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>SESSÃO DE CINEMA – "FRONTEIRA"

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Adoro cinema, apesar de achar o ingresso caro para a qualidade de filmes que andam por aí. Afinal, há muitos blockbusters ruins de doer, feitos por “diretores” que privilegiam os efeitos especiais em detrimento da estória, com tramas muito mal construídas e personagens dotados de uma superficialidade ímpar. Enfim uma tristeza de dar dó…

Além disso, o fechamento dos cinemas de bairro durante as duas últimas décadas passadas – dando lugar para igrejas evangélicas, algumas delas verdadeiras “arapucas da fé alheia” – proporcionou o surgimento dos cinemas em shopping centers – os chamados multiplex -, que prometem aos espectadores mil maravilhas: som double surround, poltronas confortáveis, ar condicionado no máximo, e um ar inebriante de pipoca quentinha. Realmente, está tudo lá. Mas, como eu disse, com uma programação ruinzinha de ser ver, e com um precinho que não é nada camarada…

Sou um apreciador inconteste de filmes de arte, e de diretores que se preocupam em construir tramas inteligentes, personagens complexas, que nos levam a refletir e sair da mediocridade cotidiana que nos cerca e nos vicia. Esse meu gosto um tanto o quanto exótico, diga-se de passagem, vem de longa data. Desde o final dos anos 1980, quando de minha graduação em Psicologia lá na UFRJ da Praia Vermelha, sempre que podia eu “fugia” de aulas soporíferas e chatérrimas para ir, ou à Estação Botafogo ou ao Centro Cultural Banco do Brasilpoints cults de minha geração -, para assistir as películas de mestres consagrados como Fellini, Bergman, Antonioni, Godard, Kurosawa, ou então da nova geração de diretores como Wenders, Cronenberg, Lynch, Greenaway e outros que me falham à memória. Foram nesses preciosos anos que forjei o meu gosto cinematográfico, literário e estético de um modo geral…
Infelizmente, esses tempos não existem mais. O número de salas de cinema encolheu, a oferta de filmes ao público diminiu bastante, e obviamente os mais afetados com isso foram os chamados “filmes de arte (ou de diretor)”. Por exemplo, aqui no Rio de Janeiro, tirando os cinemas da rede Estação, o Espaço Unibanco e alguns poucos museus e centros culturais, quase não há locais dedicados à exibição destes filmes. O cinema, tal como as outras atividades culturais, virou um grande business. E tudo isso é lastimável, muito lastimável…
Isso afeta especialmente o cinema nacional, cuja retomada se deu no início dos anos 1990 com o já “clássico” Carlota Joaquina, da diretora Carla Camurati. Hoje em dia, muitos filmes nacionais bons entram em cartaz em um circuito restritíssimo, ficam uma semana (ou duas quando muito), e depois “somem” de vista sem deixar rastro. Inclusive, muitos acabam não saindo nem em DVD, o que prejudica ainda mais camaradas como eu que, num mundo de superficialidades e banalidades, ainda gostam de se surpreender e terem suas mentes desafiadas por histórias inteligentes e bem filmadas – a despeito das já conhecidas restrições orçamentárias que envolvem qualquer empreitada cultural em nosso país.
No entanto, sempre existem espaços que acabam funcionando como bastiões da resistência. Situado na Gávea, o belíssimo e gradioso casarão da família Salles deu origem ao Instituto Moreira Salles (IMS) – um dos espaços culturais mais agradáveis e aconchegantes que existem no Rio de Janeiro. O complexo, por si só, já é uma obra de arte: encravado na floresta, com um rio cortando ao meio a propriedade, o casarão que já foi a residência da família e abrigou várias recepções a chefes de Estado e diplomatas (afinal, o patriarca, além de banqueiro fundador do Unibanco, foi Embaixador do Brasil nos Estados Unidos), atualmente têm uma série de obras de arte espalhados pelos seus inúmeros jardins. Além disso, o IMS possui uma programação variada sempre com vários atrativos, que envolvem desde exposições de fotografias e artes plásticas, até o charmosíssimo cinema – antiga sala de projeção da família -, que possibilita aos abnegados como esse Escriba que vos fala a asssistir esses filmes cults “of-of-of” circuito comercial.
