociais e cuturais da sociedade convergem para a escola é posta em prática, especialmente em uma sociedade potencialmente explosiva como a francesa, onde cada vez mais o conceito de melting pot se afirma no contexto de uma sociedade etnicamente plural. Em um certo sentido, a tese do “choque de civilzações” do já falecido cientista político norte-americano Samuel Huntington emerge nas frestas de uma educação tensa, onde a convivência entre os opostos e diferentes é dura, tem arestas e é espessa, parafrasaendo o famoso poeta recifense.

Esta sala de aula, composta por adolescentes que vivem, cada qual ao seu modo, a sua via crucis pessoal que é esta fase da vida, a trama se passa em um pano de fundo explosivo, dado que convivem no mesmo espaço alunos provenientes de diferentes países (inclusive ex-colônias francesas), etnias, credos religiosos e opiniões pessoais, com todas as virtudes e problemas que podem daí advir. Jovens chineses, antilhanos, africanos, árabes, muçulmanos, agnósticos, em sua grande maioria provenientes de famílias sub-empregadas, cujos pais, em sua grande maioria, encontram-se clandestinos ou em situação precária na França, tentam sobreviver em uma escola tipicamente cartesiana, onde vigoram a disciplina, a preocupação com as notas e a atitude bastante despótica dos educadores gauleses. Ou seja, nitroglicerina pura, ou então mais um fósforo nesse grande incêndio que é o caldeirão cultural que se transformou a Europa nesse início de terceiro milênio. Impossível não pensar em temas como alteridade, tolerância ao outro, diversidade cultural, e como integrar estes alunos a uma sociedade cujos valores europeus são fortemente arraigados na mente dos educadores. Maior confusão, impossível…

Várias situações se sucedem na película, e enumerá-las não deixa de ser interessante para despertar o interesse de vocês. O cardápio, como em um bom bistrô, é simples, mas delicioso. Temos, por exemplo, o caso dos alunos que destratam os professores, desafiando constantemente a sua autoridade em sala de aula, dado o grau de desconhecimento da sua realidade por parte destes últimos. Ou, então, o caso de professores autoritários, que chegam ao ponto da agressão verbal aos alunos, dado o nível de “burnout” desses profissionais, e que se protegem na “fortaleza” da disciplina e do status quo conservador que cerca a escola. Ou, por último, o caso de diretores burocratas – no sentido weberiano da palavra -, mais preocupados com planilhas de custos e curvas de eficiência e de rendimento escolar, tecnicamente cumpridores do regulamento e usuários tenazes do poder que lhes é conferido pelas autoridades públicas. Enfim, é um filme espantoso, onde ninguém vence, todos se agridem, e ao final saem perdendo…

Entre os Muros é o que, em Teoria dos Jogos, denominamos de um jogo de “soma-zero”, cujo resultado é o pior possível para todos os envolvidos. Para quem for assistir o filme, prestem atenção em uma cena ao final do filme, um diálogo prá lá de melancólico e distópico entre o professor e a sua aluna, travado ao final do semestre. É de chorar…

Trata-se um filme para quem tem estômago, acredita e é compromissado com a educação (mais do que um mero slogan de campanha eleitoral), e acha que o conhecimento tem o poder de libertar as pessoas das trevas da ignorância, da superstição e da intolerância – apesar de que, no filme, nem sempres os mestres são os seres mais tolerantes. Nada mais cartesiano do que esta assertiva, assim como o filme em tela, e em consonância com o que este Escriba que vos fala acredita – e age…
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