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RETROSPECTIVA 2008: LIVROS – LITERATURA

1. Jean-Dominique BAUBY. O Escafandro e a Borboleta. São Paulo: Martins Fontes, 1997 – Vale não tanto pelo aspecto literário em si, mas pelo contexto no qual a obra foi produzida. O autor, já falecido, foi durante anos editor de uma prestigiadíssima revista de moda na França, até quando foi acometido de um AVC devastador que lhe causou o que os neurologistas denominam de locked-in syndrome – algo como “síndrome do encapsulamento”. Trata-se de uma quadro neurológico gravíssimo, onde o paciente perde as funções motoras e da linguagem, sendo incapaz de mover-se ou comunicar-se com o mundo exterior. Daí o título do livro, escrito em piscadelas pelo autor (ele manteve o movimento de um de seus olhos), relatando o que é viver encapsulado em seu invólucro de carne (para ele, um escafandro). É um relato comovente de alguém condenado a viver os últimos dias de sua vida fechado em si mesmo. Esse ano, a obra ganhou uma adaptação para o cinema, que, diga-se de passagem, foi muito boa.

2. Tahar BEN JELLOUN. O Primeiro Amor é Sempre o Último. Rio de Janeiro: Vieira & Lent, 2002 – Livro de pequenos contos desse que é considerado um dos maiores autores marroquinos da atualidade. Singelo e delicado.

3. Jorge Luis BORGES. Obra Completa. Rio de Janeiro: Editora Globo, 2002, 4 volumes – Borges, sempre ele. Um dos autores de cabeceira desse Escriba que vos fala. Universal, eterno, único, imortal, inspirador…

4. Italo CALVINO. As Cidades Invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1990 – Tudo do Calvino é de excepcional qualidade. No entanto, este livro se destaca dentre outros tantos, que são excelentes! Os relatos de Marco Pólo ao Grande Khan sobre os confins de seu império são algo daquilo do que há de mais belo na literatura universal. Calvino é, sem sombra de dúvida, um dos mestres da literatura contemporânea. Uma obra-prima!

5. Peter GODWIN. Quando Um Crocodilo Engole o Sol. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008 – Livro bastante interessante sobre a situação atual do Zimbabwe (antiga Rodésia, ex-colônia britânica), escrito por um jornalista branco nascido e criado naquele que é considerado um dos países mais pobres e conturbados do continente africano. Mostra a degradação política do país desde a descolonização, chegando ao ápice com a ascensão do ditador Robert Mugabe à Presidência do país. Trata-se de um triste relato sobre a opressão, a insanidade, a bestialidade e a destrutividade humanas em uma nação afundada em violentos e insolvíveis conflitos tribais.

6. Amin MAALOUF. O Rochedo de Tânios. São Paulo: Companhia das Letras, 1998 – Obra-prima desse que é considerado um dos expoentes da literatura libanesa atual. Como em suas outras obras, mescla ficção com dados históricos, e a trama ilustra a difícil e tensa convivência entre cristãos e muçulmanos, árabes e turcos, ocidentais e orientais, além da degradação do Império Otomano na região das montanhas libanesas. Uma das coisas mais lindas e inspiradoras que já li em toda a minha vida, e confesso que me tornei um aficcionado de seus livros. Recomendadíssimo para quem deseja conhecer um pouco mais sobre o contexto histórico da região do Levante, e especialmente sobre a delicada e intrincada teia de relações entre as diversas comunidades confessionais no Líbano do século XIX. Uma chave e tanto para entender o conturbado País do Cedro.

7. Amin MAALOUF. O Périplo de Baldassare. São Paulo: Companhia das Letras, 2002 – Outra obra interessante do autor, só que em um nível um pouco menor que o livro acima. Roteiro que mescla literatura fantástica com dados históricos, onde o protagonista sai pelo entorno do Mediterrâneo em busca de um livro onde estariam contidos todos os mistérios do universo. Muito bem escrito, lindo demais…
8. Amin MAALOUF. Jardins de Luz. Rio de Janeiro: Record, 1999 – Como virei fã, resolvi ler outras de suas obras, e me deparei com um livro bastante filosófico e um tanto o quanto sombrio. Fala dos primórdios do cristianismo na Mesopotâmia, onde os ensinamentos do Cristo eram interpretados à luz de um série de tradições orientais, tais como a filosofia do Maniqueísmo comungada por uma comunidade de ascetas que viviam em pleno deserto. Vale a pena ler!

