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>LEONARDO MARTINELLI (1971 – 2008)

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Em busca de mais elementos que possam lançar alguma luz sobre a vida deste amigo recém passado, vejo que em 2005 ele publicou um livro de poesias intitulado Dedo no Ventilador (Editora Bem-te-Vi, 2005). Além disso, estava escrevendo uma Tese de Doutorado sobre Julio Cortázar.

Abaixo, seguem alguns poemas desse que foi o seu único livro publicado em vida. Reconheço em sua escrita o meu velho amigo dos tempos de Colégio Pentágono. Continuarei a minha busca visando uma maior divulgação de seu trabalho uma vez que, além de ter sido uma pessoa bastante interessante e intrigante, sua escrita é densa, críptica e belamente construída.

Uma pena mesmo o Léo Musgo ter nos deixado…

Her Majesty

Mulher dormindo,
aquém do espectro
luminoso de anúncios
e automóveis lassos
ao relento – seu corpo
exausto nada pede
senão que o deixemos
em paz, no silêncio
de um quarto, entregue
à calmaria do sono.

Inferno dos Amantes

Impiedosamente

Pernas e ancas recusam-se ao
moto contínuo (lencóis bocejam)
nenhuma litania à lua exceto
o olhar rasante, kamikaze – sono
içado por anzóis de luz

Impiedosamente

Dígitos febris alteram a senha
enquanto nebulosas se contorcem
sob o filtro ácido das horas
além do horizonte em pó solúvel
onde pisca vermelho um semáforo

Impiedosamente

Nietzsche: máscara mortuária

Um tufo robusto acima
dos lábios, inchando a couraça
do gesso mortuário – os pêlos
teimavam em seguir crescendo,
refluindo ao menor sinal
de vida do nariz à boca
(como parasitas em fugadas tripas do velho hospedeiro)
– tufo não: tufão
revoada
de pavios castanhos prestes
a acender no meio do rosto
explosão similar à relva
que se alastra em torno da cripta,
ao limo que germina em cada
pedra – errata esquiva da obra
erguida a golpes de martelo.

A César…

Atingido em fuga
(tiro certeiro no crânio)
o imberbe marginal
caído no meio da turba
de inúteis linchadores
enxuga com dedos barrocos
a gosma rubra da cabeça
fazendo-a respingar
nas botas do policial
que chama a ambulância
de olho na van
do repórter local

Dois fogos

1. O primeiro deseja
atacar sob o crivo desses
catres luminosos que ladeiam
cada flanco da avenida
sitiada entre dois morros
pelos comandos em guerra

2. O segundo planeja
evadir-se em vias de sinais
opostos sobre a tela
de asfalto e lama onde a chuva e os faróis desenham
torrentes de alta voltagem

Museu Cotidiano

Esquecer para lembrar: centelha inglória
da renúncia, palavras turvas, membros inertes
– muletas de causa/efeito para maior
segurança dos instintos – o corpo, fábrica
de flertes, quer abrigo, pares e poros,
um pouco de atrito – este nó que de tão
cego não desata nem sacia (tarde de maio
ou joy forever?) – exilados da carne a
envenenar-se de espírito, fardos mutuamente
inúteis – agora deixa sangrar: uma
fina, milenar garoa, salpicando carbono
em flores fósseis (voltem sempre)

Pequena paisagem

Face em foco
sobre o rio – a mão
afaga o seixo
antes de atirá-lo
ao reflexo móvel
do último gesto

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