Conheci o IMS em janeiro desse ano, quando fui assistir o belíssimo filme Cafe de Maestros – uma espécie de Buena Vista Social Club argentino, abordando o universo do tango -, e acabei me deparando com uma exposição de algumas obras de Lasar Segall, um dos artistas plásticos brasileiros mais fantásticos e universais que já conheci. O local é bastante tranquilo, com estacionamento gratuito e uma cafeteria muito bonita, uma oásis de paz em meio à maluquice da metrópole. Dei-me um pouco de alento ao meu espírito ao sorver um capuccino na beira da piscina, acompanhado pelo som do riacho, do verde da floresta e do projeto paisagístico deslumbrante. Uma maravilha, um luxo que merecemos na vida de vez em quando…
Aliás, o local não poderia ser menos generoso com os cinéfilos. Afinal, dois dos filhos do diplomata e banqueiro seguiram a carreira de cineasta. O primeiro, e o mais famoso deles, é Walter Salles Jr., o consagrado diretor de obras maravilhosas como Terra Estrangeira, Central do Brasil, Abril Despedaçado e Linha de Passe, dentre outras. O segundo, João Moreira Salles, é um documentarista de mão cheia, tendo dirigido o polêmico Notícias de Uma Guerra Particular e o belíssimo Santiago.
Foi para lá que me dirigi nesta terça-feira, no horário ingrato das 14:00 horas, para ver um filme que estava despertando muito a minha curiosidade, desde que soube que a história seria transposta para a tela do cinema…
Fui ver Fronteira (2008), segundo longa metragem do diretor mineiro Rafael Conde, que é também professor da UFMG. Confesso desde o início que o que mais me interessou foi o fato de que trata-se de uma adaptação para o cinema do romance homônimo do escritor mineiro Cornélio Penna. Descobri Penna por intermédio de meu pai, que me falou para prestar atenção em sua obra por se tratar de uma jóia rara da literatura brasileira – e, realmente, a sua obra só recentemente começou a ser discutida graças aos trabalhos do famoso crítico literário Luiz Costa Lima.
Penna é dos maiores expoentes da literatura introspeccionista nacional, junto com outro “monstro” que é Lúcio Cardoso (autor do romance Crônica da Casa Assassinada), que floresceu nos anos 1940 e 1950, e deu “filhotes” como a escritora Clarice Lispector – uma fã confessa dos romances de Penna. Apesar de ter escrito apenas quatro livros, sendo Fronteira o seu primeiro – e, dentre esses, A Menina Morta é considerada a sua obra-prima -, sua prosa é densa, rica em detalhes, magnificamente construída do ponto de vista textual, repleta de arabescos e broquéis. Suas personagens são atormentadas, psicologicamente complexas, envolvidas em constantes dilemas existenciais, situados na fronteira entre a normalidade e a patologia. Também são opressas frente à necessidade de individualizarem-se, enfrentando a força e o peso do conservadorismo e da tradição familiar, dos velhos hábitos e costumes cultivados pela tradicionalíssima aristocracia agrária mineira, eivada de extrema religiosidade e misticismo . Seus romances, além de enigmáticos e um tanto o quanto soturnos, trazem o ar de decadência das tradições rurais das Minas Gerais – por definição, uma terra deveras complexa e antiga em termos de costumes, hábitos e maneiras de ser e de agir.