9. Ana MIRANDA. Amrik. São Paulo: Companhia das Letras, 1997 – Uma obra não tão recente desse autora brasileira, uma das mais consagradas da nossa literatura atual. Conta a história de uma jovem camponesa e dançarina libanesa que, no início do século XX, emigra para o Brasil e vive um amor platônico. Romance profundamente feminino, delicado, intenso, bastante poético e pessoal. Uma jóia rara de tão delicada…

10. Felipe PENA. O Analfabeto Que Passou no Vestibular. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008 – A indicação vale não tanto pelo estilo em si, mas pela temática prá lá de realista. O autor, que trabalhou durante alguns anos como alto executivo em uma das maiores universidades privadas do país, escreveu uma ficção policial cuja trama – rocambolesca e frenética – se passa em uma faculdade privada “fictícia” no Rio de Janeiro, e que envolve personagens como traficantes de drogas, policiais corruptos, professores não tão inocentes assim, um reitor megalomaníaco e o seu séquito de auxiliares (“puxa-sacos”) incompetentes, desonestos e mal-preparados. Para quem conhece essa realidade, em determinados momentos chega-se até a se duvidar do caráter “ficcional” da trama. Muito legal para conhecer o estado da arte de mediocridade e leviandade que cerca o panorama atual da educação superior privada em nosso país.

11. Cornélio PENNA. Repouso. Rio de Janeiro: RM Editores, 1998 – Conheci esse autor mineiro, radicado em Petrópolis, por intermédio de meu pai – um fã de sua reduzida obra (são quatro romances ao todo). Apesar de pequena, a sua obra é densa, complexa, enigmática. Escrito nos anos 1940, Repouso é uma das coisas mais empolgantes que li até hoje, e cada vez que ao acaso abro uma página me surpreendo com a beleza e a identificação que tenho com a sua escrita. Penna é um dos grandes mestres (desconhecidos) da literatura brasileira introspeccionista, que possui ainda em suas fileiras mestres como Clarice Lispector (que em várias entrevistas na época se declarou uma admiradora de sua obra) e Lúcio Cardoso (autor de Crônica da Casa Assassinada). Li todos os seus romances e, apesar da crítica considerar A Menina Morta como a sua obra-prima, cito sempre Repouso por ter sido o meu primeiro contato com o seu universo literário. Um tesouro a ser descoberto, tal como um frasco de cristal baccarat perdido em uma prateleira empoeirada de uma botica perdida no tempo…

12 . José SARAMAGO. Ensaio Sobre a Cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2008 – Nosso patrício ganhador do Prêmio Nobel, expoente máximo da literatura contemporânea de língua portuguesa, essa obra ganhou notoriedade devido à adaptação para o cinema dirigida pelo brasileiro Fernando Meirelles (aliás, muito boa). O livro é lúgubre, tétrico, de narrativa tensa, uma descida ao Hades da degradação e animalidade humanas. Fantasia distópica, é uma ilustração bastante dramática do que poderá acontecer à civilização humana caso haja uma grave falha no processo civilizatório. Bastante recomendado, apenas para os que tem estômago forte e capacidade para construir intertextos com os exemplos que temos em nosso cotidiano. E, por fim, Saramago é sempre Saramago…

13. Marjane SATRAPI. Persépolis. São Paulo: Companhia das Letras, 2007 – Uma história em quadrinhos bastante incensada no exterior, cuja coleção completa foi publicada recentemente no Brasil. A HQ foi escrita por uma jovem designer iraniana radicada na Europa e nos EUA, e que aborda os tempos turbulentos da queda do regime do Xá e a ascensão dos aiatolás xiitas nesse país milenar chamado Irã, outrora denominado de Pérsia. Vale lembrar que a HQ ganhou uma adaptação para o cinema, que é muito bonita. Apesar da destrutividade e da violência desses tempos, os quadrinhos são lindos, os traços são delicados, e a história exala candura e beleza, com um ar bastante feminino sobre a degradação dos laços familiares e sociais em função da emergência de uma nova ordem social. Belo como a tradição, a história, as montanhas e os tapetes daquele país, tão desconhecido e mal compreendido por nós, ocidentais…

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