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A IRONIA DO DESEMPREGO

O fenômeno do desemprego é dramático para todos os envolvidos nesse processo extremamente desagradável. Vejamos…
a) para o empregado que, numa sociedade capitalista onde o seu valor é auferido pela sua capacidade de gerar dinheiro, se vê à margem da sociedade e, por consequência, afetado em sua mais-valia produtiva, cognitiva, emocional e social;
b) para as famílias, que sofrem uma alteração significativa de seu estilo de vida, sonhos e projetos futuros, dada a necessidade imperativa de exercer cortes drásticos em seu orçamento doméstico e, consequentemente, a redução de itens de conforto outrora conquistados com muito suor, trabalho, tempo e dedicação;
c) para as empresas, que se vêem forçadas a demitir a mão-de-obra na maioria das vezes qualificada, às custas de muito investimento em treinamento e capacitação de pessoal;
d) para os estados e municípios, dada a queda de arrecadação de impostos, a perda do dinamismo econômico e a redução do consumo das famílias;
e) por fim, para a União, uma vez que toda recessão econômica é sinônimo de involução – o que é péssimo para o moral e o ânimo de seus cidadãos.
Paradoxalmente, o desemprego afeta de maneira mais dramática os funcionários de maior qualificação educacional – ou seja, os detentores de um estoque elevado de capital humano (conhecimento, competência e energia investida na tarefa). É público e notório o fato de que no Brasil, assim como no restante do mundo, há o fenômeno da elevada taxa de desemprego entre recém-formados e concluintes de cursos superiores de graduação plena. Parece haver, em uma análise apressada, uma relação inversamente proporcional entre qualificação educacional e empregabilidade. Evidentemente, apesar disso existir, trata-se de uma falácia…

Em nosso caso, esse fenômeno de fato é o resultado direto do aumento significativo de matrículas nos cursos de graduação – e, consequentemente, a elevação do número de indivíduos com formação universitária -, gerando um excedente de pessoal maior do que a oferta de vagas disponíveis no mercado. Isto é, um fenômeno típico da lei da oferta e da procura. Como consequência, o mercado fica cada vez mais seletivo, e pode-se dizer que atualmente os melhores postos na iniciativa privada dependem de qualificações cada vez mais elevadas – MBA, duas ou três línguas, domínio de informática avançada, além de competências intelectuais e habilidades interpessoais. São dores normais do parto de um país que, a cada ano que passa, encara a batalha pela melhor qualificação educacional de seus cidadãos.

Entretanto, existem exceções dramáticas a esta regra microeconômica. Estou falando da demissão de funcionários altamente qualificados, aptos a desempenhar funções super-especializadas e de nicho, e que vêem as suas chances de realocação no mercado de trabalho dramaticamente reduzidas. Essa, por exemplo, é a faceta mais lúgubre do processo de “enxugamento” da fabricante brasileira de aeronaves Embraer, e que foi abordada em uma matéria publicada na edição deste último domingo pelo jornal O Globo.

Dos cerca de 20% da força de trabalho total da companhia – aproximadamente 4.200 funcionários -, uma parcela significativa exercia funções existentes apenas no setor aeronáutico. Isto é o caso de funcionários que trabalhavam no setor de produção de materiais compostos e de montagem de fuselagens. Acredita-se que cerca de 20% do quadro de demitidos ocupa funções que só existiam na Embraer, e certamente estes terão inúmeras dificuldades para se recolocarem no mercado de trabalho.

Para estes funcionários, trata-se de uma verdadeira Escolha de Sofia: ou saem do país para trabalhar nas concorrentes estrangeiras – Boeing, Airbus e Bombardier, que também não estão lá essas coisas -, ou então mudam inteiramente de profissão. Não é preciso nem discorrer sobre os custos elevadíssimos de ambas as opções…

A situação é tão escabrosa que a Prefeitura de São José dos Campos está estudando a adoção de uma série de medidas para minorar os prejuízos dos funcionários demitidos da empresa. Em Brasília, o Presidente Lula – especializado em “jogar para a galera” – solicitou que a Embraer fizesse alguma coisa para auxiliar os demitidos, em reunião no dia de hoje com a cúpula da empresa. Porém, conforme artigo do Elio Gaspari publicado na edição de hoje do mesmo jornal, o Nosso Líder já sabia desde o final do ano que tais cortes iriam ocorrer – e na extensão que de fato aconteceram. E ainda tem gente que acredita nesse joselito verde-amarelo, verdadeiro fanfarrão boquirroto…

O fato é que, disso tudo, fica claro que a economia brasileira está cada vez mais integrada aos fluxos produtivos da economia global. Também é fato de que o capitalismo finalmente vem chegando a Terra Brasilis, tanto em sua faceta dinâmica – ganhos de produtividade, investimentos em inovação e criatividade, aumento de competividade em nichos de mercado nunca antes explorados – quanto em sua faceta destruidora – especulação financeira, demissões em massa, busca incessante do lucro independentemente dos custos sociais, redução do poder de compra das famílias, achatamento da classe média…

Afinal, como afirmou há uma década atrás uma parcela significativa da literatura das ciências humanas e sociais, a globalização – aliás, como qualquer fenômeno social – é um amálgama de ameaças e oportunidades, riscos e vantagens, construção e destruição, estabilização e ruptura…
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  1. Anonymous
    fevereiro 26, 2009 às 7:29 pm

    Caro Mestre,
    mais uma vez, o senhor toca em assuntos vitais e, nesse caso, muito pessoal.
    Além desse dilema no qual o governo tem que atuar, independemente das críticas dos fãs do livre-mercado (como vemos nos EUA); aqui no Rio de Janeiro reparamos na ação da Prefeitura com relação aos empregos informais com o, agora popular, “choque de ordem”. Resumindo: quando alguém teve a oportunidade de se instruir, boa sorte; e quem se vira, também.
    Ah, se Obama, “o salvador do universo”, fosse brasileiro… Aliás, deixa quieto…

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