Suas personagens são carcomidas pela passagem do tempo, corroídas pelo novo que tende a suprimir o velho, tornando-se fantasmas, zumbis, personagens de si mesmas em uma trama na qual não possuem o menor controle. No fundo, parecem estátuas de sal, prestes a serem varridas pela poeira do deserto, erodidas em seu anacronismo e inconsistência. A ambientação de suas tramas quase sempre se passa em fazendas em ruínas, com janelas destroçadas e pisos que rangem, verdadeiros monumentos empoeirados de um Brasil do ciclo do ouro, dos diamantes e do café. Lá, brancos e negros, fé e crendices, profecias, milagres e sortilégios se entreteceram, formando uma rica tessitura que ilustra a cultura de um Brasil rural decadente, cujas tradições teimam em perdurar apesar da marcha inexorável do tempo – e da urbanização…
Adaptações literárias para o cinema são muito perigosas, especialmente quando a tarefa envolve a transposição para a telona uma estórica tão rica, densa e magistralmente construída como os romances de Penna. No entanto, o filme de Conde é uma maravilha, extremamente bem-feito, merece loas de elogios. Fiquei muito impressionado com a competência e o bom gosto do diretor, especialmente no que diz respeito à sucessão de imagens que, ao longo da película, ilustram com tamanha propriedade o universo poético do autor. Estão lá, desde a primeira tomada, os arquétipos basilares do universo de Penna: desde a longa tomada com as montanhas das Minas Gerais, passando pelo decadente casarão em ruínas, envolvido na grande maioria das vezes em brumas, tal como a ocultar um enorme mistério (nunca revelado) a que se refere Maria Santa, escondido em um quarto escuro em um canto escondido da casa arruinada.
Além disso, outra coisa relevante, as imagens falam mais do que as próprias falas das personagens – dada que estas últimas são econômicas, repletas de simbolismo e densidade metafórica. A eloquência (e a beleza) da fotografia de Luís Abramo dá voz à trama, onde a câmara ocupa o papel subjetivo de descortinar a trama que se revela aos olhos do espectador. A religiosidade de Minas, presente na santidade de Maria e de sua rígida tia Emiliana, exalam do jogo de claro-e-escuro das frestas, e as trevas enevoadas sugerem ainda mais o grau de misticismo da crendice popular repleta de santos e meninas milagreiras.
O conflito das personagens é a tônica do filme, exposta na tensão que envolve a todos: a usurpação dos bens, os diálogos paradoxais, a austeridade do claustro que é a casa arruinada, o erotismo e a paixão presentes na relação entre a menina e o viajante anônimo, a tradição versus o sopro de modernidade que ora invade a casa sob forma da luminosidade estonteante proveniente das janelas abertas a duras penas.
O casarão, as personagens, as ladinhas religiosas, Conde envolve a tudo e a todos com um ar de fantasmagoria que paulatinamente vai tomando conta da trama – e também do espectador. As personagens, a menina santa, o viajante, a tia, os romeiros, todos são espectros perdidos em um tempo passado que vai sendo paulatinamente degradado, corroído, desgastado, reduzido à poeira da história, tal como frascos empoeirados arrumados em uma prateleira de uma antiga botica. Nesse sentido, a cena final é deveras eloquente, e o seu desfecho desnuda ao espectador a verdadeira dimensão do tempo psicológico das personagens.
A trilha sonora, também, é um caso à parte. Ela exala mineiridade, seja sob forma das peças sacras do compositor barroco José Maurício Nunes Garcia, seja pela trilha sonora composta pelo músico e compositor Paulo Santos, integrante desse orgulho mineiro – e brasileiro – que é a oficina Uakti.
Muitas coisas em Fronteira me fizeram lembrar outra obra-prima do cinema brasileiro recente, o belíssimo e seminal Lavoura Arcaica (2001), de Luís Fernando Carvalho. A lentidão da trama, a complexidade psicológica das personagens, os silêncios (muito mais eloquentes e expressivos que os diálogos, também magistralmente elaborados), o jogo de claro-e-escuro, o senso de experimentação e o desenvolvimento de uma linguagem cinematográfica mais ousada e autoral, tudo isso me fez pensar o filme por várias horas após a sua projeção.
O resultado disso tudo é que, além de ter visto um belíssimo filme em um horário ingrato, não me contive e voltei a ler a obra de Cornélio Penna. Uma pena que um filme tão belo e realizado com tanto afinco e esmero como Fronteira seja exibido em um circuito tão reduzido como esse.
Tudo isso não importa, se pensarmos que o objetivo do diretor era tocar o espectador. Esse, certamente, foi o meu caso. Fronteira é uma jóia rara, daquelas perdidas em gavetas obscuras em um canto esquecido da casa, prestes a ser aberta, vista e desfrutada a qualquer momento. Um segredo que só eu, e os meus queridos leitores, tem agora acesso. Um belo filme, e que me tocou profundamente…
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